Evento do MOC reúne lideranças para discutir estratégias
O Movimento de Organização Comunitária (MOC) lançou, nesta quarta-feira (19), no auditório da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), a campanha “Sem Medo – Pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres”, iniciativa que integra os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher. O evento reuniu educadores, lideranças sociais, movimentos de mulheres, representantes de comunidades e organizações dos territórios Portal do Sertão, Sisal, Bacia do Jacuípe e Litoral Norte.
Antes da solenidade, o MOC também promoveu a Premiação Caatinga na Mídia, que reconhece produções jornalísticas e comunicacionais que valorizam o bioma e as práticas sustentáveis no semiárido baiano.

Entre as lideranças presentes, a coordenadora da Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência em Feira de Santana, Marinalda Soares, destacou o papel das organizações parceiras e a importância do momento para ampliar o debate sobre desigualdades raciais e de gênero.

“Nós mulheres negras somos sempre as mais invisibilizadas, as que mais morrem, as que mais sofrem ataques dentro e fora de casa. Estar aqui construindo isso junto com outras entidades significa levar conhecimento para nossa base e também trazer de volta informações que serão multiplicadas nas comunidades”, afirmou.

Marinalda ressaltou que o objetivo principal é transformar informação em ação.
“Nós buscamos políticas públicas que não fiquem no papel. Queremos levar essas discussões para mulheres que não têm acesso, dentro das comunidades, dos CRAS e até dentro de minhas aulas de alfabetização no Conjunto Amazonas, onde trabalho diretamente com mulheres negras da região”.
A coordenadora do Programa de Gênero, Geração e Igualdade Racial do MOC, Selma Glória, reforçou que a campanha amplia o olhar sobre todas as fases da vida feminina.

“A violência atravessa as meninas desde muito cedo. Os dados mostram índices altíssimos de violência sexual contra crianças e adolescentes, majoritariamente meninas. Trazer essa discussão é reconhecer que as desigualdades começam cedo e precisamos romper esse ciclo antes que ele se repita geração após geração”, explicou.

Selma destacou ainda a centralidade do recorte racial na campanha.
“As principais vítimas de violência, inclusive de feminicídio, são mulheres negras. Somos diferentes nas nossas experiências de raça, classe e território, e essas diferenças também são usadas pelos agressores. Por isso precisamos dar visibilidade e fortalecer essas meninas e mulheres”, completou.
O presidente do MOC, Edisvânio Nascimento, enfatizou a urgência do enfrentamento à violência de gênero e a necessidade de desconstrução de práticas machistas.

“É doloroso saber que a Bahia ainda é o estado mais violento do Nordeste quando o assunto é violência contra a mulher. A campanha ‘Sem Medo’ existe para combater esse silenciamento secular. A mulher não precisa de autorização de homem para ocupar espaço nenhum. Respeito é direito, não concessão”, afirmou.

Ele também destacou que a mobilização deve envolver toda a sociedade.
“Quando silenciamos diante de um ato de violência, também estamos sendo cúmplices. Essa campanha não é do MOC, não é de Selma, não é de uma pessoa só. É de todos e todas que querem erradicar a violência de gênero”, disse.
A campanha faz parte da mobilização global iniciada no Dia da Consciência Negra (20 de novembro) e que segue até o Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro). As ações têm foco especial nas mulheres negras, grupo mais afetado pela violência de gênero no Brasil.

*Com informações da repórter JP Miranda