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Feira de Santana completa 193 anos de emancipação com uma história marcada pelo comércio, pelo gado e pelos caminhos

Historiador Carl Lima destaca a origem do povoamento, a formação do núcleo urbano e a tradição de Feira de Santana como cidade de passagem e Portal do Sertão

Victória SilvaRedação: Victória Silva
JP MirandaReportagem: JP Miranda
sexta-feira, 18 de setembro de 2026 às 06:50
Imagem de Feira de Santana completa 193 anos de emancipação com uma história marcada pelo comércio, pelo gado e pelos caminhos

Feira de Santana completa 193 anos de emancipação política nesta sexta-feira (18). A história do município, porém, começou muito antes da emancipação, com processos de povoamento, circulação de gado e mercadorias e a formação de uma feira que ajudaria a definir a identidade econômica e cultural da cidade.

Em entrevista ao De Olho na Cidade, Carl Lima, do Na Carona e formado em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), explicou que é necessário separar dois momentos para compreender a formação histórica do município: a origem do povoamento e, posteriormente, a formação do núcleo urbano.

“Sobre o surgimento de Feira de Santana, nós precisamos deixar claro dois movimentos. Um movimento seria a origem do povoamento que futuramente iria se denominar de Feira de Santana.”

Segundo Carl Lima, o processo de povoamento remonta a meados do século XVII e está relacionado à atuação de João Peixoto Viegas e Dona Joana Sá, a partir da concessão de sesmarias pela Coroa portuguesa. Entre as áreas citadas estão as sesmarias de Jacuípe, São José das Itapororocas e Água Fria.

O historiador explica que o avanço desse povoamento ocorreu principalmente na região norte do atual município, tendo a circulação de pessoas, gado e mercadorias como um dos principais fatores de desenvolvimento.

“Esse povoamento começa atualmente dando a configuração na atualidade no distrito de Maria Quitéria, no distrito de São José das Itapororocas. O vetor de crescimento é a passagem, principalmente de gados e mercadorias.”

Para Carl, a tradição de Feira de Santana como cidade de passagem é anterior à existência das grandes rodovias. Segundo ele, o atual entroncamento rodoviário representa uma continuidade de uma característica histórica da região.

“A gente na história diz que o entroncamento rodoviário é muito mais uma continuidade de uma tradição que já se tinha na região de Feira de Santana.”

Fazenda Santana dos Olhos D’Água e formação da cidade

Cerca de um século depois, já no século XVIII, começa a ganhar força outro processo: a formação do núcleo urbano. De acordo com Carl Lima, esse movimento ocorreu principalmente na região sul da atual Feira de Santana e teve como referência a Fazenda Santana dos Olhos D’Água, associada ao casal Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandão.

Foi nesse contexto que a feira ganhou importância, reunindo gado e mercadorias provenientes de diferentes localidades.

“A partir da feira livre, que também é uma continuidade da passagem de Feira de Santana como uma região de passagem, ali se consolida uma feira do gado, ali se consolida uma feira de mercadorias, de localidades próximas.”

O crescimento dessa atividade contribuiu para a formação do núcleo urbano que posteriormente daria origem à Vila de Feira de Santana, cuja emancipação política ocorreu em 18 de setembro de 1833.

Carl também destaca as primeiras ruas que estruturaram o núcleo urbano, entre elas as atuais Conselheiro Franco, Sales Barbosa, Marechal Deodoro, Avenida Senhor dos Passos.

De “Feira de Santana dos Olhos D’Água” ao nome da cidade

A própria origem do nome Feira de Santana está relacionada à feira realizada nas proximidades da Fazenda Santana dos Olhos D’Água.

Segundo o historiador, durante o século XVIII era comum os moradores se referirem ao local como “Feira de Santana dos Olhos D’Água”. Com o uso cotidiano, a expressão foi sendo simplificada.

“Obviamente seria uma nomenclatura muito grande e acabou se tornando, dentro da fala popular, depois ‘vou à Feira de Santana’, e assim dá a origem ao nome do município.”

O gado e a força das feiras

A atividade comercial foi um dos principais elementos responsáveis pela expansão econômica e territorial do município. O gado ocupou posição central nesse processo, ao lado da comercialização de diferentes tipos de mercadorias.

Para Carl Lima, a tradição das feiras permanece como uma das marcas da cidade, que atualmente possui diferentes feiras em bairros, setores e distritos.

“A feira livre passa por muitas em Feira de Santana. Obviamente que ela tem como algo em comum a grandiosidade dela, a circulação de pessoas, a circulação de mercadorias.”

A importância que Feira de Santana alcançou ainda no século XIX pode ser dimensionada pela visita de Dom Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina, em 1859, durante uma passagem da comitiva imperial pela Bahia.

De acordo com Carl, o objetivo do imperador era conhecer justamente a dinâmica comercial da região.

“O objetivo principal de Dom Pedro II era conhecer a Feira Livre, era conhecer a Feira do Gado, era conhecer a figura do vaqueiro dentro de um olhar antropológico.”

A feira, que durante muito tempo ocupou a região da atual Avenida Getúlio Vargas e seu entorno, foi transferida posteriormente. Carl lembra que, em 1976, a atividade foi deslocada para o Centro de Abastecimento.

Cidade de passagem e Portal do Sertão

Além da importância econômica, o historiador considera que a característica de cidade de passagem deve continuar sendo compreendida como parte da identidade de Feira de Santana.

“Feira de Santana é essa cidade de passagem, essa cidade entroncamento, essa cidade de caminhos. E isso é a grande característica de Feira de Santana e, como característica, como identidade, é algo que Feira de Santana não pode e não deve esquecer jamais.”

Para Carl Lima, o comércio, a circulação de pessoas e as trocas continuam diretamente ligados à posição estratégica do município.

“Se Feira de Santana quer se manter como uma cidade importante, estrategicamente, como Boca do Sertão, como Portal do Sertão, qualquer política pública não deve esquecer dessa identidade.”

Ao completar 193 anos de emancipação política, Feira de Santana chega à data comemorativa carregando uma trajetória construída a partir dos caminhos, das feiras, do comércio e da circulação de pessoas e mercadorias.

Carl Lima deixou uma mensagem de celebração ao município:

“Salve Feira de Santana. Parabéns por esses 193 anos e continuamos lutando, continuando sobrevivendo, continuamos levando Feira de Santana, mantendo Feira de Santana no seu lugar de importância estratégica.”

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