O desconhecimento sobre os sintomas ainda é um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce.
Durante entrevista especial da série Março Mulher no programa De Olho na Cidade (Rádio Sociedade Nes), a ginecologista e especialista em reprodução humana Dra. Simone Portugal, da Clínica Cyclo, falou sobre a endometriose, doença que afeta milhões de mulheres e que, muitas vezes, demora anos para ser identificada. Segundo a médica, o desconhecimento sobre os sintomas ainda é um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce.
De acordo com a especialista, a endometriose ocorre quando o tecido que normalmente reveste o interior do útero passa a se desenvolver em outras partes do corpo.
“A endometriose é uma doença que já é considerada pela Organização Mundial da Saúde uma doença de interesse público, porque atinge cerca de 10% das mulheres no mundo. Ela acontece quando o tecido que reveste o útero internamente passa a se desenvolver fora dele, podendo atingir o ovário, intestino, bexiga e outras regiões”, explicou.
Esse tecido responde aos hormônios femininos e pode provocar inflamação, dores intensas e até dificuldades para engravidar.
“Esse tecido sofre ação dos hormônios femininos e cria uma reação inflamatória, gerando dor, aderências e, em alguns casos, dificuldade para engravidar”, destacou.
A médica alertou que muitas mulheres acabam normalizando dores fortes durante o período menstrual, o que pode atrasar a busca por diagnóstico.
“Durante muito tempo foi normalizado sentir dor no período menstrual. Hoje sabemos que aquela cólica que tira a adolescente da escola ou a mulher do trabalho não deve ser considerada normal”, afirmou.
Segundo ela, a dor persistente e progressiva é um dos principais sinais de alerta.
“Se a paciente tem uma dor que começa na primeira menstruação e vai aumentando de intensidade, ou uma dor que não melhora com medicação, isso precisa ser investigado”, disse.
Além da cólica intensa, outros sintomas também podem estar associados à endometriose.
“Nem sempre a paciente vai ter dor. Algumas podem apresentar fadiga crônica, alterações intestinais ou urinárias. Por isso é importante ficar atenta aos sinais do corpo”, acrescentou.
Outro ponto destacado pela especialista é a demora no diagnóstico da doença, que no Brasil pode levar, em média, até oito anos após o início dos sintomas.
“Culturalmente esse problema foi muito normalizado. Muitas mulheres acham que sentir dor é normal e acabam demorando para buscar ajuda. Às vezes até procuram o médico, mas não chegam ao especialista”, explicou.
Ela também ressaltou que exames de rotina nem sempre conseguem identificar a doença.
“Uma ultrassonografia transvaginal de rotina muitas vezes não identifica a endometriose. Em alguns casos são necessários exames mais específicos, como ultrassom com preparo intestinal ou ressonância pélvica”, pontuou.
Um dos mitos mais comuns, segundo a médica, é a ideia de que mulheres com endometriose não podem engravidar.
“Isso é mito. A endometriose pode dificultar a fertilidade, mas hoje, com os avanços da medicina e da reprodução assistida, muitas mulheres conseguem engravidar, inclusive espontaneamente”, explicou.
Ela destacou que o tratamento pode variar de acordo com cada caso.
“Algumas pacientes conseguem engravidar com tratamento clínico, outras podem precisar de cirurgia ou técnicas de reprodução assistida”, afirmou.
A endometriose é considerada uma doença inflamatória, e por isso hábitos de vida também podem influenciar no controle dos sintomas.
“Alguns alimentos aumentam o estado inflamatório do organismo, como carnes vermelhas e produtos industrializados. Por isso damos preferência a carnes brancas e a uma alimentação mais saudável”, explicou.
A prática de atividades físicas também é recomendada.
“A atividade física melhora o fluxo sanguíneo e ajuda no controle da doença. O ideal é que a paciente seja acompanhada por uma equipe multidisciplinar”, ressaltou.
A especialista destacou que a cirurgia não é indicada para todos os casos.
“Nem toda endometriose precisa de cirurgia. Existem pacientes que conseguem controlar a doença apenas com tratamento clínico e mudanças no estilo de vida”, disse.
Segundo ela, a cirurgia costuma ser indicada quando há dor intensa que não melhora com medicamentos ou quando existem lesões mais profundas.
Como orientação final, a médica reforçou a importância de as mulheres observarem os sinais do próprio corpo e buscarem ajuda quando perceberem algo diferente.
“A mulher precisa se autoconhecer. Se percebe que algo não está normal, que tem dores incapacitantes ou sintomas persistentes, precisa procurar um especialista e continuar investigando”, aconselhou.
Durante a entrevista, a médica também anunciou que a Clínica Cyclos realiza anualmente no mês de maio uma campanha de atendimento gratuito para casais que enfrentam dificuldades para engravidar.
“Todos os anos, no mês de maio, atendemos cerca de 40 casais de forma gratuita. É uma forma de contribuir com a sociedade e ajudar quem muitas vezes não tem acesso ao tratamento”, informou.
A clínica fica localizada na Rua Osvaldo Cruz, nº 275, no bairro Kalilândia, em Feira de Santana. Os interessados podem entrar em contato pelo telefone (75) 3623-1616 para mais informações sobre o cadastro para a campanha.