Integrantes do movimento “A Gente Cobra” levaram uma uma cobra simbólica de 30 metros, com a frase: “Financiamento direto para quem cuida da floresta”
A manhã desta terça-feira (18) na COP30, em Belém do Pará, começou com uma manifestação marcante na entrada do pavilhão principal, a Blue Zone. Integrantes do movimento “A Gente Cobra” levaram uma uma cobra simbólica de 30 metros, com a frase: “Financiamento direto para quem cuida da floresta”, para denunciar a falta de financiamento climático e a grave situação enfrentada pelos povos indígenas em seus territórios.
Lau Bruno Xulu Waura, representante do movimento, explicou o significado do ato.
“A figura nasceu de um encontro da juventude indígena na aldeia do povo Caiapó, liderado pelo cacique Raoni. O pajé sonhou com essa cobra. No sonho, ela mostrava que algo estava errado, o rio secando, o peixe morrendo. Ela apareceu como um sinal de que a natureza está pedindo socorro”, relatou.

Segundo Lau Bruno, foi esse sonho que inspirou a criação do movimento e a manifestação na COP30.
“A ideia de cobrar dos governos surgiu porque a cobra nos deu um sinal. Ela está pedindo socorro, e nós também estamos”, afirmou.
Os manifestantes tentaram levar a cobra gigante para dentro da Blue Zone, onde acontecem as negociações oficiais.
“Estamos tentando levar a cobra lá pra dentro, mas está difícil. Não temos credenciamento suficiente e a cobra é muito grande”, explicou.
A estrutura de 30 metros exige pelo menos 30 pessoas para carregá-la, mas o grupo conta apenas com sete credenciados.
“Com sete pessoas, não conseguimos carregar. Essa é a nossa dificuldade”, disse.
A manifestação também busca chamar a atenção para os impactos climáticos vividos pelas comunidades.
“Quem mora no território sente na pele o que está acontecendo. O rio está secando, o peixe está morrendo, os madeireiros ilegais estão entrando”, denunciou Lau Bruno.
Ele também alertou para o aumento extremo das temperaturas na aldeia.
“Antigamente a oca era fresquinha. Hoje, ninguém aguenta mais o sol. Isso não é normal pra nós”, disse.
“A temperatura está em 38 graus. Nossa roça não cresce mais. A mandioca não se desenvolve. Estamos passando fome dentro do nosso próprio território.”
Segundo ele, a falta de recursos financeiros agrava ainda mais a situação.
“A gente não tem dinheiro para comprar mercadoria. Dependemos da nossa produção, e ela está sendo destruída pela mudança do clima.”
Lau Bruno explicou que sua região reúne várias comunidades.
“No meu território são 16 etnias diferentes”, contou. “Na minha aldeia, onde eu vivo, são 380 pessoas. Ao todo, no povo inteiro, são cinco aldeias, muita gente sofrendo com esses impactos.”
A cobra tornou-se um símbolo da urgência indígena diante da crise climática, um chamado direto aos líderes mundiais reunidos na COP30.
“Viemos cobrar. A natureza pediu socorro, e nós também estamos pedindo.”
*Com informações de Jorge Biancchi, direto da COP 30 em Belém