23/06/2026
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Venda de amendoim na Queimadinha mantém tradição e impulsiona renda no São João em Feira de Santana

Com cerca de 70 anos de história no bairro, atividade ganha força no período junino e sustenta dezenas de famílias que mantêm viva a tradição do amendoim cozido

Victória SilvaRedação: Victória Silva
JP MirandaReportagem: JP Miranda
terça-feira, 23 de junho de 2026 às 12:00
Imagem de Venda de amendoim na Queimadinha mantém tradição e impulsiona renda no São João em Feira de Santana
Foto: JP Miranda

O cheiro do amendoim cozido toma conta das ruas da Queimadinha, em Feira de Santana, durante o período junino. Em frente às casas, fogueiras improvisadas e caldeirões com capacidade para até 80 quilos revelam uma tradição que atravessa gerações e se transforma em importante fonte de renda para muitas famílias do bairro.

Segundo moradores, a cultura do amendoim existe há cerca de 70 anos na comunidade e alcança seu auge às vésperas do São João. Entre os personagens que ajudaram a consolidar essa história está Adevaldo Moreira da Silva, mais conhecido como Vata do Amendoim, que trabalha na atividade há 46 anos.

Foto: JP Miranda

"Comecei com idade de 11 a 12 anos. Já comecei a trabalhar com minha mãe", relembra. "Viajava para pegar festa fora, micareta, carnaval. Hoje estou nessa vida."

Natural de Antônio Cardoso, Vata conta que a família precisou aprender a cozinhar e vender amendoim para sobreviver após chegar a Feira de Santana.

"A gente morava de aluguel. Teve que sobreviver, aprender a cozinhar amendoim, torrar, fazer os pacotinhos enrolados na mão e pegar as festas. Já passei fome, já pedi esmola para vir embora porque não consegui dinheiro. Graças a Deus hoje tenho um teto e me sinto feliz", afirma.

Foto: JP Miranda

O trabalho começa com a compra do amendoim diretamente dos produtores rurais ou no Centro de Abastecimento. Depois, os grãos passam por um rigoroso processo de limpeza e seleção.

"Tem de lavar, selecionar. O amendoim precisa ser vendido com qualidade, no mínimo 80% boa", explica.

Os grãos que não servem para comercialização são doados para criadores de animais.

"O que a gente cata aqui, os murchos, eu dou para o pessoal que cria galinha e porco", conta.

Após a seleção, o amendoim segue para o cozimento, que dura aproximadamente duas horas.

"Leva limão, sal, tem de ter. Agora o segredo eu não posso revelar", brinca o vendedor. "O segredo da minha mercadoria é só meu."

Foto: JP Miranda

Vata também destaca que foi o primeiro comerciante a instalar um ponto fixo de venda de amendoim na chamada Praça do Amendoim.

"Fui eu que fiz o ponto aqui. O primeiro vendedor daqui fui eu", diz. "Enquanto a perna e o coração estiverem batendo, eu não saio daqui."

Para os moradores, o amendoim já se tornou uma marca registrada da Queimadinha. Pessoas de outras cidades costumam procurar o bairro para comprar o produto e levar para as comemorações juninas.

"O amendoim é tão forte aqui que virou uma tradição. O pessoal vem de fora comprar em nossa mão para fazer a festa em casa", destaca Vata.

Foto: JP Miranda

Apesar da grande procura no São João, ele relata dificuldades enfrentadas pelos comerciantes.

"Tomei prejuízo de mais de três mil reais com amendoim podre. Às vezes a pessoa vê a mercadoria bonita em cima e a mercadoria ruim está toda embaixo", lamenta.

Mesmo assim, acredita que a atividade continua sendo uma forma digna de sustento.

"Às vezes já foi melhor, mas dá para levar a vida", afirma.

Vendedoras pedem estrutura permanente

Há cerca de 25 anos trabalhando com amendoim, Edilene Dionísia de França acompanha o aumento da movimentação no período junino na Rua José Falcão.

Foto: JP Miranda

"Chega o tempo do São João e todo mundo vende. Vem todo mundo aqui de dentro mesmo vender", relata.

Ela considera o amendoim um dos maiores símbolos do bairro.

"Com certeza é um símbolo da Queimadinha", diz.

Edilene aprovou a instalação de sanitários químicos para atender os vendedores durante o período junino.

"O prefeito está de parabéns. Todo mundo gostou, porque a gente não tinha onde usar. Agora melhorou demais, graças a Deus", afirma.

Foto: JP Miranda

No entanto, ela defende investimentos para garantir melhores condições de trabalho durante todo o ano.

"Gostaria que o prefeito botasse a gente num lugar que tivesse nossas barracas fixamente, para trabalhar tranquilo, sem tomar sol e sem tomar chuva", pede.

Um dos espaços criados para fortalecer a atividade, o Galpão do Amendoim, atualmente encontra-se sem uso e em situação de abandono.

Foto: JP Miranda

Segundo Vata, a estrutura foi implantada durante a gestão do prefeito José Ronaldo, mas acabou sendo deixada de lado pelos próprios comerciantes.

"Quem lançou esse galpão foi o prefeito Zé Ronaldo, agradeço muito a ele, mas foi culpa do povo mesmo que abandonou. Não foi culpa dele não", avalia.

Foto: JP Miranda

Mesmo diante das dificuldades, Vata garante que não pensa em abandonar a profissão que aprendeu ainda criança.

"Espero continuar vivendo desse jeito que estou. Enquanto a perna estiver aguentando e o coração estiver batendo, estou forte e firme", conclui.

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