Presidente Marco Silva afirma que combinação de juros elevados, concorrência de importados e crescimento das bets tem reduzido o consumo e pressionado o comércio de Feira de Santana
O presidente do Sindicato do Comércio de Feira de Santana (Sicomércio), Marco Silva, fez um alerta sobre os desafios enfrentados pelo varejo brasileiro e apontou uma combinação de fatores econômicos que, segundo ele, tem afetado diretamente o desempenho do setor. Durante entrevista ao Jornal do Meio Dia, o dirigente destacou que juros elevados, aumento das compras internacionais, expansão das plataformas de apostas esportivas (bets) e as constantes mudanças relacionadas à reforma tributária compõem um cenário de insegurança para empresários e consumidores.
A avaliação ocorre em um momento em que o comércio de Feira de Santana registrou saldo negativo na geração de empregos durante o primeiro semestre de 2026, tornando-se o único grande setor urbano da cidade a fechar vagas no período.
Entre os fatores apontados pelo presidente do Sicomércio, o primeiro é a manutenção das taxas de juros em patamares elevados, o que, segundo ele, aumenta o endividamento das famílias e reduz o consumo.
"Nós temos a alta taxa de juros, que leva ao endividamento das famílias. Isso é um dos fatores que mais têm preocupado o comércio."
Marco Silva explica que, com maior comprometimento da renda para pagamento de dívidas e financiamentos, sobra menos dinheiro para o consumo no varejo, refletindo diretamente nas vendas.
Outro ponto destacado foi o crescimento das compras em plataformas internacionais de comércio eletrônico.
Segundo Marco Silva, o problema não está na concorrência em si, mas na diferença da carga tributária entre empresas brasileiras e estrangeiras.
"As compras internacionais bateram recordes nos últimos meses. O comércio de confecções, calçados e eletrônicos é um dos mais atingidos. Nós não queremos privilégios. Queremos apenas equilíbrio."
O dirigente afirma que empresários brasileiros enfrentam uma carga tributária elevada, enquanto empresas estrangeiras conseguem operar com condições consideradas mais vantajosas.
"Não é justo uma empresa que está fora do Brasil ter uma condição tributária diferente de quem gera emprego aqui. Precisamos de igualdade para competir."
Marco Silva também demonstrou preocupação com o avanço das plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets.
Segundo ele, estudos do Banco Central apontam que cerca de R$ 30 bilhões deixam mensalmente o orçamento das famílias brasileiras em razão das apostas.
"Esse fenômeno vem se agravando fortemente. Segundo estudos do Banco Central, cerca de trinta bilhões de reais por mês saem do orçamento das famílias por causa das bets. É um impacto muito grande."
Na avaliação do presidente do Sicomércio, esse dinheiro deixa de circular no comércio tradicional, afetando diretamente as vendas.
Ele ressalta que a entidade não defende o fim das apostas, mas acredita que é necessário estabelecer regras mais claras para o setor.
"A bet é uma atividade legal. Nós não queremos acabar com ela. O que defendemos é que haja equilíbrio e uma discussão sobre a forma como essas plataformas são divulgadas. Não é investimento, é um jogo de risco."
Outro tema abordado foi a implementação da reforma tributária.
Marco Silva afirmou que as mudanças frequentes nas regras têm dificultado o planejamento das empresas.
Segundo ele, empresários investem tempo e recursos para se adaptar às novas exigências e, pouco depois, enfrentam novas alterações na legislação.
"A reforma tributária está sendo mal conduzida. É uma mudança atrás da outra. Todo dia surge uma notícia nova e isso gera insegurança."
O presidente afirma que essa instabilidade compromete a credibilidade do processo de implantação.
"Você orienta o empresário a se adequar às novas regras e, dias depois, muda tudo novamente. Isso dificulta o planejamento e aumenta a insegurança para quem produz e gera empregos."
Para Marco Silva, além das discussões sobre impostos, o país precisa investir em medidas que fortaleçam o ambiente de negócios e incentivem quem empreende.
Segundo ele, entidades como a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a Fecomércio Bahia e os sindicatos empresariais têm levado essas preocupações ao Governo Federal.
"Precisamos melhorar o ambiente de negócios. As entidades têm dialogado com o governo para mostrar os impactos dessas medidas sobre o comércio e defender políticas que fortaleçam quem gera emprego."
Mesmo diante dos desafios, Marco Silva afirma que o varejo continuará se reinventando.
Segundo ele, a história do comércio mostra que o setor sempre encontrou formas de superar mudanças econômicas e tecnológicas.
"O comércio tradicional não vai acabar. Ele vai se adaptar. O empresário precisa continuar investindo, inovando, melhorando a experiência do cliente e acreditando no seu negócio."