Levantamento do IBGE aponta sexto ano consecutivo de queda nos registros de nascimento
A Bahia registrou, em 2024, o menor número de nascimentos dos últimos 50 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao todo, foram contabilizados 159.337 nascimentos no estado, o que representa uma redução de 6,6% em relação a 2023.
O levantamento mostra ainda que este foi o sexto ano consecutivo de queda, uma sequência iniciada em 2018, quando a Bahia registrou 202.686 nascimentos. De acordo com o IBGE, o fenômeno atingiu 69,8% dos municípios baianos. As maiores reduções foram observadas em Salvador (9,2%), Feira de Santana (8,3%) e Vitória da Conquista (6,3%). A capital baiana apresentou o terceiro maior recuo entre as capitais brasileiras e o menor índice desde 1974, início da série histórica.
Segundo a doutora em Geografia, Nacelice Freitas, os dados refletem uma tendência de longo prazo. “Esse cenário indica uma diminuição do ritmo de crescimento da população, iniciada ainda na década de 1980. Atualmente, a média está entre 1,5 e 1,6 filhos por mulher, enquanto na década de 1940 esse número chegava a 6,2 filhos por família”, explicou.
A especialista alertou para os impactos diretos da queda da natalidade no desenvolvimento humano e econômico. “Os dados mostram que teremos menos trabalhadores, menos contribuintes e dificuldades para garantir aposentadorias. Nosso futuro fica ameaçado, principalmente na Bahia, que reflete o que já acontece no Brasil e em grande parte do mundo. Isso é muito perigoso”, afirmou.
Nacelice destacou que o problema tem levado diversos países a adotarem políticas de incentivo à natalidade. “O futuro é assustador e ameaçador. É preciso incentivar a natalidade e, ao mesmo tempo, investir em produtividade. Países como China, França, Suécia, Dinamarca, Itália, Japão e Singapura já enfrentam esse desafio, mesmo sendo, em sua maioria, países desenvolvidos”, disse. Segundo ela, a redução do número de nascimentos impacta diretamente o crescimento econômico, já que “população significa recursos humanos, e recursos humanos trabalhando significam riqueza”.
Entre os fatores que explicam a diminuição da natalidade, a doutora aponta a entrada da mulher no mercado de trabalho, impulsionada pela crise econômica. “Hoje, o pai sozinho muitas vezes não consegue suprir todas as necessidades da família. A mulher precisou trabalhar, mas isso dificulta a decisão de ter filhos, principalmente diante da falta de garantias como saúde, lazer e creches”, pontuou.
A pesquisadora também ressaltou questões sociais e culturais, como o machismo e a ausência de corresponsabilidade paterna. “A sociedade ainda é machista, misógina e sexista, o que contribui para o alto número de mães solo, dificultando o aumento do número de filhos nas famílias”, destacou.
Outro fator citado é a insegurança social e econômica. Segundo Nacelice, muitas famílias optam por ter menos filhos como forma de garantir melhores condições de vida. “Ter menos filhos acaba sendo uma estratégia para assegurar saúde, educação e qualidade de vida. Um número maior de filhos traz mais incertezas”, avaliou.
Ao final, a doutora reforçou a necessidade de políticas públicas estruturantes: “Nosso futuro está ameaçado e precisamos redefinir a sociedade, o padrão familiar e o papel da mulher. É fundamental eleger representantes comprometidos com políticas progressistas, que pensem em programas e projetos que defendam a mulher, garantam condições para que ela possa ter filhos e trabalhar”, afirmou.
Segundo ela, essas políticas passam por investimentos em educação em tempo integral, creches de qualidade, saúde pública eficiente e valorização do salário mínimo. “Não se trata de um salário mínimo para sobreviver, mas para garantir qualidade de vida. Falta investimento em creches e em educação de qualidade, o que impacta diretamente nas decisões das famílias”, concluiu.
*com informações do repórter Robson Nascimento