Psicóloga Olivia Magalhães e fisioterapeuta Heloísa Oliveira destacam que excesso de telas pode causar dores, ansiedade, irritabilidade e prejuízos no desenvolvimento infantil
O uso excessivo de celulares, tablets e outros dispositivos eletrônicos tem provocado mudanças significativas no comportamento, na postura corporal e até na saúde emocional de crianças e adolescentes. O tema foi debatido no quadro Saúde Mental em Pauta com a participação da psicóloga Olivia Magalhães e da fisioterapeuta Heloísa Oliveira, que discutiram os efeitos da chamada “geração curvada”, expressão utilizada para definir os impactos do uso excessivo das telas no corpo e na mente.
Heloísa explicou que a chamada “geração curvada” é resultado de uma adaptação corporal provocada pelo excesso de tempo diante das telas e pela falta de movimento.
“Hoje nós conseguimos observar muitas crianças com a cabeça anteriorizada, os ombros fechados, a coluna encurvada, e isso vai trazer problemas musculares futuros. Isso impacta não só na postura, mas também na forma como essa criança percebe o próprio corpo e interage com o mundo”, afirmou.
Segundo a fisioterapeuta, o problema conhecido como “pescoço de texto” vai além da questão postural e pode estar relacionado a dores constantes, tensão muscular, fadiga, irritabilidade e ansiedade.
“O corpo e a emoção caminham juntos. Quando a criança sente desconforto físico, ela pode ficar mais irritada, ansiosa e ter dificuldade de concentração”, destacou.
A psicóloga Olivia Magalhães reforçou que os impactos emocionais das telas vão muito além do tempo de uso e envolvem experiências que crianças e adolescentes deixam de viver no mundo real.
“O problema não é só o tempo que se passa nas telas, mas o que essa criança está deixando de viver fora delas. Está deixando de brincar, de interagir e de ser criança”, alertou.
As especialistas chamaram a atenção para sinais que podem indicar que o excesso de telas já está afetando o desenvolvimento físico e emocional dos filhos. Entre os principais sintomas estão irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, alterações no sono, dores frequentes e perda do interesse por brincadeiras e atividades físicas.
Heloísa ressaltou que dores musculares constantes em crianças não devem ser consideradas normais.
“Quando a criança começa a relatar dores frequentes, isso precisa ser observado. A perda do interesse pelo brincar também é um sinal importante de que algo não está indo bem no desenvolvimento”, explicou.
Olivia também destacou a importância da participação ativa dos pais no controle do uso das telas.
“A criança sozinha não sabe o tempo de parar. Os pais precisam ser co-reguladores desse processo, porque as telas trazem um efeito de dependência e fazem o tempo passar muito rápido”, afirmou.
Outro ponto levantado pelas profissionais foi o impacto da falta de movimento no desenvolvimento cognitivo das crianças. Segundo Heloísa, estudos mostram que o movimento corporal está diretamente ligado à aprendizagem e à concentração.
“Temos crianças que apresentam dificuldades até para correr e pular pela falta de estímulo e movimento. Isso interfere também na cognição e até na alfabetização”, observou.
Além disso, o excesso de permanência em ambientes fechados pode trazer consequências fisiológicas, como a baixa exposição ao sol e deficiência de vitamina D.
Para reduzir os impactos físicos do uso das telas, a fisioterapeuta orienta atenção à postura. O celular, segundo ela, deve ficar sempre na altura dos olhos para evitar a curvatura excessiva do pescoço.
“Nada de deixar a cabeça baixa por muito tempo. O ideal é manter o celular na altura do olhar para evitar tensão muscular e dores na coluna”, recomendou.
As especialistas defenderam o uso consciente da tecnologia, sem demonizar as telas, mas com equilíbrio e supervisão familiar. Também alertaram sobre outros riscos associados ao uso indiscriminado da internet, como isolamento social e exposição a situações perigosas.
“A informação é prevenção. Quando necessário, buscar apoio psicológico e acompanhamento profissional pode ajudar toda a família a lidar com esses desafios”, concluiu Olivia Magalhães.