Especialista alerta que uso sem acompanhamento pode comprometer a cicatrização e agravar a desnutrição em pacientes
O uso das chamadas canetas emagrecedoras tem ganhado espaço no tratamento da obesidade e do diabetes, mas exige atenção redobrada quando associado ao cuidado de pacientes com feridas. O alerta é da estomaterapeuta Áquilla Chahinne, que destacou os benefícios e riscos.
Segundo a especialista, o tema é cercado de dúvidas, principalmente entre pacientes que já estão em tratamento de lesões.
“Hoje a gente vai falar de um tema bem polêmico, que é o uso das canetas emagrecedoras, mas focando em como elas interferem no processo de quem está tratando feridas”, explicou.
Áquilla ressaltou que a obesidade é um dos principais fatores que dificultam a cicatrização.
“De 2006 a 2024, a obesidade cresceu 118%. Hoje, cerca de 30% da população brasileira convive com esse problema. E junto com ela vem o diabetes, que também impacta diretamente na cicatrização”, afirmou.
Ela explica que o excesso de peso aumenta a pressão sobre vasos sanguíneos, o que pode favorecer o surgimento de feridas e dificultar a recuperação. Nesse contexto, a perda de peso pode contribuir positivamente.
“As canetas emagrecedoras vêm para ajudar na redução de peso, o que pode melhorar o quadro do paciente. Mas tudo precisa ser feito com acompanhamento”, pontuou.
A estomaterapeuta reforça que o uso dessas medicações deve ser sempre orientado por profissionais de saúde.
“É um conjunto. O paciente precisa estar com endocrinologista, nutrólogo e também com a equipe que trata a ferida. Um profissional soma com o outro”, destacou.
Ela chama atenção para o uso indiscriminado das canetas, muitas vezes sem prescrição.
“Muitas pessoas querem fazer por conta própria, e isso é perigoso. Essas medicações reduzem o apetite, e o paciente pode deixar de ingerir nutrientes essenciais”, alertou.
Um dos principais riscos apontados por Áquilla é a desnutrição, mesmo em pacientes obesos.
“Não é porque a pessoa tem obesidade que está bem nutrida. Muitas vezes, ela já é desnutrida e, comendo menos, isso pode piorar”, explicou.
Ela reforça que a cicatrização depende diretamente de uma alimentação adequada. “O corpo precisa de proteína, ferro, vitaminas e zinco. Se não tiver esses nutrientes, não consegue reconstruir o tecido. É como pedir para construir um muro sem entregar o material”, comparou.
A especialista ainda destacou que pacientes com feridas mais graves podem precisar de um aporte elevado de proteínas.
“Um paciente com lesão por pressão em estágio avançado pode precisar de uma média de seis ovos por dia só para auxiliar na cicatrização”, exemplificou.
Apesar dos riscos, Áquilla reconhece que, quando bem indicadas, as canetas podem trazer benefícios.
“Quando o paciente controla o diabetes e reduz o peso, a gente vê melhora significativa na cicatrização. Menos inflamação, menos risco de infecção”, afirmou.
Ela também destacou o impacto positivo na autoestima. “O paciente começa a se sentir melhor, mais confiante, e isso também reflete no tratamento. O psicológico conta muito”, disse.
Outro ponto abordado foi a influência de crenças populares na alimentação dos pacientes. “Tem pessoas que deixam de comer alimentos importantes por mitos, como ‘tudo que rama inflama’. Com isso, a dieta fica pobre em nutrientes e rica em carboidratos, o que prejudica ainda mais a cicatrização”, relatou.
Durante a entrevista, uma paciente da clínica compartilhou sua experiência positiva. “Desde o dia que comecei o tratamento, está uma benção na minha vida. Não sinto mais nada e cada dia só melhora”, afirmou Núbia, que segue em acompanhamento.
Para Áquilla, o principal recado é claro: o uso de canetas emagrecedoras pode ser aliado, mas nunca deve substituir o acompanhamento profissional.
“O mais seguro é ter uma nutrição equilibrada e uma equipe acompanhando. O tratamento de feridas exige esse cuidado completo”, concluiu.