Ginecologista Márcia Suely e a secretária Neinha Bastos alertam para os impactos da sobrecarga feminina na saúde física e emocional
As mulheres, tradicionalmente vistas como pilares da família e responsáveis pelo cuidado com filhos, companheiros e familiares, muitas vezes acabam negligenciando a própria saúde. O tema foi debatido no quadro Mulheres em Paut, apresentado pela ginecologista Dra. Márcia Suely, que recebeu a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Neinha Bastos, para discutir o assunto: “Mulheres que cuidam de todos, mas esquecem de si”.
A médica destacou que muitas mulheres não percebem o quanto estão deixando o próprio bem-estar em segundo plano, até que sintomas físicos e emocionais se tornem mais graves.
“Hoje eu resolvi falar sobre um tema que muitas vezes as mulheres esquecem, que é exatamente cuidar de si. Muitas vezes elas não se percebem que estão esquecendo de si, deixando de se cuidar”, afirmou Dra. Márcia.
Segundo ela, a negligência costuma surgir no consultório por meio de queixas aparentemente simples, mas que escondem problemas maiores.
“Mulheres chegam com dores na relação, baixa autoestima, irregularidades menstruais, alterações hormonais. Muitas coisas são banalizadas e normalizadas por elas”, explicou.
A secretária Neinha Bastos reforçou que a mulher, na maioria das vezes, coloca suas próprias necessidades em último lugar devido às múltiplas responsabilidades do cotidiano.
“Infelizmente, nós mulheres pegamos a nossa necessidade, botamos em uma caixinha, como se nós fôssemos a última da fila. Você se envolve com a casa, com a família, com o trabalho, e de você, você não consegue cuidar”, disse.
Ela ressaltou ainda que a cobrança social e cultural faz com que muitas mulheres sintam culpa ao reservar tempo para si mesmas.
“Muitas vezes ela não vai no salão, não vai fazer a unha, não tira uma tarde para fazer o que gosta, porque sempre vai dar prioridade a outras coisas”, observou.
A ginecologista acrescentou que muitas mulheres ainda interpretam o autocuidado como egoísmo.
“A mulher acha que, quando começa a cuidar de si, está deixando de cuidar dos outros. Mas, se ela não estiver bem, dificilmente vai conseguir cuidar de quem ama”, pontuou.
Dra. Márcia compartilhou um caso recente atendido no Centro de Prevenção do Câncer para alertar sobre os riscos da falta de acompanhamento ginecológico.
Segundo a médica, uma paciente de apenas 35 anos procurou atendimento após anos sem realizar o exame preventivo.
“Ela me disse que estava sangrando há muito tempo, com corrimento e odor muito forte. Quando examinei, havia um tumor no colo do útero visível a olho nu”, relatou.
A paciente, conforme contou a médica, não fazia o exame preventivo havia mais de cinco anos.
“Ela tinha câncer do colo do útero aos 35 anos porque negligenciou o cuidado com a saúde, priorizando trabalho e outras responsabilidades”, lamentou.
A especialista reforçou que o cuidado com a saúde feminina deve ser contínuo.
“O cuidado não deve começar quando a mulher fica mais velha. Deve ser contínuo, desde que ela se torna adulta”, alertou.
Outro ponto abordado foi o impacto da saúde emocional e espiritual no bem-estar feminino. Neinha Bastos afirmou que o adoecimento emocional tem sido uma das principais demandas recebidas na Secretaria da Mulher.
“O maior índice hoje são mulheres sofrendo psicologicamente, emocionalmente, porque tudo vai sendo acumulado”, destacou.
Ela também falou sobre a importância da fé como fortalecimento emocional.
“Quando buscamos a graça e a força de Deus, encontramos forças para buscar ajuda. Viver sem Deus é como folha seca ao vento”, afirmou.
Além da espiritualidade, Dra. Márcia destacou a importância das relações saudáveis e da rede de apoio.
“Muita gente cuida de todo mundo, mas não tem ninguém para conversar, para dizer: ‘eu também não estou bem’. Cultivar boas relações ajuda muito no processo de autocuidado”, disse.
À frente da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Neinha Bastos também falou sobre os desafios enfrentados por mulheres vítimas de violência psicológica, patrimonial, física e sexual.
“Essas mulheres chegam arrebentadas, chorando, desistindo de viver, porque estão sendo perseguidas e abusadas emocionalmente”, relatou.
Ela alertou ainda para formas de violência muitas vezes naturalizadas.
“Uma mensagem abusiva no telefone também é crime. Se ela não quer, ela não quer”, enfatizou.
A secretária lembrou que denúncias podem ser feitas de forma sigilosa por meio dos canais oficiais.
“Disque 180, Disque 100 ou 190. Quem denuncia ajuda a salvar uma mulher”, reforçou.
Durante o programa, as entrevistadas anunciaram uma ação social voltada à população, com atendimentos gratuitos em diversas especialidades médicas, incluindo ginecologia, neurologia, ortopedia, pediatria e cardiologia.
O evento acontece neste sábado (30), a partir das 7h da manhã, na Rua Martins, nº 50, bairro 35º BI, em Feira de Santana.
“Vamos acolher, orientar e ouvir essas mulheres para que consigam cuidar delas de forma integral”, afirmou Dra. Márcia.
Neinha Bastos reforçou o convite à população.
“Nosso papel é ajudar. A porta da minha casa sempre esteve aberta para cuidar das pessoas. Mulher, homem, criança, todo mundo será bem-vindo”, concluiu.