O tema vai além de medidas pontuais e envolve transformações profundas nas relações de trabalho e nos modelos produtivos.
O diretor de comunicação do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente no Estado da Bahia (SINDAE), Edmilson Barbosa, destacou a importância do debate sobre a transição justa e seus impactos sobre a classe trabalhadora e o meio ambiente. Em entrevista ao Jornal do Meio Dia, da Rádio Princesa FM, ele ressaltou que o tema vai além de medidas pontuais, como a substituição de sacolas plásticas, e envolve transformações profundas nas relações de trabalho e nos modelos produtivos.
“Quando a gente fala de transição justa, pensa em um processo literal da palavra transição: sair de um ponto para outro, com cuidado e observando o impacto sobre os trabalhadores. É preciso pensar de que forma as propostas para diminuir o impacto ambiental afetam as comunidades mais vulneráveis e a classe trabalhadora”, explicou Edmilson.
O sindicalista observou que a discussão sobre a proibição das sacolas plásticas em cidades como Salvador precisa ser ampliada. Segundo ele, o debate não deve se limitar ao impacto ambiental, mas também considerar os postos de trabalho envolvidos em toda a cadeia produtiva.
“Antes de proibir o uso das sacolas plásticas, é necessário pensar nos empregos gerados por essa produção. Não se trata apenas de meio ambiente, mas também de justiça social e de garantia de trabalho digno”, afirmou.
Edmilson destacou ainda que as grandes empresas têm promovido o conceito de “empregos verdes”, mas alertou que, segundo pesquisas recentes, a maioria dessas vagas é ocupada por pessoas negras e com baixa escolaridade, o que evidencia a persistência das desigualdades sociais.
“Os chamados empregos verdes muitas vezes não representam melhoria real nas condições de vida dos trabalhadores. É preciso discutir sustentabilidade com inclusão social”, defendeu.
Durante a entrevista, Edmilson também abordou a crise hídrica e chamou a atenção para o elevado consumo de água por grandes indústrias e empresas de tecnologia.
“A inteligência artificial, por exemplo, consome muita água para refrigerar seus servidores. No Ceará, há protestos contra a instalação de centros de dados por causa do impacto sobre comunidades que enfrentam escassez hídrica há décadas”, explicou.
Segundo ele, o debate sobre o uso consciente da água deve ir além das ações individuais e incluir uma análise crítica do consumo industrial e tecnológico.
“Não é apenas o banho de chuveiro ou escovar os dentes que resolvem o problema. As grandes indústrias continuam consumindo enormes volumes de água. É preciso discutir o reflorestamento com espécies nativas, e não com eucalipto, que consome muita água e causa desertificação do solo”, pontuou.
Edmilson citou ainda o exemplo da cidade de Alagoinhas, que abriga grandes indústrias de bebidas e possui uma das melhores águas do planeta, reforçando a importância da gestão sustentável dos recursos hídricos.
O dirigente lembrou que o SINDAE participa ativamente dos comitês de bacia hidrográfica em toda a Bahia, além de organizar anualmente o Grito da Água, que em breve chega à sua 26ª edição.
“Seguimos lutando pelo direito de acesso à água com qualidade para toda a população, não só na Bahia, mas em todo o Brasil. A transição justa deve garantir que o desenvolvimento ocorra com equidade, sustentabilidade e respeito ao trabalhador”, concluiu Edmilson Barbosa.