Caso foi transferido de Vitória da Conquista após repercussão estadual; acusação pede condenação com pena máxima
Teve início nesta terça-feira (10), no Fórum Felinto Bastos, em Feira de Santana, o julgamento do caso de feminicídio que vitimou a estudante Sashira Camilly Cunha Silva, de 19 anos. Embora o crime tenha ocorrido em Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, o Tribunal de Justiça do Estado decidiu transferir o júri para Feira devido à grande repercussão e à comoção social gerada pelo caso.
Sashira, que era estudante de Engenharia, foi assassinada em circunstâncias consideradas de extrema brutalidade. O principal acusado é o ex-namorado da jovem, Rafael Souza, que responde por feminicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, além do crime de ocultação de cadáver.

Os trâmites do julgamento começaram por volta das 8h30, mas até o momento da última atualização os depoimentos ainda não haviam sido iniciados, apesar de o Conselho de Sentença já estar formado. A sessão é presidida pela juíza Márcia Simões. Um pedido de Questão de Ordem feito pela defesa do réu provocou atrasos e gerou embates entre os advogados, o Ministério Público e a magistrada.
A acusação é composta por dois advogados assistentes e um representante do Ministério Público, enquanto a defesa conta com três advogados. Parte das testemunhas participa do júri de forma remota, por videoconferência.
Os advogados de acusação, Luciana Silva e Franklin Ribeiro da Silva, afirmaram que o julgamento tem um papel que vai além do caso em si e representa um recado à sociedade.

“O que vai ser feito por mim e pelo doutor Franklin é que Feira de Santana diga a Vitória da Conquista e ao Brasil que feminicídio é crime e que não aceita esse tipo de violência contra as mulheres”, afirmou Luciana Silva.
Segundo Franklin Ribeiro, a expectativa é de condenação com a pena mais severa possível.
“A forma cruel com que Sashira teve a sua vida ceifada não pode ficar impune. Ela representa aqui o sentimento de perda, de dor da família e da sociedade de Vitória da Conquista. Nossa expectativa é de uma condenação com a pena máxima possível”, declarou.
A acusação também avalia que o julgamento pode se prolongar.
“Existe a possibilidade de o julgamento não terminar hoje e seguir até amanhã. Esperamos uma condenação com três qualificadoras: motivo torpe, meio cruel e recurso que tornou impossível a defesa da vítima, além do crime de ocultação de cadáver”, explicou Luciana.
Sobre a transferência do júri para Feira de Santana, Franklin avaliou a decisão de forma técnica.
“Do ponto de vista jurídico, é positivo, porque manda um recado de que um crime como esse pode ser julgado em qualquer lugar do Brasil e terá uma resposta efetiva. O ponto negativo é o sentimento da família, que gostaria que o julgamento acontecesse em Vitória da Conquista.”
A família está sendo representada no júri pelo padrasto da jovem, o empresário Célio Barbosa, único familiar presente no plenário.

Ele destacou a dor da perda e a busca por justiça.
“É uma data que eu não queria estar aqui. Eu queria que isso não tivesse acontecido, queria que ela estivesse conosco. Mas, infelizmente, por causa de uma barbárie, um marginal tirou a vida da nossa filha”, afirmou.
Célio ressaltou que, apesar da dor, acredita que a punição é necessária para evitar novos crimes.
“Sabemos que a justiça não vai trazê-la de volta, mas é para que outros pais não passem pelo que eu estou passando, tendo a vida da sua filha ceifada de forma tão brutal.”
O padrasto contou que a força para enfrentar o momento vem da fé.
“É só Deus. Cheguei cansado, tentei dormir, mas não consegui mais. Deus é quem dá força. Estou aqui representando toda a família, os amigos e a sociedade conquistense.”
Ao falar sobre Sashira, ele lembrou da personalidade da jovem.
“Ela era amorosa, carinhosa, dedicada. Era muito ligada aos irmãos, era a ‘mãezona’ deles. Uma menina de alma boa, caridosa, que gostava de ajudar as pessoas.”
Sobre o resultado esperado do júri, Célio foi direto: "Espero a condenação com pena máxima, para que ele fique preso e não volte a fazer outro feminicídio. Mulher não nasceu para sofrer, para apanhar ou para ser assassinada.”
O julgamento também tem sido acompanhado por representantes de movimentos sociais. A União Brasileira de Mulheres (UBM) marcou presença no Fórum Felinto Bastos em apoio à família da vítima. Representando a diretoria regional da entidade em Feira de Santana, Dart Clair Cerqueira destacou que a presença no júri é um ato de solidariedade e de cobrança por justiça.

“Estamos aqui para manifestar nossa solidariedade à família, às amigas da vítima e a todos os seus familiares. Reforçamos o nosso total repúdio à violência contra as mulheres e ao crime de feminicídio”, afirmou.
Segundo Dart Clair, casos como o de Sashira exigem uma resposta firme do Estado e da sociedade.
“A cada caso como esse, lembramos que o Estado e a sociedade precisam responder com firmeza, garantindo que a justiça seja feita com celeridade e seriedade, sem complacência com a cultura da violência.”
Ela ressaltou ainda que a UBM acompanha o julgamento para garantir que a vítima não seja responsabilizada pelo crime que sofreu.
“Não podemos permitir que a vida das mulheres seja arrancada pela desigualdade, pelo machismo e pela falta de proteção. Não podemos permitir que a vítima seja colocada no lugar de ré, tentando justificar o erro cometido com algo que ela supostamente fez.”
A representante da UBM também destacou o simbolismo do julgamento para além do caso específico.
“Esperamos que a vida de Sashira seja lembrada e que possamos, junto com os familiares, ter a certeza de que aqui foi feita justiça. Que seja feita justiça não só para ela, mas para todas as mulheres do nosso Brasil.”
Para Dart Clair, a luta é coletiva e permanente.
“Nada justifica nenhum tipo de agressão ou violência contra a mulher. A nossa luta é legítima e é para que a vida das mulheres seja valorizada e que tenhamos, simplesmente, o direito de existir na sociedade.”
Crime chocou a Bahia
O caso veio à tona após o corpo de Sashira ser encontrado no município de Planalto, também no sudoeste baiano. A jovem estava desaparecida quando o ex-namorado se apresentou à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), acompanhado de uma advogada, e relatou o ocorrido. A partir disso, a polícia localizou outros dois suspeitos, um deles responsável por indicar o local onde o corpo havia sido abandonado.
De acordo com as investigações, Sashira teria sido dopada com medicamento de uso controlado antes de ser atacada com golpes de faca. Um segundo envolvido teria assumido a tarefa de levar o carro da vítima para ser vendido e, ao perceber que ela ainda estava viva, a teria enforcado até a morte. Um terceiro suspeito teria intermediado o crime e providenciado o transporte por aplicativo.
A polícia também confirmou que não era o primeiro episódio de violência envolvendo o ex-namorado. Quando tinha 17 anos, Sashira chegou a denunciar agressões e obteve uma medida protetiva, que posteriormente expirou.
O julgamento segue em andamento no Fórum Felinto Bastos.
*Com informações do repórter Robson Nascimento