Com cerca de 70 anos de história no bairro, atividade ganha força no período junino e sustenta dezenas de famílias que mantêm viva a tradição do amendoim cozido
O cheiro do amendoim cozido toma conta das ruas da Queimadinha, em Feira de Santana, durante o período junino. Em frente às casas, fogueiras improvisadas e caldeirões com capacidade para até 80 quilos revelam uma tradição que atravessa gerações e se transforma em importante fonte de renda para muitas famílias do bairro.
Segundo moradores, a cultura do amendoim existe há cerca de 70 anos na comunidade e alcança seu auge às vésperas do São João. Entre os personagens que ajudaram a consolidar essa história está Adevaldo Moreira da Silva, mais conhecido como Vata do Amendoim, que trabalha na atividade há 46 anos.

"Comecei com idade de 11 a 12 anos. Já comecei a trabalhar com minha mãe", relembra. "Viajava para pegar festa fora, micareta, carnaval. Hoje estou nessa vida."
Natural de Antônio Cardoso, Vata conta que a família precisou aprender a cozinhar e vender amendoim para sobreviver após chegar a Feira de Santana.
"A gente morava de aluguel. Teve que sobreviver, aprender a cozinhar amendoim, torrar, fazer os pacotinhos enrolados na mão e pegar as festas. Já passei fome, já pedi esmola para vir embora porque não consegui dinheiro. Graças a Deus hoje tenho um teto e me sinto feliz", afirma.

O trabalho começa com a compra do amendoim diretamente dos produtores rurais ou no Centro de Abastecimento. Depois, os grãos passam por um rigoroso processo de limpeza e seleção.
"Tem de lavar, selecionar. O amendoim precisa ser vendido com qualidade, no mínimo 80% boa", explica.
Os grãos que não servem para comercialização são doados para criadores de animais.
"O que a gente cata aqui, os murchos, eu dou para o pessoal que cria galinha e porco", conta.
Após a seleção, o amendoim segue para o cozimento, que dura aproximadamente duas horas.
"Leva limão, sal, tem de ter. Agora o segredo eu não posso revelar", brinca o vendedor. "O segredo da minha mercadoria é só meu."

Vata também destaca que foi o primeiro comerciante a instalar um ponto fixo de venda de amendoim na chamada Praça do Amendoim.
"Fui eu que fiz o ponto aqui. O primeiro vendedor daqui fui eu", diz. "Enquanto a perna e o coração estiverem batendo, eu não saio daqui."
Para os moradores, o amendoim já se tornou uma marca registrada da Queimadinha. Pessoas de outras cidades costumam procurar o bairro para comprar o produto e levar para as comemorações juninas.
"O amendoim é tão forte aqui que virou uma tradição. O pessoal vem de fora comprar em nossa mão para fazer a festa em casa", destaca Vata.

Apesar da grande procura no São João, ele relata dificuldades enfrentadas pelos comerciantes.
"Tomei prejuízo de mais de três mil reais com amendoim podre. Às vezes a pessoa vê a mercadoria bonita em cima e a mercadoria ruim está toda embaixo", lamenta.
Mesmo assim, acredita que a atividade continua sendo uma forma digna de sustento.
"Às vezes já foi melhor, mas dá para levar a vida", afirma.
Há cerca de 25 anos trabalhando com amendoim, Edilene Dionísia de França acompanha o aumento da movimentação no período junino na Rua José Falcão.

"Chega o tempo do São João e todo mundo vende. Vem todo mundo aqui de dentro mesmo vender", relata.
Ela considera o amendoim um dos maiores símbolos do bairro.
"Com certeza é um símbolo da Queimadinha", diz.
Edilene aprovou a instalação de sanitários químicos para atender os vendedores durante o período junino.
"O prefeito está de parabéns. Todo mundo gostou, porque a gente não tinha onde usar. Agora melhorou demais, graças a Deus", afirma.

No entanto, ela defende investimentos para garantir melhores condições de trabalho durante todo o ano.
"Gostaria que o prefeito botasse a gente num lugar que tivesse nossas barracas fixamente, para trabalhar tranquilo, sem tomar sol e sem tomar chuva", pede.
Um dos espaços criados para fortalecer a atividade, o Galpão do Amendoim, atualmente encontra-se sem uso e em situação de abandono.

Segundo Vata, a estrutura foi implantada durante a gestão do prefeito José Ronaldo, mas acabou sendo deixada de lado pelos próprios comerciantes.
"Quem lançou esse galpão foi o prefeito Zé Ronaldo, agradeço muito a ele, mas foi culpa do povo mesmo que abandonou. Não foi culpa dele não", avalia.

Mesmo diante das dificuldades, Vata garante que não pensa em abandonar a profissão que aprendeu ainda criança.
"Espero continuar vivendo desse jeito que estou. Enquanto a perna estiver aguentando e o coração estiver batendo, estou forte e firme", conclui.