Do interior para as telas: filmes feirenses ganham destaque em festival e reforçam força do audiovisual local
Após passarem pelo Panorama Internacional Coisa de Cinema, produções destacam recepção do público, desafios estruturais e o fortalecimento do cinema feito em Feira de Santana
Redação: Thaciane Mendes
domingo, 19 de abril de 2026 às 17:28
Foto: Montagem/Divulgação
Thaciane Mendes
Os filmes "Feiraguay" (Francisco Gabriel Rêgo) e "Patrícia" (Marco V. Rocha) , produzidos em Feira de Santana, ganharam visibilidade recente ao integrarem a programação da 21ª edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema, um dos principais festivais do estado. Após as exibições, os diretores destacam a recepção do público, os impactos da participação e os caminhos que se abrem para o cinema feirense.
A presença de dois filmes produzidos em Feira de Santana na programação do festival não apenas marcou um momento de visibilidade para o audiovisual local, mas também abriu espaço para reflexões mais profundas sobre identidade, circulação e os desafios de produzir cinema fora dos grandes centros.
"Feiraguay": mais que comércio, uma identidade cultural
O documentário “Feiraguay”, dirigido por Francisco Gabriel Rêgo, foi recebido de forma positiva pelo público. Segundo o cineasta, a identificação com o tema foi um dos principais fatores para a boa aceitação.
“Percebemos que o filme teve uma grande aceitação, por abordar características muito marcantes de nossa cidade, algo que muitas pessoas já conhecem. Vivemos em uma cidade marcada pela presença da feira em nosso imaginário, e o Feiraguay sintetiza muito isso.”, disse o cineasta em entrevista ao De Olho na Cidade.
Entre história e relatos de ambulantes, o filme foi produzido pela Pau Ferro Produções em parceria com o Coletivo Urgente de Audiovisual (CUAL), e vai além de apenas retratar um espaço físico, ele propõe uma leitura simbólica do entreposto comercial como extensão da própria identidade feirense. Segundo o diretor, essa construção foi percebida ainda no processo criativo.
Filme reúne depoimentos de estudiosos e comerciantes locais | Foto: Divulgação
“Falar do Feiraguay é, antes de tudo, falar de Feira de Santana. Não existe a cidade tal como conhecemos hoje sem aquele espaço. Cada vendedor carrega aspectos fundamentais da nossa tradição. Somos um pouco como cada um deles, e era isso que queríamos dizer com o documentário”, explica.
A experiência de ver o filme em contato com o público também reforçou, para o cineasta, o caráter coletivo do cinema. “Fica essa ideia de que fazer cinema é, antes de mais nada, construir coletividades, construir interações e articulações. É um pouco como uma feira: mesmo sendo indivíduos, o que dá sentido é o encontro. Se isso chegou ao público, já valeu todo o esforço”, pontua.
Agora, a proposta é ampliar ainda mais esse diálogo, especialmente dentro da própria cidade. “Vamos iniciar uma caminhada para que o filme seja visto em festivais pelo Brasil e também em Feira de Santana. É fundamental que a cidade assista ao que é produzido aqui. No fundo, fazemos cinema em Feira para isso mesmo, para ser visto aqui”, completa.
Equipe do documentário "Feiraguay" | Fotos: Divulgação
"Patrícia": o dilema entre a arte e a sobrevivência
Escrito e dirigido por Marco V. Rocha, com produção da Ticuna Filmes e Candeeiro Filmes, “Patricia” é um curta-metragem que retrata a jornada de uma mulher que busca se reconectar com o teatro, enquanto lida com as exigências do trabalho, a escassez de tempo e o acúmulo de responsabilidades do dia a dia. A narrativa evidencia como obstáculos estruturais podem afastar indivíduos do acesso e da vivência artística.
De acordo com o diretor , a recepção foi marcada por trocas intensas e reconhecimento das questões abordadas pelo filme. “A reação do Panorama foi muito calorosa, desde antes da exibição. Houve muita troca com outros realizadores e, depois, com o público, a identificação foi muito forte, principalmente entre quem trabalha com cultura. As pessoas se reconhecem nas dificuldades sociais que o filme retrata e isso gera interesse não só pela história, mas também pela forma como ela é contada”, relata.
O diretor destaca, no entanto, que a experiência também evidenciou uma certa distância entre o cinema produzido no interior e o público da capital. “Houve uma certa timidez também. A impressão que ficou é que esse cinema vindo do interior é visto com curiosidade, mas não necessariamente com familiaridade. Isso é algo interessante de se observar e entender”, avalia.
Atriz Julia Lorrana interpreta a personagem Patrícia | Foto: Divulgação
Produzido e ambientado integralmente em Feira de Santana, as ruas da Princesa do Sertão ganham destaque na narrativa. A rotina vivida por Patrícia chama atenção, não apenas pela produção do filme, mas também pelo peso que vai além da ficção. Conforme aponta Marco V. Rocha, a temática central do curta, a dificuldade de se manter próximo da arte, não é apenas narrativa, mas algo vivido pelos próprios realizadores.
“Patricia está 100% alinhado à nossa realidade enquanto produtores de cultura. É muito difícil viver da arte no Brasil, especialmente no nosso contexto. Muitas pessoas chegam após as sessões dizendo: ‘me identifiquei com essa situação’. Porque fazer arte envolve fatores que nem sempre estão sob nosso controle, e isso atravessa tanto o tema quanto a estética do filme”, explica.
A circulação em festivais, segundo ele, traz reconhecimento, mas também levanta questões estruturais importantes.
“Esses espaços são de celebração do cinema, e estar neles traz orgulho, mas também responsabilidade. A gente percebe, por exemplo, uma centralização de recursos. Isso mostra que precisamos nos posicionar mais, cobrar mais, para que o interior também tenha acesso a essas oportunidades e para que o cinema seja cada vez mais diverso dentro do próprio estado”, afirma.
O filme também foi selecionado para o festival LABRFF, em Orlando, e para a VIII Mostra Sesc de Cinema.
Equipe do filme "Patrícia" | Fotos: Divulgação
Cinema feirense em ascensão
Apesar dos desafios, os realizadores enxergam um momento de expansão para o audiovisual feirense, impulsionado tanto por políticas públicas recentes quanto pelo acesso a novas tecnologias.
Para Marco V. Rocha, há um movimento crescente de produção e experimentação. “O cinema feirense tem crescido, as pessoas estão se arriscando mais, aproveitando as oportunidades e as ferramentas disponíveis. Feira é um celeiro de artistas, atores, escritores, realizadores, mas ainda precisa se reconhecer como produtora de cultura e fortalecer essa visão coletivamente”, destaca.
Já Francisco Gabriel enfatiza a importância dos encontros proporcionados por esse movimento. “Foi através do cinema que encontrei outros realizadores da cidade. Ver um filme feirense é também se ver na tela e encontrar outros que querem fazer cinema. Precisamos continuar nos encontrando, porque é isso que sustenta a continuidade da produção”, diz.
Com a repercussão positiva no festival, os dois filmes seguem agora em novas etapas. “Feiraguay” deve ampliar sua circulação e apostar em exibições locais, enquanto a equipe de “Patricia” já articula novos projetos, incluindo produções em fase de captação e desenvolvimento.
Mais do que conquistas isoladas, o momento evidencia um processo maior de consolidação. Entre desafios estruturais e avanços concretos, o que fica evidente é que o cinema feito em Feira de Santana segue em movimento, construindo seu espaço dentro e fora da cidade, e tecendo protagonismo ás suas próprias histórias.
“Cinema é uma arte coletiva. Quando ele cresce, todo mundo cresce junto”, finaliza Marco. V Rocha.
*Por: Thaciane Mendes
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