O aumento da maternidade após os 40 anos tem intensificado desafios emocionais entre mães na menopausa e filhos adolescentes
A convivência entre menopausa e adolescência dentro da mesma casa tem se tornado uma realidade cada vez mais comum e, ao mesmo tempo, desafiadora para muitas famílias. Durante entrevista ao quadro Mulheres em Pauta, a ginecologista Dra. Márcia Suely chamou atenção para os impactos emocionais e hormonais enfrentados por mulheres acima dos 40 anos que ainda estão criando filhos adolescentes, destacando a importância do acolhimento familiar e do acompanhamento médico.
Segundo a especialista, o aumento da maternidade tardia mudou significativamente a dinâmica familiar. Mulheres que optaram por ter filhos mais tarde, muitas vezes por causa da carreira, estabilidade financeira ou novos relacionamentos, acabam vivenciando a menopausa enquanto os filhos atravessam a adolescência.
“Muitas mulheres hoje decidem ter filhos por volta dos 40 anos e até 50. O momento em que conseguem estabilidade no relacionamento acontece justamente quando elas estão entrando no climatério ou na menopausa”, explicou.
A médica destacou que essa combinação pode gerar conflitos dentro de casa, já que ambos vivem períodos de intensas transformações hormonais.
“Ela está vivendo uma explosão hormonal na menopausa e o filho outra explosão hormonal na adolescência. São duas pessoas dentro de casa precisando de equilíbrio emocional”, afirmou.
De acordo com Dra. Márcia, muitas mulheres chegam ao consultório sem perceber que sintomas emocionais, irritabilidade e mudanças comportamentais podem estar relacionados ao climatério ou à menopausa.
“É uma mulher que está exausta, com insônia, fadiga, emocionalmente irritada, nervosa, angustiada, e ainda precisa lidar com a fase mais difícil da criação dos filhos, que é a adolescência”, pontuou.
Ela explicou que nem sempre os sintomas mais conhecidos, como os fogachos, são os mais intensos. Em muitos casos, as alterações emocionais e cognitivas são mais evidentes.
“Muitas chegam dizendo: ‘Doutora, eu não me reconheço mais. Eu estouro com meu filho, eu grito com meu marido e eu não sou assim’”, relatou.
A médica ressaltou ainda que a privação do sono agrava o quadro emocional.
“Imagine uma pessoa que não dorme direito, acorda cansada, tem dores no corpo, irritabilidade e ainda precisa trabalhar, cuidar da casa e criar filhos adolescentes”, observou.
Outro ponto destacado pela ginecologista foi o impacto da menopausa na relação entre mães e filhos adolescentes. Segundo ela, o adolescente, apesar das atitudes desafiadoras, busca principalmente apoio emocional.
“O adolescente muitas vezes faz tudo para irritar, mas, na verdade, ele quer presença emocional. Quer saber que aquela mãe está ali para oferecer segurança”, explicou.
Por isso, Dra. Márcia recomenda que as mães evitem confrontos em momentos de tensão.
“O maior erro é entrar em confronto no auge da discussão. O adolescente precisa de limite, mas não precisa de conflito. Muitas vezes ele só quer ser ouvido e validado”, aconselhou.
Ela orienta que, ao perceber mudanças intensas de comportamento, a mulher procure ajuda médica.
“Quando você perceber que esse não é o seu jeito, procure ajuda. Não ache que é normal sofrer sozinha. Muitas vezes é um cérebro desregulado pelos hormônios”, alertou.
Durante a entrevista, a ginecologista relatou um caso que marcou sua trajetória profissional. Segundo ela, uma paciente chegou ao consultório usando seis antidepressivos sem necessidade.
“Ela chegou dopada. Quando fiz os exames, percebi que estava entrando na menopausa. O problema não era psicológico, era hormonal”, contou.
Após acompanhamento médico, reorganização hormonal e incentivo a hábitos saudáveis, a paciente apresentou melhora significativa.
“Com três meses, ela já estava usando apenas uma medicação, e o médico dela começou a retirar o restante. O que ela precisava era de equilíbrio hormonal e metabólico”, disse.
Em alusão ao Dia das Mães, Dra. Márcia reforçou a necessidade de acolhimento por parte de maridos, filhos e familiares.
“A mulher nessa fase está precisando de ajuda. Não é fácil viver a menopausa. Hoje nós temos recursos para passar por esse momento de forma mais tranquila, mas ela precisa ser acolhida”, afirmou.
Ela comparou o autocuidado da mãe à orientação dada em viagens de avião.
“Primeiro você coloca a máscara em você para depois ajudar o outro. A mãe de adolescente precisa primeiro se cuidar para conseguir cuidar do filho”, comparou.
A médica reforçou que cuidar da saúde hormonal e emocional da mãe não é egoísmo, mas uma necessidade para o equilíbrio familiar.
“Se uma mãe não está bem, a casa toda entra em tensão. Cuidar de si é também cuidar emocionalmente da família”, finalizou.