Em intercâmbio cultural na Grécia, percussionista da Rua Nova destaca a força da música com materiais recicláveis, a valorização da cultura brasileira no exterior e o impacto social da arte na formação de jovens.
A cultura popular de Feira de Santana ultrapassou fronteiras e chegou à Europa pelas mãos e pelo talento do percussionista José Pereira dos Santos, mais conhecido como Zé das Congas. Morador da Rua Nova há mais de 50 anos, o músico está atualmente na Grécia participando de um projeto social voltado à música e à percussão com materiais recicláveis, levando um pouco da identidade cultural feirense para outros países.
Zé das Congas destacou a emoção de representar o bairro, a cidade, a Bahia e o Brasil fora do país, enquanto compartilha seus conhecimentos musicais em oficinas de percussão.

“Pra mim é uma honra estar aqui na Grécia e estar viajando também pra Croácia. Fico muito feliz porque, através da percussão, eu sempre falo com os meus alunos que foi através da música, dessa arte e dessa cultura que eu consegui sair da minha cidade”, afirmou.
Segundo o percussionista, o objetivo do projeto vai além da música: é também ensinar como a criatividade pode transformar materiais simples em arte, profissão e oportunidade de vida.
“Meu objetivo é ensinar você a viver em cima de coisas simples. Minha luta começou com instrumentos recicláveis e, em cima disso, fui estudando pra tocar percussão. Fui desenvolvendo isso no bairro mesmo, com instrumentos simples, e aí foi ganhando força na cidade, no estado e atravessou fronteiras”, contou.
Autodidata, Zé das Congas lembra que começou sua trajetória musical utilizando objetos reaproveitados, como tampas de garrafa, até construir uma carreira reconhecida internacionalmente. Para ele, a música é uma ferramenta de transformação social e deve ser tratada com seriedade.
“Desde o primeiro instrumento que peguei, que foi chave de tampas de garrafa, até hoje, eu estou aqui fortalecendo a musicalidade feirense. A música é uma profissão e tem que ser encarada com determinação e seriedade. Quem vai ouvir uma música não quer ouvir algo mal executado, então tem que estudar”, explicou.
O músico reforçou ainda que qualquer pessoa pode descobrir um talento e transformá-lo em sustento.
“Você pode pegar qualquer coisinha e transformar desde uma arte até uma profissão, como se transformou a minha profissão de percussionista autodidata. Isso pode ir pras escolas, universidades, igrejas, bares, ruas, praças e você pode viver da sua própria arte”, destacou.

Durante a experiência na Europa, Zé também percebeu uma valorização maior da cultura popular brasileira em países estrangeiros, especialmente manifestações como a capoeira, o samba de roda e a percussão.
“Aqui na Europa a cultura é vista como uma riqueza, como parte da formação das pessoas. Eu observei que a potência da nossa cultura é muito mais valorizada fora do nosso país”, avaliou.
Apesar disso, o músico defende que o reconhecimento deve começar dentro de casa, com maior incentivo às expressões culturais locais.
“A gente tem que valorizar primeiro o que é nosso: nossa casa, nosso bairro, nossa cultura. Depois a valorização vem de fora. Quando a pessoa entende isso, ela cresce e fica forte”, afirmou.
Ao retornar ao Brasil, Zé das Congas pretende aplicar os conhecimentos adquiridos na Europa em novos projetos sociais e apresentações culturais em Feira de Santana, incluindo atividades ligadas à percussão com materiais recicláveis.
“Quando eu voltar, vamos fazer oficinas com equipamentos novos de material reciclável e também alguns shows, inclusive em eventos como a Micareta e o Novembro Negro. A gente tem uma agenda boa aí pra continuar essa difusão rítmica e passar um pouco do conhecimento que estamos aprendendo aqui”, concluiu.

*Com informações do repórter JP Miranda