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Estudo mostra que 7 a cada 10 adolescentes estão com déficit de sono

Especialista alerta para impactos no cérebro e na aprendizagem

Redação:
sexta-feira, 27 de março de 2026 às 10:57
Foto: Freepik
Foto: Freepik

A falta de sono entre adolescentes tem se tornado um problema cada vez mais comum e preocupante. Além de afetar o rendimento escolar, a privação de descanso adequado pode comprometer o desenvolvimento do cérebro, a capacidade de aprendizagem e a saúde mental. O alerta é da pediatra e pós-graduada em neuropediatria e neurodesenvolvimento da infância e da adolescência, Thaís Campos Cerqueira, que explica os principais impactos da falta de sono nessa fase da vida.

Dados científicos reforçam essa preocupação. Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA, que analisou informações de mais de 120 mil adolescentes entre 2007 e 2023, revelou que 76,8% dos jovens dormem sete horas ou menos por noite, quantidade considerada insuficiente para essa faixa etária. O número de estudantes que dormem muito pouco, cinco horas ou menos, também aumentou ao longo dos anos, passando de 15,8% para 23%.

Segundo a especialista, o sono é essencial para o desenvolvimento cerebral e sua privação pode interferir diretamente na maturação de áreas importantes do cérebro.

“A privação de sono interfere principalmente no desenvolvimento estrutural do cérebro, na maturação do córtex pré-frontal. O sono insuficiente atrasa o desenvolvimento dessa área, que é crítica para o controle inibitório, tomada de decisão e regulação emocional”, explica.

Ela destaca que a falta de sono também afeta processos fundamentais para a formação das conexões neurais.

“O sono é essencial para a sinaptogênese, que é o processo biológico de formação de conexões entre neurônios, e para a poda sináptica. A privação pode levar a um excesso de sinapses imaturas ou a uma poda inadequada, afetando a conectividade funcional do cérebro”, afirma.

Outro processo prejudicado é a mielinização, responsável por aumentar a velocidade da transmissão das informações entre os neurônios.

“O sono pobre associa-se a alterações na mielinização dos axônios e reduz a velocidade e a eficiência da transmissão neural”, acrescenta.

Impactos na aprendizagem

Além das alterações neurológicas, a falta de sono também compromete diretamente a aprendizagem. De acordo com Thaís Campos Cerqueira, as diferentes fases do sono são fundamentais para consolidar as informações adquiridas ao longo do dia.

“O sono REM e o sono não REM são as fases em que acontece a consolidação da memória. Quando há privação, esses processos são prejudicados, interferindo na retenção e na transferência da memória para o longo prazo”, explica.

A especialista também destaca que a falta de descanso adequado pode provocar dificuldades de atenção e prejuízos em funções cognitivas importantes para a rotina escolar.

“Observamos déficit na atenção sustentada, diminuição da vigilância, piora do desempenho em tarefas que exigem atenção seletiva ou multitarefas, além de prejuízo na memória de trabalho e na flexibilidade cognitiva”, pontua.

O estudo publicado na JAMA também apontou que a privação de sono é mais frequente entre adolescentes que apresentam sintomas depressivos ou pensamentos suicidas, evidenciando a relação direta entre o sono e a saúde mental.

Uso do celular à noite prejudica o sono

Entre os fatores que mais contribuem para a piora da qualidade do sono dos adolescentes, a especialista destaca o uso de dispositivos eletrônicos no período noturno.

“A exposição à luz das telas, especialmente à luz azul, suprime a produção da melatonina, que é o hormônio regulador do nosso sono, atrasando o início do sono e deslocando o ritmo circadiano”, explica.

Além disso, o conteúdo estimulante das redes sociais, jogos e mensagens mantém o cérebro em estado de alerta, dificultando o relaxamento necessário para adormecer.

Estratégias para melhorar a qualidade do sono

Para melhorar a qualidade do descanso, a médica recomenda a adoção de hábitos simples no dia a dia. Entre eles estão a criação de rotinas regulares e a redução do uso de telas antes de dormir.

“É importante manter horários regulares para deitar e acordar e criar uma rotina relaxante entre 30 e 60 minutos antes de dormir”, orienta.

Ela também recomenda evitar celulares, tablets e computadores nesse período.

“Retirar as telas cerca de uma hora antes de dormir ajuda muito. Quando necessário, pode-se usar o modo noturno para reduzir a luz azul”, destaca.

Outras medidas incluem manter o quarto escuro, silencioso e fresco, evitar cafeína e refeições pesadas à noite, praticar atividade física durante o dia e limitar cochilos a no máximo 20 a 30 minutos.

Consequências podem chegar à vida adulta

Quando a privação de sono se torna frequente, os efeitos podem ultrapassar a adolescência e impactar a vida adulta.

“A falta de sono na adolescência pode gerar déficits cognitivos persistentes, além de aumentar o risco de depressão e ansiedade”, afirma a pediatra.

Segundo ela, também podem ocorrer alterações metabólicas e hormonais, com maior risco de obesidade, resistência à insulina e problemas cardiovasculares, além de prejuízos no rendimento escolar, profissional e até aumento da probabilidade de acidentes.

*Com informações da repórter Isabel Bomfim

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