Luis Bessa, de 18 anos, afirma que processou a Fuvest apenas para receber uma justificativa de sua nota. Defesa de aluno diz que ação busca apenas explicações da USP.
Um caso envolvendo a redação de um candidato na segunda fase da Fuvest 2026 voltou a repercutir e levantou discussões sobre o uso do vocabulário em textos dissertativo-argumentativos. O estudante Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, recebeu nota zero na prova e decidiu acionar a Justiça contra a Universidade de São Paulo (USP), pedindo justificativas para a avaliação.
A polêmica ganhou força após a divulgação do início do texto, marcado por linguagem extremamente rebuscada: “Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito.”
Segundo a Fuvest, o candidato foi eliminado por não atender ao tema proposto — “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”. Em nota, a instituição afirmou que “não há indícios suficientes que demonstrem essa compreensão e desenvolvimento”, comprometendo a pertinência das ideias e a progressão textual. A banca destacou ainda que a redação passou por mais de três avaliações cegas e que não há possibilidade de revisão da nota.
Para a professora de língua portuguesa e redação Ana Cláudia Bastos, o episódio evidencia um erro comum entre candidatos: acreditar que o uso de palavras difíceis garante uma boa avaliação.
“Antes de falar de vocabulário, é preciso lembrar o que é um texto dissertativo-argumentativo. O objetivo é apresentar uma tese, ou seja, uma opinião, e sustentá-la com argumentos”, explica.
De acordo com a professora, muitos estudantes acabam se afastando dessa estrutura básica. “Um dos erros mais comuns é a fuga do tema e da tipologia. O aluno traz informações, fatos, dados, mas não apresenta claramente sua opinião”, afirma.
Ainda segundo Ana Cláudia, o vocabulário rebuscado pode se tornar um problema quando compromete a clareza do texto.
“O vocabulário muito formal e distante do leitor deixa o texto engessado. As construções ficam confusas e isso reduz o poder de argumentação”, destaca. “O leitor se perde, e o foco deixa de ser o tema para se tornar apenas a linguagem.”
Ela reforça que não é o vocabulário isoladamente que leva à nota zero, mas um conjunto de falhas.
“É preciso entender a função do texto, suas habilidades e, principalmente, a argumentação. O vocabulário pode aproximar ou afastar o leitor de uma construção eficaz.”
A professora também chama atenção para mitos comuns sobre a escrita. “Existe a ideia de que escrever é algo espontâneo, mas não é. Texto é técnica, é leitura e reescrita”, pontua.
Outro equívoco frequente, segundo ela, é associar palavras difíceis a maior capacidade intelectual.
“Um vocabulário rico não é um vocabulário inacessível. Ele deve ser construído naturalmente, a partir da leitura e do exercício da escrita.”
Ana Cláudia ressalta que tanto o excesso quanto a limitação vocabular podem prejudicar.
“Quando o aluno usa termos muito genéricos, como ‘coisa’, isso mostra falta de repertório. Mas o exagero no rebuscamento também compromete o entendimento.”
Para a docente, o ponto central de uma boa redação está na estrutura. “A tese precisa aparecer na introdução e guiar todo o texto. Os argumentos devem comprovar essa ideia, e a conclusão deve sustentá-la, apresentando uma proposta de intervenção coerente”, explica.
Ela compara o texto a um corpo humano: “A introdução é a cabeça, onde está o cérebro, ou seja, a tese. O desenvolvimento é o corpo, que sustenta essa ideia com argumentos. E a conclusão funciona como os pés, dando sustentação final.”
A professora destaca que os temas de redação costumam ser acessíveis, mas exigem reflexão. “O candidato precisa entender o que o tema está perguntando. Essa pergunta é a base da tese. A partir daí, é necessário construir uma argumentação clara, consistente e alinhada à realidade.”
O caso da Fuvest, segundo ela, serve de alerta. “Não adianta impressionar pelo vocabulário se não há clareza, posicionamento e estrutura. O que se avalia é a capacidade de argumentar de forma eficaz.”
Abaixo, veja a íntegra do texto:
Intentona pela Reconstituição da Interioridade
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana - de Pierre Bourdieu - a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.
Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno - era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.
Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes.
"Sob o tema, vale esclarecer algumas questões jurídicas. A USP, como autarquia de regime especial, submete se aos princípios constitucionais da Legalidade, Motivação e Devido Processo Legal. O que se buscou até o momento nada mais foi que a justificativa aderente da nota zero atribuída e as disposições do Manual do Candidato - que até o momento não foi compartilhada no Recurso Administrativo interposto ou mesmo no MS impetrado. Questões de mérito, cabem aos efetivamente competentes para tal análise - reforçando apenas que a livre manifestação de pensamento não abrange os excessos que, inclusive, podem tipificar ilícito penal."
*Com informações do repórter JP Miranda