Lucas da Feira e os quilombos: história de luta e resistência em Feira de Santana
Feira de Santana, conhecida por suas avenidas e ruas que homenageiam personalidades históricas, guarda também uma história marcada pela escravidão e pela resistência. Para discutir esse período, o historiador Israel Silva participou de uma entrevista onde abordou a memória da escravidão, figuras de resistência e os desafios atuais para reconhecer e preservar essa história.
Segundo o professor, Feira de Santana teve papel significativo na exploração de pessoas escravizadas no sertão baiano.
“Feira faz parte de um território governado durante o processo de colonização pelo José Peixoto Viegas. Ela está dentro desse circuito da escravidão no sertão baiano, servindo como ponto de chegada de pessoas escravizadas que vinham do litoral”, explicou.
Um dos nomes centrais no debate sobre resistência em Feira de Santana é Lucas da Feira, considerado uma figura polêmica.
“Ele é a figura que salta aos olhos quando pesquisamos a história da cidade. Enquanto alguns apontam ações violentas atribuídas a ele, há comprovações de sua resistência à escravidão. É um personagem histórico que merece reconhecimento”, afirmou.
O historiador destacou ainda a importância de preservar a memória material e cultural relacionada aos quilombos locais.
“Feira de Santana tem uma quantidade significativa de quilombos, mesmo não sendo uma cidade litorânea. Esses territórios são fundamentais para entender a resistência negra na região e devem ser preservados como patrimônio cultural”, disse.
Israel Silva comentou sobre os esforços para reconhecimento oficial dos quilombos. “Existem movimentos, como o da Juventude Negra da Lagoa Salgada, que lutam pelo reconhecimento formal desses territórios. O processo é demorado, mas é essencial para garantir a preservação e o respeito à memória da população negra.”
O historiador explicou como a escravidão na cidade se diferenciava de outras regiões da Bahia.
“Ao contrário de Salvador, onde havia grandes plantações monocultoras, em Feira de Santana as pessoas escravizadas trabalhavam em roças menores. Isso gerou uma modalidade própria de exploração, mas os maus-tratos eram igualmente severos”, ressaltou.
Israel Silva também convidou a população a conhecer o Anexo Lucas da Feira, no Museu Casa do Sertão, onde há vestígios materiais da história da escravidão e da resistência local.
“Os registros mostram o trabalho forçado, as torturas físicas e as estratégias de resistência da população negra. É fundamental que esse patrimônio seja estudado e visitado”, completou.
O historiador comentou sobre conquistas recentes em Feira de Santana, como o avanço das cotas raciais e o fortalecimento do movimento estudantil negro.
“Temos pesquisas sobre a escravidão no final do século XIX, debates acadêmicos e sociais, e uma atenção crescente ao impacto histórico da escravidão no dia a dia da cidade. Ainda há avanços a conquistar, mas os movimentos negros da cidade têm um papel importante nesse processo”, afirmou.
Apesar da abolição formal em 1888, Israel alerta para a persistência de formas modernas de exploração.
“Infelizmente, a escravidão moderna ainda é um vestígio da estrutura que se construiu historicamente. Estudos recentes indicam a presença de trabalho análogo à escravidão em algumas áreas da região. Reconhecer e combater isso faz parte do nosso compromisso com a memória histórica”, concluiu.