06/06/2026
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Da dor ao propósito: hematologista transforma história pessoal em missão de cuidar de pacientes na Bahia

História da médica é marcada por fé, superação e pelo compromisso de ampliar o acesso ao tratamento de doenças do sangue.

Redação:
quinta-feira, 12 de março de 2026 às 15:38
Imagem de Da dor ao propósito: hematologista transforma história pessoal em missão de cuidar de pacientes na Bahia

A trajetória da médica hematologista Erika Macedo é marcada por superação, fé e dedicação à medicina. Paulista, filha de pais pernambucanos, ela chegou à Bahia após se casar com um baiano e acabou encontrando no estado não apenas um novo lar, mas também o espaço para desenvolver sua carreira e ajudar pacientes que enfrentam doenças do sangue.

Em entrevista à Jorge Biancchi durante participação na série especial do Projeto Março Mulher no programa Jornal do Meio Dia, a médica compartilhou sua história profissional e pessoal, marcada por desafios, perdas e conquistas.

A especialista explicou o campo de atuação da hematologia e destacou a importância da área na medicina.

“A hematologia é a especialidade que estuda o sangue. A gente trata todas as doenças que envolvem a produção sanguínea, como as anemias, alterações de plaquetas e também doenças oncológicas, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo”, explicou.

Segundo ela, o hematologista acompanha tanto doenças benignas quanto graves. “Essas doenças variam desde anemias e alterações no leucograma até doenças mais complexas como leucemias crônicas. Tudo isso faz parte da atuação do hematologista”, acrescentou.

Apesar de hoje atuar na área, Dra. Erika contou que inicialmente sonhava em seguir outra especialidade. No entanto, um episódio familiar mudou completamente seus planos.

“Eu digo que a hematologia me escolheu. Meu pai teve uma doença hematológica quando eu estava no primeiro ano da faculdade. Ele tinha 47 anos e, um ano depois do diagnóstico, faleceu”, relembrou.

Na época, ela se identificava com a cardiologia e chegou a iniciar a residência médica nessa área. Mas acabou percebendo que seu caminho estava em outro lugar.

“Meu coração sempre foi a cardiologia na faculdade. Eu comecei a residência em cardiologia, fiz seis meses, mas não me identifiquei. Então resolvi tentar novamente e fui para a hematologia, com o desejo de cuidar desses pacientes que muitas vezes tinham poucas opções de tratamento”, contou.

A história da médica também é marcada por dificuldades financeiras e pela perda precoce do pai justamente quando ela iniciava a graduação em medicina.

Filha de pais de origem simples, ela estudou em escola pública e precisou se preparar durante anos para conseguir ingressar na faculdade.

“Eu estudei três anos para passar no vestibular. Quando finalmente consegui entrar na faculdade, quatro meses depois meu pai recebeu o diagnóstico de mieloma múltiplo”, relatou.

A situação foi ainda mais difícil porque o tratamento exigiu longos períodos de internação.

“Eu tinha o sonho da minha vida sendo realizado e, ao mesmo tempo, o amor da minha vida estava doente. Era muito difícil estudar sabendo que ele estava naquela situação”, disse.

Mesmo assim, o incentivo do próprio pai foi fundamental para que ela continuasse.

“Mesmo doente ele dizia: ‘vá estudar, realize o seu sonho’. Isso foi uma força propulsora para continuar”, afirmou.

O pai faleceu no segundo ano da faculdade, mas Dra. Erika decidiu seguir em frente.

“Eu sempre digo que ele era meu amigo, meu conselheiro. Foi uma pancada muito grande, mas Deus me deu forças para continuar”, destacou.

Após concluir a graduação, a médica foi aprovada em residência médica na Universidade Federal de São Paulo, em São José dos Campos, onde se especializou em clínica médica.

Depois de abandonar a residência em cardiologia, decidiu tentar novamente e conquistou uma vaga no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, uma das instituições mais respeitadas do país.

“Eu sonhava em ter acesso a uma medicina de ponta para poder oferecer isso aos meus pacientes. Estudar no Einstein foi muito importante para mim”, afirmou.

A chegada à Bahia

Após concluir a especialização em hematologia, a médica se casou com um nefrologista baiano, o que acabou mudando seus planos.

O marido recebeu um convite para trabalhar em Senhor do Bonfim, no norte da Bahia, e o casal decidiu se mudar.

“Foi um momento difícil porque eu tinha propostas para continuar no Einstein e até fazer doutorado. Mas a família falou mais alto”, contou.

Pouco tempo depois de chegar ao estado, ela recebeu o convite para conhecer uma unidade de oncologia em Feira de Santana.

“Fui convidada pelo doutor Ernesto Pires para conhecer a unidade. Comecei a trabalhar em março de 2014 e já fazem 12 anos que estou aqui. Feira de Santana me acolheu”, afirmou.

Hoje, a médica divide sua atuação entre Feira de Santana e Senhor do Bonfim, onde também mantém uma clínica ao lado do marido.

“Eu digo que Feira acolheu uma paulista de coração pernambucano que agora também é baiana”, brincou.

Durante a pandemia, a médica decidiu ampliar seus conhecimentos e realizou uma especialização em medicina integrativa no próprio Hospital Albert Einstein.

Segundo ela, o aprendizado trouxe uma nova visão sobre o cuidado com os pacientes.

“A medicina integrativa olha o paciente por inteiro. No tratamento oncológico, quando associamos essas técnicas ao tratamento convencional, vemos uma melhora importante no desfecho dos pacientes”, explicou.

Ela afirma que essa abordagem também teve impacto em sua própria vida.

“Eu tinha um diagnóstico de infertilidade sem causa aparente e muitas coisas que aprendi na medicina integrativa apliquei em mim mesma. Hoje sou mãe de três filhos”, contou.

Transformar dor em propósito

A experiência de ter sido acompanhante de um paciente oncológico também influencia a forma como ela atende seus pacientes.

“Eu sempre penso: como eu gostaria que fosse o tratamento se fosse o meu pai? Isso muda completamente o olhar do médico”, disse.

Atualmente, além de atender pacientes, Dra. Erika também atua como professora em cursos de medicina e participa de treinamentos para outros médicos.

Segundo ela, a missão é também ajudar a divulgar e ampliar o conhecimento sobre doenças hematológicas, muitas delas consideradas raras.

“O mieloma múltiplo, por exemplo, atinge cerca de sete mil pessoas por ano no Brasil. É importante que a gente divulgue essas doenças e amplie o acesso ao tratamento”, destacou.

Ao relembrar toda a sua trajetória, a médica afirma que hoje entende melhor o sentido das dificuldades que enfrentou.

“Na época eu não entendia por que tudo aquilo estava acontecendo. Hoje eu vejo que existia um propósito em tudo”, afirmou.

Para ela, a experiência vivida acabou se transformando em uma missão.

“Eu vivi a dor de ser filha de um paciente oncológico e perder meu pai. Isso me trouxe uma força que só Deus explica. Hoje eu consigo olhar para trás e ver que tudo isso foi ressignificado para ajudar outras pessoas”, concluiu.

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