Especialista aponta inflação, comportamento de consumo e jogos de azar entre fatores que contribuem para o endividamento e destaca importância do diálogo financeiro nos relacionamentos
O Brasil vive um cenário de contrastes na economia: enquanto o mercado de trabalho registra níveis elevados de ocupação e baixa taxa de desemprego, a inadimplência das famílias também alcança patamares recordes. O cenário reforça a necessidade de ampliar o debate sobre educação financeira e planejamento do orçamento.
Segundo os dados apresentados no programa, a taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, com cerca de 103 milhões de pessoas ocupadas. Ao mesmo tempo, dados do Banco Central apontaram que a inadimplência média nas operações de crédito chegou a 5% em agosto, o maior nível desde o início da série histórica, em março de 2011.
Para o educador financeiro Bruno Dias, da Edias Educação e Dias Negócios Imobiliários e criador do aplicativo E-Finanças, o fato de mais pessoas estarem trabalhando não significa necessariamente que elas estejam conseguindo organizar as próprias finanças.
Bruno Dias
“Tem acontecido isso nos últimos meses. A cada mês a gente escuta a mesma coisa, mais um recorde de inadimplência. Infelizmente, isso tem alguns motivos”, explicou.
Bruno aponta três fatores principais: inflação, comportamento de consumo e a influência dos jogos de azar.
“A inflação: o dinheiro perdeu o valor e a renda não acompanhou. Por mais que essas pessoas estejam trabalhando, a renda não acompanhou. Então algumas tiveram que utilizar crédito para poder manter algumas despesas”, afirmou.
Segundo ele, o comportamento de consumo também pesa. Na avaliação do especialista, a facilidade proporcionada pelo ambiente digital pode estimular compras desnecessárias.
“Estamos também em uma era digital, em que muitas pessoas acabam comprando aquilo que não precisam para mostrar que têm”, destacou.
Outro fator citado por Bruno é a influência dos jogos de azar, que, segundo ele, também tem contribuído para o endividamento de parte da população.
A organização financeira também está diretamente relacionada à convivência entre casais. Segundo Bruno, problemas financeiros estão entre os fatores que podem contribuir para conflitos, separações e divórcios.
“A gente tem ali duas pessoas diferentes morando em um mesmo lugar e cada um aprendeu a lidar com as finanças de uma forma”, explicou.
Ele cita, por exemplo, situações em que uma pessoa cresceu em uma família acostumada a gastar e aproveitar o presente, enquanto a outra aprendeu desde cedo a planejar e guardar dinheiro.
“Um pensa de uma forma, o outro pensa de outra. Então acaba tendo um conflito”, afirmou.
Para o especialista, não existe uma fórmula única para definir se o casal deve manter o dinheiro totalmente conjunto ou separado. O mais importante é estabelecer acordos e objetivos comuns.
“Como os dois estão trabalhando, pode simplesmente dividir as despesas. Pode ter uma conta conjunta, sim. Mas é importante também ter uma pessoal para aqueles gastos que são mais individuais. Vai muito da relação de cada um. O importante é sentar e conversar.”
A definição de metas também pode ajudar o casal a organizar as finanças. Se o objetivo é comprar uma casa, por exemplo, o planejamento deve considerar quanto cada um pode contribuir e quais hábitos precisam ser modificados.
“Se o casal está com uma meta de conquistar a casa própria, a gente vai traçar esse planejamento. Nosso comportamento vai ser todo voltado para esse objetivo”, explicou Bruno.
Ele alerta que gastos individuais não combinados podem gerar frustração quando um dos parceiros está fazendo sacrifícios para alcançar uma meta conjunta.
Outro ponto destacado pelo educador financeiro é a necessidade de evitar que o assunto dinheiro seja discutido somente quando surge um problema.
“O primeiro passo é reservar um momento tranquilo. Normalmente, quando os casais lidam com as finanças, sempre é um momento de estresse”, disse.
Segundo Bruno, quando a conversa ocorre durante uma discussão, é comum aparecerem cobranças e acusações.
“Surge a cobrança: ‘você errou, você fez isso’. E não chega a uma conclusão. O casal precisa estar focado em resolver o problema financeiro.”
Para ele, quando ocorre um erro financeiro, é necessário assumir a responsabilidade, mas também buscar uma solução.
“Assumir a responsabilidade não significa todo dia estar lembrando daquilo. O ponto é pensar na solução. Tem um problema? Tem. Tem a dívida? Cometeu o erro? Beleza. Qual o próximo passo agora? Solução.”
Bruno também considera importante que os parceiros conheçam a realidade financeira um do outro, incluindo renda, dívidas e compromissos.
“No momento em que o casal decide morar junto, conviver junto, eles também estão decidindo uma vida. É muito importante um conhecer a situação financeira do outro.”
Ele explica que esconder informações pode gerar conflitos futuros, principalmente quando o casal assume compromissos sem conhecer a capacidade financeira da família.
A transparência também deve ocorrer antes do casamento, inclusive em relação a dívidas contraídas individualmente.
“É muito importante conversar antes, alinhar e principalmente entender qual é a visão que cada um tem em relação ao dinheiro.”
Outro comportamento que pode comprometer a relação é esconder compras ou dívidas do parceiro. Para Bruno, nesse caso, o casal passa a enfrentar dois problemas: o financeiro e a quebra de confiança.
“Acaba sendo dois problemas se tornando um: um problema por esconder e um problema por comprar. Quebra a confiança. Esse é um dos maiores problemas.”
O especialista ressalta, porém, que vergonha, insegurança e medo da reação do parceiro podem levar alguém a esconder uma dívida ou compra.
“É por isso que é muito importante um conhecer o outro, conversar e entender as expectativas que cada um espera do outro.”
Bruno defende ainda que a educação financeira precisa começar antes da vida adulta, já que praticamente todas as decisões tomadas nessa fase têm impacto sobre o orçamento.
“A gente não aprendeu a lidar com o dinheiro, só que quando chega na nossa fase adulta tudo gira em torno do dinheiro. Toda decisão que a gente toma vai impactar financeiramente.”
Segundo ele, reconhecer a dificuldade e buscar conhecimento são passos importantes para mudar a relação com o dinheiro.
Durante a entrevista, Bruno também apresentou o E-Finanças, aplicativo de organização financeira disponível para celulares com sistemas Apple e Google.
Segundo ele, a ferramenta permite cadastrar despesas pelo aplicativo ou pelo WhatsApp e acompanhar, por meio de relatórios, para onde o dinheiro está indo.
“Não é simplesmente cadastrar as despesas. No final do mês você tem um relatório mostrando para onde foi cada centavo. Esse relatório vai direcionar os meses seguintes e mostrar quais foram os erros daquele mês, onde pode ser economizado e onde pode ser reduzido.”
O aplicativo também permite acompanhar metas e objetivos, como a compra da casa própria ou de um veículo.
Para pessoas que já estão endividadas, Bruno recomenda inicialmente colocar todas as dívidas no papel, identificando valores, juros e consequências de cada uma.
“Quando o casal está endividado, o ideal é anotar todas as dívidas, separando a dívida de maior consequência, a dívida de maior juros e a dívida de menor valor.”
Ele também orienta que o casal faça o orçamento mensal, separando despesas pessoais e familiares e identificando quanto efetivamente sobra da renda.
“É preciso fazer essa conta para entender para onde está indo o dinheiro. A educação financeira é muito importante para todo mundo e, principalmente na vida do casal, está diretamente ligada ao convívio e também ao longo prazo.”