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Afastamentos por saúde superam 4 milhões em 2025 e acendem alerta sobre doenças mentais e dores na coluna

Especialista defende prevenção nas empresas como caminho para reduzir custos e absenteísmo

Por Rafa
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Imagem de Afastamentos por saúde superam 4 milhões em 2025 e acendem alerta sobre doenças mentais e dores na coluna

Mais de 4,12 milhões de trabalhadores brasileiros precisaram se afastar temporariamente do trabalho em 2025 por motivos de saúde. O número, contabilizado pelo Ministério da Previdência Social, representa o maior volume de licenças por incapacidade temporária desde 2021 e é 15% superior aos pouco mais de 3,58 milhões de casos registrados em 2024.

De acordo com os dados oficiais, pelo terceiro ano consecutivo, as dores nas costas lideraram o ranking dos afastamentos. Somente os casos de dorsalgia (CID M54) levaram o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) a conceder 237.113 benefícios a trabalhadores que precisaram se afastar por mais de 15 dias. Em 2024, haviam sido 205.142 registros.

Na sequência aparecem lesões ou desgastes dos discos intervertebrais (CID M51), como hérnias de disco, que totalizaram 208.727 casos em 2025, além de fraturas na perna e tornozelo (CID S82), com 179.743 concessões. Os números superam os do ano anterior em todas essas categorias.

O ranking também evidencia o crescimento de transtornos mentais e comportamentais. A ansiedade (CID F41) aparece na quarta colocação geral, com 166.489 benefícios concedidos. Já os episódios depressivos ocupam a sexta posição, com 126.608 registros — ambos em trajetória de alta em relação a 2024.

Para o médico e advogado Dr. Luccas Almeida, os dados revelam um cenário preocupante e multifatorial.

“Se a gente parar para analisar os números, a gente tem principalmente as doenças mentais e as doenças osteomusculares como principais fatores de afastamento”, explica.

Segundo ele, no caso dos transtornos psíquicos, ainda há reflexos da pandemia, mas o problema vai além disso.

“Em relação às doenças mentais, temos a sequela mental da covid-19, mas paralelamente a isso existem as condições e a organização do trabalho. Jornadas longas, precarização, terceirização, desemprego e pressão por produtividade aumentam o adoecimento dos colaboradores”, afirma.

O especialista também chama atenção para o envelhecimento da força de trabalho.

“A partir do momento que temos uma maior taxa de comorbidade e fragilidade desses colaboradores, é notório o aumento das doenças osteomusculares, principalmente em ombro e coluna.”

Dr. Luccas destaca que, no caso das lesões osteomusculares, medidas preventivas podem ser relativamente simples e eficazes.

“Atitudes como implantação de ginástica laboral, revezamento de funções repetitivas, descanso programado e evitar jornadas exaustivas que ultrapassem ilegalmente o limite de horas extras são fundamentais”, orienta.

Ele também ressalta a importância da ergonomia no ambiente de trabalho. “Cadeiras com apoio de braço, altura adequada do computador, iluminação correta. Todas essas questões vão prevenir as lesões osteomusculares.”

Já no campo da saúde mental, o cuidado exige estratégias mais amplas. “Algumas atitudes como promover um ambiente físico adequado, com boa iluminação e diminuição de ruído, ajudam. Mas a principal questão tem a ver com a relação de trabalho, com a escuta ativa do superior hierárquico e com a construção de uma rede de suporte entre os colegas”, pontua.

O médico defende que as empresas ampliem o acesso dos trabalhadores a serviços de saúde mental.

“Facilitar o acesso a atendimento psicológico, seja por telemedicina ou convênio, promover mentorias e capacitações e incentivar a educação sobre saúde mental e autocuidado são ações essenciais.”

Ele reforça que hábitos simples fazem diferença. “O sono importa, a alimentação importa, a prática regular de atividade física importa. Ao menor sinal de alteração mental, o colaborador deve procurar ajuda. Muitas vezes esses sinais são ignorados por falta de conhecimento e, quando se percebe, já é necessário um afastamento mais prolongado.”

Para o especialista, investir em saúde ocupacional é também uma medida econômica.

“Eu sempre digo que o custo da prevenção é infinitamente menor do que o custo da remediação de doenças. O mesmo vale para a saúde ocupacional”, destaca.

Ele defende que o suporte oferecido ao trabalhador vá além do atendimento médico. “Não estou falando somente de suporte médico, mas também nutricional, psicológico e físico. Campanhas educativas e programas de bem-estar diminuem os afastamentos.”

Como exemplo, ele cita condições crônicas comuns no ambiente corporativo. “Um colaborador com hipertensão pode controlar a pressão com medicamento, atividade física e alimentação adequada. Um colaborador ansioso pode se beneficiar de técnicas de respiração, melhora do sono e redução de álcool e cigarro. São práticas simples que, quando manejadas no contrato de trabalho, evitam afastamentos.”

Além de reduzir o absenteísmo, o médico afirma que a prevenção preserva a saúde funcional das empresas e reduz os custos para a Previdência Social.

Nos casos em que o afastamento é inevitável, o retorno também precisa ser planejado.

“Havendo a necessidade de afastamento, o retorno às atividades deve ser feito de forma cautelosa e bem gerida. Às vezes o colaborador precisa ser realocado de função, às vezes pode permanecer na mesma. Esse acompanhamento próximo diminui a prevalência de novos afastamentos”, conclui.

*Com informações do repórter JP Miranda

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