08/10/2026
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25 anos do 11 de Setembro: atentados redesenharam a segurança internacional e mudaram a guerra contra o terrorismo

Internacionalista Maria Tereza Miranda analisa como os ataques de 2001 influenciaram a geopolítica, ampliaram a cooperação antiterrorista e contribuíram para mudanças no cenário do Oriente Médio

Victória SilvaRedação: Victória Silva
JP MirandaReportagem: JP Miranda
sexta-feira, 11 de setembro de 2026 às 09:16
Imagem de 25 anos do 11 de Setembro: atentados redesenharam a segurança internacional e mudaram a guerra contra o terrorismo
AFP

Há 25 anos, os atentados de 11 de setembro de 2001 mudavam profundamente a política internacional e a forma como o mundo passou a tratar questões relacionadas à segurança e ao terrorismo. Naquele dia, quatro aviões comerciais foram sequestrados por integrantes da Al-Qaeda. Dois atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York; outro atingiu o Pentágono, nos arredores de Washington; e o quarto caiu na Pensilvânia após passageiros e tripulantes tentarem retomar o controle da aeronave.

Para a internacionalista e bacharel em Relações Internacionais Maria Tereza Miranda, um dos principais legados dos atentados foi a mudança na estratégia de segurança adotada pelos Estados Unidos, que passou a utilizar com maior intensidade a chamada doutrina da guerra preventiva.

“Eles passaram a adotar o que a gente chama, nas Relações Internacionais, de guerra preventiva, utilizando-se do artefato de combate ao terrorismo para prevenir possíveis guerras”, explicou.

Segundo Maria Tereza, a estratégia passou a ser utilizada em conflitos como as guerras do Afeganistão e do Iraque. No caso iraquiano, a invasão iniciada em 2003 se tornou um dos principais exemplos dessa política.

“Esse conceito é como se fosse uma autodefesa antecipada. Tipo: eu vou me defender, não sei do que exatamente ainda, mas eu vou. Só sei que eu vou me defender”, afirmou.

Guerra ao terror dominou a geopolítica por décadas

Na avaliação da especialista, durante quase duas décadas a chamada “guerra ao terror” se tornou um dos principais eixos da política internacional, especialmente para os Estados Unidos.

“Por quase duas décadas, essa guerra ao terror se tornou o eixo que permeou a política geopolítica internacional, principalmente no que tange aos Estados Unidos e de grande parte do mundo também”, destacou.

Maria Tereza avalia, no entanto, que esse cenário vem passando por um novo processo de transformação diante da ascensão de outras potências, especialmente a China.

“Eu não vou afirmar que os Estados Unidos estão perdendo a sua hegemonia, o que eu acho muito difícil isso acontecer. Mas que a China vem gradativamente ganhando mais espaço, sim, e, de uma certa forma, isso vem incomodando os Estados Unidos”, analisou.

Para ela, a atual conjuntura pode levar a uma remodelação da estratégia internacional construída após os atentados.

“Eu acredito que esse conceito poderá ser remodelado na atual conjuntura que a gente está vivendo hoje”, afirmou.

Cooperação internacional contra o terrorismo

Outro legado apontado pela internacionalista é a institucionalização da cooperação entre países no combate ao terrorismo. Segundo ela, o período posterior aos ataques ampliou mecanismos de compartilhamento de informações e inteligência.

“Acredito que o legado mais duradouro do 11 de Setembro é a institucionalização da cooperação contra o terrorismo”, disse.

De acordo com Maria Tereza, essa estrutura envolve troca de informações entre países, ampliação de sanções e atuação coordenada de organismos internacionais.

“A gente tem vários organismos que são coordenados pela ONU, pela Interpol, que se tornaram parte permanente das relações internacionais. Essa troca de informações, às vezes para o mal, às vezes para o bem, como espionagem, etc., mas isso é um reflexo desse atentado do 11 de Setembro”, explicou.

Ela também destaca que o combate ao terrorismo deixou de estar concentrado exclusivamente na perseguição à Al-Qaeda e passou a considerar novas formas de radicalização, principalmente no ambiente digital.

“Ela saiu daquela caçada mais centralizada contra a Al-Qaeda para uma resposta mais técnica e, no sentido voltado à radicalização digital mesmo”, afirmou.

As redes sociais passaram a ocupar um papel importante na análise das novas formas de recrutamento e atuação de grupos extremistas, como o Estado Islâmico.

“Buscar entender como que essas novas insurgências terroristas que existem hoje em dia, o Estado Islâmico, enfim, como eles se fortaleceram, como funciona o processo de recrutamento, então isso muito adveio do 11 de Setembro”, pontuou.

Terrorismo passou de uma ameaça centralizada para grupos descentralizados

Para Maria Tereza, outra grande transformação observada nesses 25 anos foi a mudança no próprio perfil da ameaça terrorista.

“Hoje a gente tem vários grupos descentralizados”, afirmou.

Segundo ela, o cenário atual é diferente daquele encontrado imediatamente após os atentados de 2001, quando a Al-Qaeda se tornou o principal foco da chamada guerra ao terror.

“O rosto, a ameaça à qual a gente identificava em 2001 não é a mesma que é nos dias atuais, até porque a gente tem um outro contexto geopolítico. A gente tem outras superpotências também, a exemplo da China”, avaliou.

A especialista cita conflitos e grupos presentes em diferentes regiões do mundo como exemplos dessa descentralização. Nesse contexto, o combate ao terrorismo passou a envolver diferentes atores e a se relacionar com disputas locais e internacionais.

Maria Tereza também menciona uma redução recente das mortes provocadas pelo terrorismo no mundo, indicando que os dados mais recentes de 2025 apontam uma queda de aproximadamente 28%.

“Então acredito que essa transformação do cenário, essa transformação dessa guerra ao terror vai atingindo outros patamares”, afirmou.

Estados Unidos ficaram mais polarizados e com maior vigilância

Internamente, Maria Tereza considera que os atentados também deixaram marcas profundas na sociedade norte-americana.

“Acredito que internamente os Estados Unidos saíram do 11 de Setembro como uma sociedade mais polarizada e com uma vigilância em massa normalizada, naquele sentido de você estar sendo vigiado o tempo todo”, declarou.

Ela destaca ainda a criação e o fortalecimento de estruturas de segurança interna e o impacto de duas décadas de intervenções militares no exterior.

A retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, em 2021, também é apontada pela especialista como um momento importante desse processo, contribuindo para uma postura mais cética da população em relação a intervenções militares prolongadas.

Oriente Médio foi profundamente redesenhado

Outro impacto considerado significativo pela internacionalista está relacionado ao Oriente Médio. Para Maria Tereza, as intervenções militares realizadas depois dos atentados contribuíram para uma profunda transformação da região.

“O Oriente Médio ao qual a gente conhece hoje saiu completamente redesenhado nesse processo”, afirmou.

Na avaliação dela, a invasão do Iraque teve papel importante na desestabilização regional e criou condições para o surgimento ou fortalecimento de novos grupos extremistas.

“A invasão do Iraque desestabilizou a região de uma forma muito grande e, indiretamente, também ajudou a criar novas condições e surgimento, por exemplo, do Estado Islâmico, Hezbollah no Líbano, enfim, desses grupos terroristas”, explicou.

Ao completar 25 anos, o 11 de Setembro permanece como um dos acontecimentos mais marcantes da história contemporânea. Para Maria Tereza, os atentados criaram uma arquitetura internacional de combate ao terrorismo que continua sendo utilizada, mas que vem sendo adaptada diante das mudanças na geopolítica mundial.

“Ele criou toda essa arquitetura institucional contra o terrorismo que é utilizada até hoje. Mas o rosto, a ameaça à qual a gente identificava em 2001 não é a mesma que é nos dias atuais”, concluiu.

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