O tarifaço anunciado por Donald Trump contra produtos brasileiros é resultado direto de uma combinação de fatores políticos e comerciais
Em edição especial do programa Jornal do Meio Dia, na Rádio Princesa FM, os economistas Amarildo Gomes e Gesner Brehmer participaram de uma roda de conversa sobre o tarifaço anunciado por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que estabelece uma taxa de 50% sobre produtos importados do Brasil, a partir de 1º de agosto. A decisão provocou reações no meio político e econômico brasileiro, sobretudo porque a carta de Trump menciona o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro como um dos fatores para o endurecimento nas relações comerciais com o Brasil.
O economista e comentarista político Amarildo Gomes criticou a tentativa do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro de usar o tema para defender interesses próprios:

“É um erro gravíssimo misturar soberania nacional com benefícios pessoais. O Brasil tem uma relação diplomática com os Estados Unidos há 200 anos e comercial há 100. Não pode ser usado como moeda de troca”, afirmou.
Ele destacou o impacto direto do tarifaço sobre setores estratégicos da economia brasileira: suco de laranja, café, carne e peças da aviação, principalmente da Embraer.
“A Embraer, por exemplo, vende 60% da sua produção para os EUA. Esse ataque afeta diretamente empresas que geram emprego e renda aqui. O governo precisa agir, como fez na pandemia, financiando e protegendo esses setores”, completou.
O economista Gesner Brehmer também criticou a medida, destacando os riscos de uma escalada protecionista liderada por Trump.

“Essa política protecionista do presidente norte-americano impacta toda a economia mundial. Os EUA representam 25% da produção global. Qualquer sanção ali gera consequências no planeta inteiro”, disse.
Ele apontou que o momento também pode representar uma oportunidade para o Brasil.
“Se houver sabedoria na diplomacia brasileira, pode-se abrir uma janela de negociações com outros parceiros, inclusive europeus, reduzindo a dependência dos EUA e da China”.
Além do impacto econômico, os analistas observaram que a situação traz implicações políticas importantes. Para Amarildo, o episódio “reverte a narrativa política”, beneficiando o presidente Lula, que vinha acuado por temas como o fim da desoneração da folha.
“Se antes a oposição ganhava força, agora é Lula quem está em vantagem, ao se posicionar como defensor da soberania nacional diante de uma ameaça externa apoiada por Bolsonaro”, disse.
Nas redes sociais, o ex-presidente Jair Bolsonaro sugeriu que a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 seria uma forma de impedir a tarifação dos EUA. Segundo ele, “nasce o perdão entre os irmãos e, com a anistia, vem a paz para a economia”.
A declaração foi criticada por Amarildo: "É um erro grotesco condicionar a economia do país ao perdão judicial de envolvidos em atos antidemocráticos. Isso compromete a credibilidade do Brasil perante o mundo”.
O presidente do Sicomércio, Marco Silva, lembrou do papel histórico da diplomacia brasileira e fez uma pergunta aos entrevistados: “Os políticos ajudam ou atrapalham neste momento de tensão com os EUA?”
Ambos os economistas responderam que, neste momento, a política tem mais atrapalhado do que ajudado. Gesner reforçou a necessidade de maturidade institucional.
“É preciso fortalecer as instituições. Sem isso, o país não avança. Os políticos precisam pensar em projetos de país e não apenas de poder”, destacou.
Os especialistas defenderam a retomada de uma diplomacia pragmática e estratégica por parte do Brasil, reforçando laços com democracias ocidentais e diversificando suas relações comerciais. O cenário, embora preocupante, pode abrir novas possibilidades se conduzido com responsabilidade e firmeza.