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Historiador revela as raízes culturais do São João e sua evolução no Nordeste

Clóvis Ramaiana analisa as raízes do São João, revelando como a festa carrega heranças indígenas, africanas e europeias

Por Rafa
terça-feira, 24 de junho de 2025
 Foto: Divulgação/Prefeitura
Foto: Foto: Divulgação/Prefeitura

Em entrevista ao De Olho na Cidade, o historiador Clóvis Ramaiana traçou um panorama sobre as origens e significados da festa de São João, destacando a força das manifestações populares, a mistura de influências culturais e o papel simbólico do festejo na vida do povo nordestino. Para ele, o São João é muito mais que uma festa: é uma expressão de luta, pertencimento e reinvenção identitária.

Segundo Clóvis, a tradição dos “retratos nas paredes”, ainda comum em casas de taipa e no cenário das festas juninas, tem uma raiz que vai além da estética.

“As casas de taipa não tinham com o que decorar. As pessoas decoravam com retratos de artistas, fotografias, rótulos de remédio. As chamadas ‘poderosas’ dialogam muito com essa produção. É uma forma de criar identidade visual onde não havia condições de criar a partir de pinturas ou utensílios caros”, explicou.

Essa criação visual, segundo o historiador, resgata um modo ancestral de expressão. “Alguém pode dizer: ‘Ah, mas isso também é tradição europeia’. Sim, mas aqui ganha um novo sentido, com a lógica do trabalho e da disputa simbólica. É a estética do possível, da sobrevivência.”

Sobre as danças, Clóvis destacou que o São João do início do século XX na região ainda não contava com a sanfona como símbolo musical predominante.

“Nos anos de 1910, aqui na região, a festa de São João ainda era feita sem sanfona. Ela dialogava profundamente com o samba, especialmente com o samba de roda. E isso não é à toa: o samba de roda se conecta tanto com as danças indígenas, quanto com as africanas. Era o momento em que as pessoas libertavam seus corpos da escravidão, de variadas formas de opressão.”

A sanfona, portanto, é uma presença relativamente recente na tradição junina local. “O grande perseguidor de Lampião, o cangaceiro José Rufino, já era sanfoneiro em 1906, porque vinha da Ribeira do Rio São Francisco. Mas aqui, no sertão baiano, até os anos 1920, o principal era o triângulo e o pandeiro. A sanfona foi se agregando aos poucos.”

Clóvis ainda explicou como as quadrilhas, mesmo com influências francesas, mantêm elementos das tradições afro-indígenas.

“Você vai encontrar o eco do samba até nas danças das quadrilhas. É uma mistura riquíssima. A cultura junina é, na verdade, uma grande colcha de retalhos da nossa história.”

Para o historiador, o São João é uma festa do Brasil inteiro, mas que parte do Nordeste como força motriz cultural.

“O Brasil é feito pelo Nordeste. Sem nenhum nacionalismo nordestino, mas é fato. Quem construiu São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, foram os trabalhadores nordestinos. Eles carregaram essas tradições consigo.”

Ramaiana também lembrou a surpresa que teve ao participar de um forró em São Paulo: “Era mais tradicional que muitos daqui. Sanfoneiros de cidades ao redor da capital paulista tocando forró antenado com a tradição nordestina. O São João é uma festa do Brasil inteiro. Claro, tem menos impacto no Centro-Sul, mas está presente.”

*Com informações Bahia.ba

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