Entidades empresariais defendem diálogo e estudos técnicos antes da votação da proposta
O possível fim da escala 6x1 voltou ao centro do debate nacional com a instalação, em Brasília, de uma subcomissão especial para discutir a proposta que prevê a redução da jornada máxima para 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias. O texto, protocolado pela deputada Érica Hilton (PSOL-SP) e relatado pelo deputado Luiz Gastão (PSD-CE), já reúne apoio de 226 parlamentares de diferentes partidos.
Em Feira de Santana, representantes do comércio, indústria e setor de serviços analisaram os possíveis impactos da medida durante debate no programa Jornal do Meio Dia da rádio Princesa FM. A avaliação predominante é de preocupação com os efeitos econômicos, especialmente para micro e pequenas empresas.
Presidente do Sicomércio, Marcos Silva afirmou que a ideia de ampliar o tempo livre do trabalhador é positiva, mas criticou a forma como o tema está sendo conduzido.

“As pessoas terem mais tempo para cuidar da saúde, da família e do lazer é um anseio legítimo, mas a forma como essa discussão está sendo feita, a toque de caixa, preocupa. Não existe estudo profundo sobre produtividade nem sobre os impactos reais”, declarou.
Segundo ele, o Brasil vive um cenário de quase pleno emprego formal, mas enfrenta dificuldades na contratação de mão de obra qualificada.
“Hoje já vemos placas de ‘procura-se’ em vários estabelecimentos. Se reduzir a jornada sem planejamento, pode aumentar a informalidade e a pejotização. Precisamos de um projeto de Brasil, não de decisões no calor do momento eleitoral.”
Para Getúlio Andrade, presidente do Sindicato dos Hotéis e Restaurantes de Feira de Santana, o setor de serviços está entre os mais sensíveis à mudança, já que muitas atividades funcionam 24 horas por dia.

“Hotéis, motéis, resorts trabalham ininterruptamente. Se o trabalhador reduzir sua jornada, será necessário contratar mais pessoas para suprir essa lacuna. Isso eleva custos operacionais e aumenta o passivo das empresas”, alertou.
Ele destacou ainda que, em países onde houve redução da jornada, a medida foi precedida de estudos de produtividade.
“O trabalhador brasileiro não produz menos porque é preguiçoso. Produz menos porque falta qualificação e investimento contínuo. É preciso discutir isso com profundidade.”
Presidente da Associação Comercial de Feira de Santana, Genildo Melo ressaltou que mais de 70% das empresas brasileiras são de pequeno e médio porte e que muitas já operam com margens apertadas.

“Nenhuma entidade empresarial é contra benefícios aos trabalhadores. Pelo contrário. Mas o que está sendo proposto é a redução da jornada sem qualquer compensação às empresas. Isso pode gerar aumento de custos, inflação e migração para a informalidade.”
Genildo citou dados do IBGE que apontam taxa de informalidade próxima de 38% da população ocupada.
“Medidas destinadas a proteger o trabalhador não podem resultar em retração do emprego formal.”
Representando o Centro das Indústrias de Feira de Santana, João Baptista Ferreira também demonstrou preocupação, principalmente com o impacto nas microempresas.

“A grande indústria até pode conseguir se adaptar. Mas e a micro e pequena empresa? Como vai absorver essa mudança? Muitas podem não suportar.”
Ele defendeu que qualquer alteração na jornada venha acompanhada de compensações fiscais.
“Se o governo vai tirar algo, precisa dar condições para compensar. Uma redução de impostos ajudaria. Do jeito que está, pode aumentar preços e até provocar fechamento de empresas.”
Outro ponto levantado pelos debatedores foi a dificuldade atual de contratação. Empresários relatam vagas abertas que não conseguem ser preenchidas.
“Existem empregos, mas falta qualificação. Precisamos rever conceitos e incentivar a capacitação, principalmente diante do avanço tecnológico e da inteligência artificial”, afirmou Getúlio.

Marcos Silva acrescentou que o modelo tradicional de trabalho também precisa ser repensado.
“A geração mais jovem não quer mais o modelo engessado. Talvez seja hora de discutir novas formas de contratação, mas isso exige planejamento.”
A proposta ainda será analisada em audiências públicas antes de eventual votação. Em Feira de Santana, entidades empresariais preparam documento técnico para encaminhar a parlamentares e ampliar o debate.
O consenso entre os representantes do setor produtivo é de que a discussão é legítima, mas precisa ser aprofundada, com estudos técnicos e diálogo amplo entre trabalhadores, empresários e governo.
“Empresa e trabalhador fazem parte do mesmo time. Um precisa do outro. O caminho é o diálogo”, concluiu Genildo Melo.