Arquiteta e lighting designer Cláudia Bernardino explica como o planejamento luminotécnico pode melhorar o conforto, o bem-estar e a funcionalidade dos ambientes, além de evitar desperdícios e retrabalho.
A iluminação de um ambiente vai muito além da escolha de luminárias bonitas. O projeto luminotécnico precisa considerar o uso do espaço, o perfil das pessoas, os materiais utilizados e até mesmo os impactos da luz sobre o conforto e o bem-estar. O tema foi abordado pela arquiteta e lighting designer Cláudia Bernardino, durante entrevista ao Jornal do Meio Dia.
Segundo Cláudia, antes de escolher uma luminária, é necessário compreender quem utilizará o ambiente e qual sensação se pretende proporcionar.
“Vai muito além de simplesmente pendurar uma luminária no teto. Antes de escolher o produto, a gente precisa entender quem vai usar o ambiente, qual a atividade que vai acontecer e qual a sensação que a gente precisa fazer com que as pessoas sintam naquele espaço.”
A profissional destacou ainda que a idade dos usuários também deve ser levada em consideração. Um projeto para uma pessoa idosa, por exemplo, pode exigir uma quantidade maior de luz do que aquele desenvolvido para um público mais jovem.
“Uma casa que eu ilumino para uma pessoa na terceira idade é diferente de uma iluminação que eu vou usar para um jovem. O idoso precisa de mais luz naquele espaço.”
Um dos erros mais comuns, segundo Cláudia, é acreditar que aumentar a quantidade de pontos de luz necessariamente melhora o ambiente. Para ela, é preciso priorizar a qualidade e o conforto visual.
“Quantidade é muito diferente de qualidade. Não adianta eu ter um ambiente com inúmeros pontos de luz e aquela luz não me dar um conforto visual no uso mesmo. Mais luz nem sempre significa melhor iluminação.”
A especialista explicou que cada espaço deve ser analisado de acordo com sua finalidade. Uma iluminação utilizada para destacar uma parede de pedra, por exemplo, terá uma proposta diferente daquela empregada em uma sala de estar.
Outro aspecto importante é a temperatura de cor, medida em Kelvin. Cláudia explicou que tonalidades em torno de 2.700 a 3.000 Kelvin costumam proporcionar uma sensação maior de acolhimento, mas ressaltou que não existe uma única temperatura adequada para todos os ambientes.
“Eu preciso entender também os materiais que estão sendo usados. Se eu ilumino um teto de madeira, a luz vai se comportar de forma diferente quando ilumino um teto de gesso branco.”
Para a profissional, o projeto precisa considerar a interação entre luz, materiais e uso do espaço.
A iluminação também possui relação com o funcionamento do organismo. De acordo com Cláudia, estudos vêm avançando na chamada iluminação centrada no ser humano, considerando a influência da luz sobre o relógio biológico e o ciclo circadiano.
“Hoje sabemos que a luz não atua somente na visão. Ela também funciona como sinal ambiental importante para o relógio biológico, que é o nosso ciclo circadiano.”
Ela defendeu o equilíbrio entre iluminação natural e artificial e explicou que a intensidade e a tonalidade da luz podem ser ajustadas de acordo com o período do dia e a atividade realizada.
Cláudia também chamou atenção para a importância de planejar a iluminação desde o início de uma obra. Segundo ela, deixar o projeto para a etapa final pode gerar custos extras e retrabalho.
“A iluminação não poderia acontecer no final da obra. Ela precisa entrar logo no início do projeto, onde você precisa pensar na elétrica, no gesso, na automação, na marcenaria, em tudo.”
Ela explicou que as diferentes áreas precisam trabalhar de forma integrada para evitar situações em que seja necessário quebrar paredes ou gesso depois que a obra já estiver concluída.
“A iluminação não está sozinha, a arquitetura também não está sozinha. Então a iluminação precisa e deve nascer junto com o projeto.”
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a relação entre custo e qualidade. Para Cláudia, um bom projeto não depende necessariamente de produtos de alto valor, mas da escolha adequada para cada situação.
“Um bom projeto não é aquele que tem a luminária mais cara, e sim aquele que cada luminária foi escolhida pelo motivo certo.”
Ela acrescentou que, em alguns casos, é possível reaproveitar luminárias existentes e fazer mudanças pontuais, como substituir lâmpadas ou acrescentar elementos para complementar o ambiente.
“Às vezes não é o produto caro que vai fazer diferença. Às vezes é o produto ideal no lugar certo.”
A especialista também alertou para o excesso de iluminação em fachadas, garagens e áreas externas de residências. Além do desperdício, a luz intensa pode provocar desconforto para moradores e vizinhos.
“A luz tem sido usada com muito excesso nas residências. Eu estou pensando em mim enquanto usuário daquela casa, mas eu tenho um vizinho muito próximo.”
Segundo Cláudia, áreas como garagens devem receber iluminação adequada à sua função, evitando pontos que provoquem ofuscamento.
“A garagem é só a gente entrar e sair do carro e pegar a coisa. Não é para ficar lá ofuscando.”
Para ela, buscar orientação profissional pode ajudar a evitar gastos desnecessários, melhorar o conforto e ainda contribuir para a valorização do imóvel.
Além do atendimento ao consumidor, Cláudia destacou que também oferece suporte a profissionais de arquitetura na escolha de produtos e desenvolvimento de soluções luminotécnicas.
“Eu estou lá na loja para dar esse suporte também aos profissionais e mostrar para eles que eles podem diminuir essa carga de trabalho sobre eles e eu ajudá-los no sentido de favorecer tanto no projeto quanto também no produto certo.”
Cláudia Bernardino é arquiteta e lighting designer e atua também à frente da Iluminarq, loja especializada em iluminação e projetos luminotécnicos. O estabelecimento fica na Rua São Domingos, número 505, loja 4, próximo à Fontana Gelato e Café, em Feira de Santana.