Professor e mestre em História, Carl Lima ressalta o protagonismo popular nas batalhas e a necessidade de preservar a memória da data cívica mais importante da Bahia.
O Dois de Julho, data que marca a consolidação da Independência do Brasil na Bahia, representa um dos episódios mais importantes da história nacional e simboliza a força da participação popular na luta contra o domínio português. A avaliação é do professor, guia de turismo e mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Carl Lima, que destaca o significado histórico da celebração para os baianos e para todo o país.
"Hoje é um dia extremamente importante, um dia de comemorar. Enquanto historiador, fico muito feliz em falar sobre o Dois de Julho, a data cívica mais importante da Bahia e uma das mais importantes do Brasil", afirmou.
Segundo o historiador, embora a Independência do Brasil tenha sido proclamada em 7 de setembro de 1822, a separação de Portugal ainda precisava ser consolidada em diversas províncias, entre elas a Bahia, onde tropas portuguesas permaneciam no controle do território.
"O Brasil era uma nação recém-independente, mas ainda não contava com um exército estruturado para garantir essa independência. A Bahia era uma das províncias que ainda estava politicamente atrelada a Portugal", explicou.
Carl ressalta que a resistência foi organizada por batalhões formados em diversas regiões baianas, especialmente no Recôncavo.
"O Dois de Julho buscou consolidar e garantir a independência política do Brasil contra o domínio português. A grande resistência aconteceu em cidades como Santo Amaro, Cachoeira, Maragogipe e São Francisco do Conde, que se tornaram importantes espaços da luta popular", destacou.
Ao abordar os personagens que marcaram as batalhas da Independência, Carl Lima enfatizou a relevância de Maria Quitéria, considerada a maior heroína baiana do movimento.
Natural do território que hoje pertence a Feira de Santana, Maria Quitéria alistou-se no chamado Batalhão dos Voluntários do Príncipe utilizando inicialmente o nome de Soldado Medeiros.
"Maria Quitéria participou de vários combates e se destacou desde a batalha da Ilha de Maré. Depois esteve na Pituba, em Itapuã e também na região de Maragogipe. Era extremamente habilidosa com armas e montada a cavalo, o que chamou muita atenção dos comandantes", relatou.
Mesmo após sua verdadeira identidade ser descoberta, ela permaneceu nas tropas e conquistou reconhecimento por sua coragem.
"O mais importante é destacar Maria Quitéria como parte de um grupo diverso que participou das batalhas. Havia mulheres, negros, mestiços, indígenas e pessoas das camadas populares. Essa diversidade é uma das maiores marcas das lutas da Independência na Bahia", afirmou.
Durante a entrevista, Carl Lima também chamou atenção para algumas interpretações históricas construídas ao longo do tempo sobre Maria Quitéria.
Segundo ele, existe o mito de que a heroína era uma mulher pobre e pertencente às camadas populares.
"Essa é uma construção feita principalmente ao longo do século XIX e fortalecida durante a República. Maria Quitéria era uma mulher mestiça, extremamente corajosa e habilidosa, mas estava longe de ser pobre. Ela vinha de uma família proprietária de terras, de fazendeiros e comerciantes", explicou.
Apesar disso, o historiador ressalta que sua importância permanece inquestionável.
"Ela foi reconhecida pelo próprio imperador Dom Pedro I como heroína da Independência e ocupa um lugar de destaque entre os heróis nacionais e na história das Forças Armadas brasileiras."

Para Carl Lima, preservar a memória do Dois de Julho vai além das celebrações cívicas. Segundo ele, compreender o contexto histórico da data é fundamental para fortalecer a identidade nacional, especialmente entre os jovens.
"É sempre muito importante manter viva a memória do Dois de Julho, não apenas pelos festejos, mas principalmente pela compreensão do processo de independência e da participação popular. Precisamos falar sobre essa história nas escolas, conhecer os símbolos, o hino e entender o papel do povo baiano na construção do Brasil", afirmou.
O historiador lembra ainda que, apesar da vitória sobre as tropas portuguesas, muitos desafios permaneceram após a Independência.
"Houve a manutenção de estruturas conservadoras e nem todos os brasileiros tiveram seus direitos reconhecidos. Mas, ainda assim, essa é uma memória extremamente importante, que devemos preservar e cultivar."
Carl Lima fez uma homenagem à data histórica.
"Salve o povo da Bahia, salve o Dois de Julho. Que essa memória continue viva para as futuras gerações."