Policial relata dificuldades com banco digital após portabilidade, acumula dívida e tenta mobilização solidária para cobrir valor e suspender leilão do imóvel até março
A policial militar e organizadora da Feira das Patroas, Leila Thais Pereira, vive um dos momentos mais delicados da sua vida. Moradora do bairro Conceição, em Feira de Santana, ela enfrenta o risco de perder a casa onde mora com os dois filhos após o imóvel ser levado a leilão por conta de dívidas relacionadas ao financiamento imobiliário.
Em entrevista ao De Olho na Cidade, Leila relatou que adquiriu o imóvel pela Caixa Econômica Federal em 2011 e manteve os pagamentos em dia até 2023, com desconto direto em contracheque. A situação começou a mudar no fim de 2022, quando realizou a portabilidade do financiamento para um banco online.
“Eu comprei a minha casa pela Caixa em 2011 e até 2023 eu paguei no meu contracheque normalmente. Em setembro de 2022, eu era casada ainda, fiz a portabilidade para o Banco Inter. Foi uma necessidade daquele momento”, explicou.
Segundo ela, o processo de transferência do crédito foi demorado e marcado por dificuldades de comunicação com o banco digital.
“Como o Inter é um banco digital, a comunicação era muito difícil. Não tinha telefone para pressionar, saber por que não estavam pagando o valor. Essa situação se protelou até julho do ano seguinte, quase um ano”, afirmou.
Com o divórcio, a dívida que seria dividida passou a pesar apenas para ela. Ao mesmo tempo, Leila enfrentava dificuldades financeiras relacionadas à organização da Feira das Patroas, evento de empreendedorismo feminino que idealizou.
“Eu aprendi a fazer evento fazendo. No início eu comecei a ter prejuízos, tirava do meu para implementar ideias. Depois estabilizou, mas até então eu fui acumulando problemas”, contou.
Para priorizar despesas básicas, ela cortou gastos com atividades dos filhos e chegou a trancar a faculdade do filho mais velho.
“Meu filho fazia faculdade, eu tranquei. Minha filha fazia aula de inglês e karatê, eu fui tirando. Tudo que não era prioridade eu cortei, mas mesmo assim eu não conseguia honrar a questão da casa”, disse.
A dívida ultrapassou R$ 20 mil em atraso, quando recebeu a visita de um oficial de justiça.
“Quando chegou a mais de vinte mil reais, o oficial de justiça foi na minha casa. Eu tinha quinze dias para pagar pouco mais de vinte e dois mil reais. Eu não tinha esse valor. Com quinze dias o banco consolidou a dívida, que significa levar o imóvel a leilão”, relatou.
Segundo Leila, o banco passou a exigir o pagamento do saldo total do contrato, que, com refinanciamento, se aproxima de R$ 150 mil.
“Se eu não tinha vinte mil, como eu ia ter cento e cinquenta? A coisa foi virando uma bola de neve”, desabafou.
Desde setembro do ano passado o imóvel está em leilão, mas não havia recebido propostas até o último fim de semana, quando um lance foi registrado.
“Um amigo me mandou mensagem dizendo que alguém tinha dado um lance na casa. Eu entrei em desespero, achei que teria 48 horas para pagar e levaria minha casa”, contou.
Após orientação de um corretor, ela descobriu que o certame segue até 1º de março, data-limite para cobrir a oferta.
“Eu entrei e dei o lance para entrar na disputa. Até o primeiro de março eu tenho que ter o valor para cobrir”, explicou.
Sem conseguir linha de crédito imediata e diante da urgência, Leila decidiu organizar uma rifa de uma motocicleta com bilhetes ao valor de R$ 1,99. A alternativa foi escolhida para evitar implicações legais relacionadas a sorteios em dinheiro.
“Eu pensei: o que eu tenho é a moto. Coloquei a moto como prêmio. É um valor bem baixinho, R$ 1,99. Desde ontem muita gente está contribuindo. Eu já consigo ver um horizonte que eu não vinha ontem”, afirmou emocionada.
Ela decidiu tornar o caso público diante da gravidade da situação.
“É uma situação desesperadora. De repente você vê o risco de ir para a rua com dois filhos. Eu achei que conseguiria resolver sem expor, mas agora é o que eu tenho para me agarrar”, declarou.
Leila é mãe de um jovem de 21 anos e de uma menina de 11. “Se fosse só eu, começaria em qualquer lugar. Mas eu tenho meus filhos. É o bem deles. Eu já paguei muito dessa casa, quase toda. Não posso abrir mão”, disse.
Durante a entrevista, o advogado especialista em direito bancário Júnior Dantas explicou que ainda podem existir mecanismos jurídicos para suspender ou anular o leilão.
“O banco tem obrigação de informar ao devedor que o imóvel estaria em leilão antes de abrir o certame. Se não houve essa comunicação adequada, existe possibilidade de recorrer judicialmente e tentar suspender”, pontuou.
Ele também citou a possibilidade de ação revisional de juros e pedido de liminar para suspender o leilão e permitir o depósito das parcelas em conta judicial.
“A gente precisaria analisar o contrato, verificar se houve juros abusivos ou nulidades. Se existir ausência de citação sobre o leilão, há grande possibilidade de êxito”, explicou.
Leila informou que possui acompanhamento jurídico por meio da associação da categoria, mas decidiu agir também por conta própria enquanto aguarda desdobramentos judiciais.
“O que depende de mim, eu estou fazendo. O que é jurídico, eu não sei fazer. Então essa rifa foi o que pensei na hora”, afirmou.
A campanha está sendo divulgada no Instagram @souleilathais, onde ela publicou um vídeo explicando a situação e disponibilizou o link para participação.
“Eu nem imaginava essa proporção. De ontem para cá o telefone não para. A gente não sabe o quanto é querido. Enquanto não se resolve de outra forma, eu vou falar disso todo santo dia”, declarou.