Confiança, escuta atenta e exame físico são fundamentais para garantir segurança ao paciente e evitar diagnósticos e tratamentos desnecessários
Durante o quadro Momento IDM Cardio, na rádio Princesa FM, o médico cardiologista Dr. Cláudio Rocha falou sobre a importância de uma consulta médica bem realizada e como esse momento pode ser determinante para o diagnóstico correto e a eficácia do tratamento.
O médico destacou que a consulta vai além de um simples atendimento técnico.
“Uma consulta bem feita começa com confiança. O paciente precisa se sentir muito à vontade para contar tudo o que está sentindo, sejam angústias físicas ou emocionais”, afirmou.
Segundo o cardiologista, muitos pacientes não conseguem relatar seus sintomas nem mesmo dentro de casa. Ele citou o exemplo de um paciente que atendeu recentemente e que não costumava falar sobre o que sentia.
“Durante a consulta, eu deixei ele bem à vontade para falar do dia a dia. Aos poucos começamos a perceber os sintomas e ele estava com insuficiência cardíaca descompensada. Se ele não se sentisse seguro para falar, talvez o diagnóstico demorasse”, explicou.
Para o médico, o consultório deve ser um ambiente de sigilo absoluto. “É um momento de confiança e confidencialidade. O paciente precisa sair dali seguro de que foi ouvido”, reforçou.
Um dos pontos abordados foi a duração das consultas, especialmente quando há queixas de atendimentos muito rápidos.
“O tempo da consulta não é o tempo do médico, é o tempo do paciente”, enfatizou. “Existem casos mais simples e retornos que são mais rápidos, mas há pacientes graves ou com questões emocionais que exigem mais tempo. Precisamos organizar a agenda respeitando essas diferenças.”
Ele ressaltou ainda que o paciente deve se sentir como prioridade durante o atendimento. “Naquele momento, ele precisa sentir que é a única pessoa ali. Isso melhora a escuta e a qualidade do diagnóstico.”
Dr. Cláudio também chamou atenção para a importância do exame físico, prática que, segundo ele, não pode ser negligenciada.
“A consulta sempre tem que ter exame físico. Colocar o estetoscópio, examinar o paciente, isso faz parte de uma consulta de sucesso. É fundamental para fortalecer a confiança e para um tratamento efetivo.”
Ele alertou ainda para a necessidade de o paciente levar todos os exames e medicações em uso. “Muitas medicações interagem entre si. Às vezes o paciente está tomando remédios semelhantes prescritos por médicos diferentes ou usando medicamentos com efeitos colaterais importantes.”
O cardiologista explicou que até 90% das suspeitas diagnósticas podem ser levantadas apenas com uma boa conversa.
“A principal pergunta é: o que você está sentindo? A partir da queixa principal, desenvolvemos o raciocínio clínico. Muitas vezes não é necessário pedir uma enxurrada de exames”, afirmou.
Ele fez um alerta sobre o que chamou de “overdiagnosis” — diagnósticos e exames em excesso —, que podem gerar ansiedade e tratamentos desnecessários.
“Estamos vendo pacientes saudáveis saindo do consultório rotulados com doenças que muitas vezes não existem.”
Outro ponto destacado foi a necessidade de adaptar a linguagem ao perfil do paciente.
“Nem sempre o paciente entende facilmente o que explicamos. Por isso uso desenhos, comparações simples. A medicina precisa ser didática”, explicou.
Ele contou o caso de uma paciente idosa e analfabeta que utilizava os medicamentos pela cor e tamanho do comprimido. Quando o laboratório mudou a apresentação, ela passou a tomar os remédios de forma errada e descompensou o quadro clínico.
“Veja como o analfabetismo pode aumentar a mortalidade. Isso exige de nós uma preocupação redobrada com a explicação e a organização da prescrição.”
Com o avanço das redes sociais e do acesso à informação, o médico destacou a necessidade de cautela com conteúdos não científicos.
“Nem tudo o que aparece na internet é verdade. Existem tratamentos ineficazes e até perigosos sendo divulgados. Isso precisa ser esclarecido durante a consulta”, alertou.
Ele citou como exemplo práticas sem comprovação científica que circulam nas redes, reforçando que decisões médicas devem sempre ser discutidas com um profissional de confiança.
Dr. Cláudio reforçou que nenhuma dúvida deve ser deixada para trás — inclusive temas considerados tabus.
“Sexualidade precisa ser abordada, principalmente em pacientes idosos. Muitos não falam por vergonha. Se o paciente não se sente à vontade, ele pode omitir informações importantes.”
Para ele, o sucesso da consulta está no resultado final: um paciente seguro, bem informado e confiante.
“Se o paciente sair desconfiado, ele não vai seguir o tratamento. A consulta precisa ser um momento de escuta, orientação e confiança”, concluiu.