A ginecologista destacou que essas medicações não atuam apenas no estômago ou intestino, mas no corpo como um todo, incluindo o cérebro.
O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” tem ganhado cada vez mais espaço nas redes sociais, em programas de TV e nas conversas do dia a dia, sendo muitas vezes divulgadas como soluções rápidas e até “milagrosas” para a perda de peso. Mas afinal, quais são os reais benefícios e riscos dessas medicações para a saúde da mulher?
O tema foi esclarecido pela ginecologista Dra. Márcia Suely, durante participação no programa Cidade de Pauta, quando a médica fez um alerta importante sobre o uso indiscriminado dessas substâncias e reforçou a necessidade de acompanhamento médico especializado.
“Esse é um dos assuntos mais comentados do momento. A gente precisa esclarecer o que é verdade, o que é mito, quem pode usar, quem não pode e quais são os riscos reais dessas chamadas canetinhas emagrecedoras”, afirmou a médica.
Segundo a Dra. Márcia Suely, as canetas são medicamentos injetáveis que imitam hormônios naturais produzidos pelo próprio organismo, como o GLP-1 e, mais recentemente, a tirzepatida, que age em dois hormônios ao mesmo tempo.
“Elas aumentam a sensação de saciedade, fazem com que a pessoa coma menos e retardam o esvaziamento gástrico, fazendo o alimento permanecer mais tempo no estômago”, explicou.
Essa ação leva à redução do apetite, mas também pode provocar efeitos colaterais importantes. “Muitas pessoas passam o dia inteiro sem vontade de comer e até sem vontade de beber água, o que pode levar à desidratação”, alertou.
A ginecologista destacou que essas medicações não atuam apenas no estômago ou intestino, mas no corpo como um todo, incluindo o cérebro.
“Elas têm ação no centro da fome e da saciedade no cérebro. Isso pode ajudar a reduzir compulsões alimentares, vontade por doces e até o consumo de álcool, mas também pode mexer com as emoções, causando ansiedade, apatia e até redução da libido quando usadas de forma inadequada”, disse.
Para a médica, a frase-chave é clara:
“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Usar sem orientação é extremamente perigoso.”
Questionada se as canetas realmente emagrecem, Dra. Márcia foi direta:
“Elas emagrecem sim, qualquer pessoa que use vai emagrecer. O problema é o uso recreativo, sem indicação médica.”
Ela chamou atenção para o uso irresponsável, especialmente antes de festas e eventos.
“Tem gente usando para emagrecer rápido para o Carnaval. A pessoa bebe álcool, dorme pouco, se alimenta mal e não se hidrata. É receita certa para dar problema.”
A médica relatou casos graves atendidos na prática clínica.
“Já tive paciente que foi parar na UTI com hipoxemia porque não estava comendo nem bebendo corretamente.”
Apesar dos alertas, a ginecologista reforçou que, quando bem indicadas, as canetas podem trazer grandes benefícios para a saúde da mulher.
“Elas são excelentes para pacientes com resistência à insulina, síndrome dos ovários policísticos, diabetes, obesidade e até gordura no fígado. Nessas mulheres, a medicação ajuda o corpo a voltar a funcionar melhor”, explicou.
Ela ressaltou que, nesses casos, o medicamento pode ser um aliado na mudança de estilo de vida.
“Ajuda na autoestima, facilita o início de hábitos saudáveis e melhora a resposta do organismo, mas nunca é mágica.”
Um ponto de atenção especial, principalmente para mulheres acima dos 40 anos, é a perda de massa muscular.
“Após os 40, a mulher já perde músculo naturalmente. Com o uso dessas canetas, essa perda pode ser ainda maior se não houver atividade física e acompanhamento adequado”, alertou.
Além disso, a médica destacou impactos hormonais importantes, sobretudo em mulheres no climatério e na menopausa.
“A perda rápida de gordura reduz o estrogênio, o que pode piorar sintomas como fadiga, baixa libido, insônia e indisposição.”
Dra. Márcia Suely foi enfática ao afirmar que nem toda mulher pode utilizar essas medicações.
“Não são indicadas para mulheres com transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, ou para quem tem relação psicológica disfuncional com a comida”, explicou.
Outro alerta importante envolve mulheres que fazem uso de anticoncepcionais.
“As canetas podem reduzir a absorção da pílula, aumentando o risco de gravidez, especialmente nos primeiros meses de uso”, disse.
De acordo com a especialista, sem mudança real de hábitos, o peso tende a voltar.
“Se não houver reeducação alimentar, atividade física e acompanhamento, a pessoa recupera o peso rapidamente — e o músculo não volta junto.”
Ela destacou que, em alguns casos de obesidade genética, pode ser necessária manutenção de doses mínimas por longo prazo, sempre com acompanhamento.
Para a médica, nenhum tratamento deve ser iniciado sem uma avaliação completa.
“São essenciais exames laboratoriais, hormonais, de imagem e uma anamnese bem feita. Cada mulher é única.”
A ginecologista reforçou o papel do médico atualizado e responsável.
“Não dá para sair prescrevendo porque virou moda. Nosso compromisso é com a saúde da paciente.”
Ao encerrar a entrevista, Dra. Márcia Suely deixou um recado direto:
“Não existe milagre. Existe cuidado, orientação e acompanhamento. Não é sobre estética, é sobre saúde. Não adianta emagrecer a qualquer custo e não conseguir levantar da cama.”
Ela também informou que atende na Clínica Vitalis, no edifício Premier, ao lado de uma equipe multiprofissional.
“Se for indicado, as canetas podem ser usadas sim, em benefício da saúde. Mas sempre com orientação médica e mudança de estilo de vida”, concluiu.