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“Sem cortar combustíveis fósseis, o planeta caminha para o ecocídio”, alerta especialista sobre rascunho da COP30

Pesquisador aponta conquistas inéditas na COP30, mas alerta que falta ação decisiva contra combustíveis fósseis.

Por Rafa
sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Reconhecido como um dos maiores cientistas do clima do Brasil, o pesquisador Carlos Nobre avaliou o rascunho do texto final da COP30 e destacou avanços importantes, mas também alertou para pontos críticos que ainda precisam ser corrigidos nas negociações. Em entrevista durante o evento, ele comemorou metas consensuais, mas afirmou que a ausência de uma decisão clara sobre combustíveis fósseis ameaça o futuro climático global.

Nobre destacou que o fato de a conferência acontecer pela primeira vez no Brasil, e na maior floresta tropical do planeta, já representou um marco histórico. Segundo ele, o rascunho do texto apresenta conquistas significativas.

“É a primeira COP em que todos os países concordam em zerar os desmatamentos até 2030, principalmente os países tropicais. Todos os países amazônicos concordaram em acelerar a restauração das florestas. Isso é excelente, é essencial.”

O cientista lembrou que o desmatamento corresponde a cerca de 10% a 12% das emissões globais, e que restaurar a floresta significa capturar grande quantidade de CO₂, que é fundamental para limitar o aquecimento global.

Ele também alertou para os riscos sanitários associados à degradação ambiental: “Se não pararmos de desmatar, vamos gerar dezenas de epidemias e até pandemias. O ano passado tivemos as duas primeiras epidemias da história, como a febre oropouche. Isso é consequência da degradação.”

O lado preocupante: a omissão sobre combustíveis fósseis

Apesar dos avanços, Nobre apontou a principal lacuna do documento: a ausência de uma diretriz clara para eliminar combustíveis fósseis, responsáveis por 75% das emissões globais.

“O rascunho não traz uma declaração para rapidamente reduzir o uso de combustíveis fósseis. A ciência mostra com clareza: precisamos zerar idealmente até 2040, no máximo até 2045. Se não fizermos isso, vamos passar de 2 graus até 2050.”

Segundo ele, o mundo corre risco real de ultrapassar pontos de não retorno, como o colapso da Amazônia ou o degelo acelerado do permafrost.

“Passar de 2 graus é ecocídio. Entre 3 e 4 graus, é suicídio ecológico.”

Nobre afirmou que o Pavilhão de Ciência Planetária, criado pela primeira vez em uma COP, entregou documentos aos negociadores pedindo a inclusão urgente dessa meta.

Alternativas já existem e são economicamente viáveis

O pesquisador também destacou que a transição energética é totalmente possível e já está em curso.

“A energia solar e eólica hoje são mais baratas. O hidrogênio verde vai cair de preço, como aconteceu com os painéis solares. Temos biocombustíveis e até energia renovável gerada a partir dos oceanos.”

Ele informou que, a pedido da secretária-executiva da COP30, o pavilhão científico criará um Painel de Transição Energética, cujo primeiro relatório deve ser lançado na COP31.

Financiamento climático: países ricos ainda falham

Outro desafio destacado por Carlos é o financiamento climático, considerado insuficiente para que países pobres e vulneráveis se adaptem aos impactos e realizem a transição energética.

“As guerras no mundo gastam 2,7 trilhões de dólares por ano e o Fundo Verde do Clima precisa chegar a 1,3 trilhão. Isso não é impossível.”

Ele reforçou que parte desses recursos poderia vir de subsídios retirados dos combustíveis fósseis, hoje superiores a trilhões de dólares anuais.

“Se tirarmos subsídios dos combustíveis fósseis e acelerarmos a transição, é totalmente factível financiar energias renováveis e adaptação.”

*Com informações de Jorge Biancchi, direto da COP 30 em Belém

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