Com 22 anos de atuação no setor, empresário e compositor Antônio Dyggs fala sobre planejamento, riscos, novas experiências e o impacto dos eventos na economia de Feira de Santana.
O setor de entretenimento possui uma dinâmica própria e exige dos empresários planejamento, capacidade de antecipar tendências e conhecimento sobre o comportamento do público. Em Feira de Santana, o segmento vem ganhando espaço com grandes shows, novos formatos e experiências diversificadas.
Esse foi um dos assuntos abordados pelo empresário e compositor Antônio Dyggs, entrevistado no quadro Hora do Empreendedorismo, do Jornal do Meio Dia. Com 22 anos de atuação no setor, ele falou sobre as oportunidades e os desafios de empreender no mercado de eventos, além da importância de Feira de Santana no circuito de grandes atrações.
Segundo Dyggs, trabalhar com entretenimento exige pensar muito além do momento atual.
“O setor de entretenimento segue uma lógica um pouco diferente dos outros setores, porque você acaba tendo que seguir tendências muito de perto. A gente precisa antecipar quais são as vontades do público, o que a galera quer ver, o que vai dar certo daqui a seis meses, um ano.”
Para o empresário, o planejamento começa muito antes da realização do evento, principalmente quando envolve grandes atrações. Ele afirma que a agenda dos artistas já está sendo preenchida com bastante antecedência.
“Hoje você não consegue bandas grandes para contratar para o ano de 2026. Até dezembro todo mundo está com agenda. A gente está agora em setembro. Então qualquer contratação que é feita já é feita para o ano de 2027.”
Dyggs revela que já possui atrações contratadas para diferentes períodos do próximo ano.
“Eu já tenho contratado bandas aqui para abril de 2027, julho de 2027, agosto de 2027. Então empreender no entretenimento é você tentar entender o que a galera vai querer lá na frente. Nunca é imediato. A gente sempre tem que pensar lá na frente.”
Na avaliação de Antônio Dyggs, Feira de Santana ocupa uma posição estratégica no mercado de eventos e já demonstra capacidade de receber grandes produções que também passam pelas capitais.
“Feira é de fato um grande polo do entretenimento no Brasil. Turnês que passam somente em capitais cabe fazer em Feira de Santana. Feira de Santana já fez eventos com os maiores artistas do Brasil e tem sido cada vez mais parte desse mapa quando a galera faz as turnês aqui pelo Nordeste.”
O empresário também chama atenção para os custos de logística, especialmente quando uma atração precisa se deslocar exclusivamente para Feira de Santana.
“Passagem de avião hoje virou um grande limitador no tipo de banda que você consegue trazer de fora. Às vezes, só o deslocamento, se ele vier só para Feira de Santana sem dividir com outros lugares próximos, como Salvador, Aracaju, Maceió, pode custar tipo 30% do valor de toda a planilha, ou do cachê, somente de logística.”
Por isso, segundo ele, a escolha das atrações envolve não apenas a preferência do público, mas também uma análise financeira e logística.
“Por trabalhar de maneira muito eclética, você vai fazendo uma escolha de acordo primeiro com o que você entende que vai ser bem aceito pelo público e, por outro, também pelas oportunidades que aparecem.”
O mercado de entretenimento também passou por mudanças nos últimos anos. Antônio Dyggs lembra que Feira de Santana já teve um período de forte concorrência entre produtores e casas de eventos.
“Teve uma época que você tinha cinco, seis casas de show, cinco, seis grupos diferentes que faziam eventos e faziam um evento no mesmo dia, disputavam entre si. Parte dos meus sócios hoje também já foram meus concorrentes.”
Segundo o empresário, o aumento dos cachês das atrações também mudou o cenário.
“O mundo foi mudando, principalmente de uns sete, oito anos para cá. O cachê das bandas foi indo para outros patamares. Até os prefeitos estavam reclamando sobre os cachês. As bandas foram ficando caras justamente por causa dessa concorrência de poder público contratando essas bandas.”
Diante desse cenário, ele afirma que o setor privado precisa buscar novas alternativas.
“O privado precisa se reinventar. Precisa entender novas possibilidades.”
Dyggs cita a diversificação da programação como uma das estratégias utilizadas. Segundo ele, enquanto em um determinado período houve maior concentração de shows de arrocha, atualmente a programação contempla diferentes estilos e públicos.
“Ano passado a gente fez seis ou sete shows de arrocha. Esse ano a gente só fez um, que foi o Pablo. Mas a gente fez Roupa Nova, fez João Gomes com Mestrinho, fez Humberto Gessinger, fez Zé Ramalho. Vai rolar o Nando Reis aqui no Espaço Verde da Abóbora, que é um novo espaço.”
Para ele, a experiência oferecida ao público passou a ser tão importante quanto a própria atração.
“A maneira da gente se reinventar é justamente criando novos espaços, novas tendências também de como você apresentar o entretenimento para as pessoas da cidade.”
Ele cita o Centro de Convenções como um exemplo da possibilidade de realização de diferentes formatos de eventos.
“Eu tenho muito orgulho quando vou lá. Fico feliz e orgulhoso por a gente ter hoje um Centro de Convenções que permite fazer diferentes eventos ali.”
Segundo Dyggs, o modelo tradicional de simplesmente colocar uma banda no palco já não é suficiente.
“Não dá para fazer tudo só como você fazia há dez, vinte anos atrás. Joga a banda lá, vende o ingresso e o palco quadradão e todo mundo vai. Não. Você precisa despertar de fato o interesse para que as pessoas queiram viver essas novas experiências.”
Entre os próximos projetos citados pelo empresário está um show de Nando Reis, que será realizado em uma área verde do Complexo Cultural Carro de Boi, na região da Avenida Presidente Dutra.
Antônio Dyggs explica que o ambiente também fará parte da proposta do evento.
“O show começa exatamente quando o sol se põe. Para quem não conhece o pôr do sol ali daquele espaço da Abóbora, é incrível. Se você parar no meio daquelas árvores e esperar o horário do sol se pôr, é um lugar no centro da cidade, em plena Presidente Dutra, que tem uma visão extremamente bonita do sol se pondo.”
A ideia, segundo ele, é proporcionar uma experiência diferente ao público.
“A gente se propôs a fazer esse evento numa área verde de um lugar que é importante historicamente para a cidade e que ainda tem um pôr do sol lindo. E o horário que Nando começa a tocar é num horário que o sol se põe. Então tudo isso faz com que você renove o interesse das pessoas.”
Durante a entrevista, Antônio Dyggs também comentou sobre a percepção de que as pessoas estariam deixando de frequentar eventos por causa das redes sociais ou de dificuldades econômicas.
Para ele, existe uma mudança no comportamento de determinados públicos, especialmente entre os mais jovens, mas isso não significa o desaparecimento do mercado.
“Hoje o jovem se insere um pouco depois nesse mercado do entretenimento. Existe um consumo menor de bebidas, que é natural acontecer. Existe toda uma preocupação hoje em você poder estar cuidando da sua saúde, que é mais do que natural e até importante.”
O empresário afirma que o mercado precisa ser estudado e acompanhado de acordo com essas transformações.
“Tem mercado para tudo desde que você estude o mercado.”
Na avaliação de Dyggs, o empreendedor não pode simplesmente atribuir os resultados negativos às condições econômicas do país ou do mercado.
“Quando você reclama do seu mercado é porque você não estudou ele suficientemente. Aí você terceiriza a culpa. ‘Ah, porque o Brasil está quebrado. Ah, porque meu negócio não funciona mais’. Seu negócio não funciona mais ou você não estudou ele direito ou então você precisa trocar de negócio.”
Outro ponto destacado pelo empresário foi o risco financeiro envolvido na realização de eventos. Segundo ele, uma produção pode exigir investimentos elevados e ter seu resultado definido em apenas um dia.
“O mercado de entretenimento é um mercado difícil. Eu sei que muita gente saiu do mercado porque é arriscado. Um investimento que você coloca numa festa, às vezes, que dura um dia, é o mesmo investimento às vezes de abrir uma loja que dura dez anos.”
Dyggs explica que nem todos os eventos apresentam o mesmo resultado e que isso precisa estar previsto no planejamento.
“Tem festa hoje, deu maravilha, mas daqui a dois meses pode fazer e não ser tão bom assim. É normal também do mercado. Você não só acerta.”
O empresário afirma que costuma tratar com transparência os resultados das produções.
“Quando a galera me vê na internet, eu falo: gente, tem evento que você não ganha dinheiro, tem evento que você perde.”
Para ele, o importante é analisar o desempenho de toda a operação ao longo do ano.
“Você precisa acertar mais do que errar. Vai ter evento que não vai sair do jeito que você imaginou que sairia, só que você tem que colocar como é o seu resultado ao longo do ano.”
Dyggs utiliza uma média de 70% de acertos e 30% de erros como referência para o segmento.
“No ramo do entretenimento você precisa acertar pelo menos 70%, mas tem 30% que vai errar e faz parte. Está na conta, está no que você também vai prever.”
Segundo ele, os resultados obtidos até o momento em 2026 estão dentro da expectativa.
“Esse ano eu estou com uma média de erro de, digamos, 12%. Então estou dentro da minha média, que é 30% de errar e acertar 70%. Errei 12%, os outros 88% estão acertando.”
A trajetória de Antônio Dyggs no entretenimento começou ainda durante a universidade. Formado em Direito pela Universidade Estadual de Feira de Santana, ele chegou a trabalhar no Tribunal de Justiça da Bahia antes de decidir seguir definitivamente no setor empresarial.
O primeiro contato com a organização de eventos surgiu a partir de uma necessidade percebida dentro da própria universidade.
“Quando eu entrei na UEFS, no primeiro semestre, eu percebi a distância que existia entre a galera que estava no primeiro semestre e o pessoal que estava terminando lá, sexto, sétimo, oitavo, nono. Ninguém tinha contato um com o outro.”
A partir daí, surgiu a ideia de criar um evento para aproximar estudantes de diferentes períodos do curso de Direito.
“Na Micareta tinha um projeto que eu já conhecia, que era o Barracão de Engenharia, o Barracão de Geografia. Eu percebia que todo mundo era muito próximo um do outro. Eu falei: ‘Vamos montar o Barracão de Direito para tentar aproximar a galera do curso’.”
O projeto cresceu e acabou despertando o interesse pelo setor.
“Foi através do Barracão de Direito, que acabou virando um sucesso na época, que eu fui gostando do entretenimento.”
Depois, veio a decisão de deixar a carreira no serviço público para se dedicar ao empreendedorismo.
“Chegou uma época na minha vida que eu tive que escolher quem eu era nessa bagaça toda. Eu era um empresário do entretenimento ou era o analista?”
A escolha não foi simples, principalmente pela estabilidade que o cargo público representava.
“Na época fui em casa, foi meio complexo, porque eu era concursado. Então meus pais falaram: ‘Você é maluco? Como assim? Você vai pedir exoneração para se aventurar no empreendedorismo?’”
Apesar das dúvidas, ele decidiu seguir o caminho empresarial.
“O entretenimento me realizava muito.”
Para Antônio Dyggs, trabalhar com entretenimento também significa participar de momentos importantes da vida das pessoas.
“Tem pessoas que até hoje me encontram, eu tenho vinte anos nisso, que encontraram seus pares, seus cônjuges dentro de festas, fizeram amizade com os melhores amigos da vida, se encontraram em eventos. Então tudo isso faz parte da história das pessoas também.”
Ele destaca que o entretenimento não se resume à música, bebida ou diversão, mas também envolve experiências e relações sociais.
“A gente não quer só comida, nem bebida. Diversão, arte, a gente quer tudo um pouco. O entretenimento faz parte da vida das pessoas desde que o mundo é mundo.”
Na avaliação do empresário, os eventos também funcionam como instrumentos de movimentação econômica.
“Evento nunca é só um evento. Um evento na cidade como Feira de Santana, que é um grande polo para inúmeras coisas, é também uma grande mola propulsora para o nosso comércio.”
Dyggs cita como exemplo um evento que reuniu cerca de 20 mil pessoas e afirma que os efeitos podem ser percebidos em diferentes setores.
“Quando eu faço um evento como fizemos o Tiquequê, que foi um evento que reuniu quase 20 mil pessoas, você mexe com a economia da cidade.”
Segundo ele, o impacto chega às lojas, salões de beleza, barbearias, transporte por aplicativo e outros serviços.
“As pessoas das lojas mandando mensagem para a gente falando: ‘Olha, essa semana eu vendi os looks todos porque o pessoal está procurando’. Os salões lotados, barbearia lotada, Uber trabalha ainda mais numa noite que teoricamente não teria aquele movimento.”
Para Dyggs, uma cidade economicamente forte é aquela onde o dinheiro circula por diferentes setores.
“A cidade rica de verdade não é a cidade que tem um bocado de gente rica, mora em supercondomínio. É a cidade onde o dinheiro gira um pouquinho na mão de todo mundo. É isso que faz a cidade ficar forte, é isso que faz a cidade crescer.”
O empresário também defende a importância da Micareta de Feira de Santana para a economia local, independentemente de estar ou não diretamente envolvido em negócios durante a festa.
“É por isso que eu defendo tanto a Micareta. Independente de eu ter negócio na Micareta ou não. No ano que eu não tive, defendi do mesmo jeito.”
Ele destaca a cadeia de profissionais que participa da realização de uma grande festa.
“A Micareta gera um monte de pessoas trabalhando em produção, em luz, em som, em trios, em camarins, em segurança, em portarias, em tudo que você imaginar.”
Na avaliação do empresário, o fortalecimento do entretenimento também contribui para consolidar Feira de Santana como polo regional.
“Feira de Santana demonstra cada vez mais ser um polo importante de vários segmentos e do entretenimento também.”
Antônio Dyggs encerrou a participação no Hora do Empreendedorismo destacando que, além do trabalho e dos negócios, a população também precisa de espaços para lazer e diversão.
“A vida não é só trabalho. A vida também é diversão.”