Especialista destaca prejuízos neurológicos, aumento da ansiedade, relações superficiais e riscos à identidade pessoal causados pelo uso excessivo das redes digitais
O uso excessivo das tecnologias e a permanência constante no ambiente digital têm gerado alertas entre profissionais da saúde mental. O psicólogo Alfredo de Morais Neto chama a atenção para os efeitos da hiperconectividade não apenas em crianças e adolescentes, mas também em adultos, destacando prejuízos neurológicos, psicológicos, sociais e existenciais.
Segundo o especialista, estar sempre “online, disponível ou exposto” pode afetar diretamente o funcionamento do cérebro e a forma como as pessoas se relacionam.
“Quando a gente fala sobre hiperconectividade, é preciso ter muito cuidado. Ela afeta níveis profundos da comunicação com o outro, atrapalha o pensamento e o próprio funcionamento cerebral”, explicou.
Alfredo destaca que um dos principais impactos ocorre no chamado sistema de recompensa do cérebro, responsável pela sensação de prazer e motivação.
“Esse sistema é ativado quando você recebe um elogio, uma boa nota ou escuta um ‘eu te amo’. O problema é que os estímulos intensos e constantes das redes sociais fazem o cérebro se acostumar apenas a esse tipo de recompensa imediata”, afirmou.
Com isso, atividades simples do cotidiano passam a se tornar menos atrativas. “Esses estímulos podem prejudicar ações reais como ler, conversar, trocar ideias e manter uma interlocução de pensamento”, alertou.
Entre as consequências mais comuns da hiperconectividade, o psicólogo aponta a diminuição da atenção sustentada, dificuldade de concentração, impulsividade e uma sensação constante de tédio.
“Nas redes sociais tudo é imediato, tudo está entregue. Essa proximidade cria uma falsa tranquilidade, como se você tivesse tudo ao alcance”, avaliou.
Os reflexos também aparecem de forma significativa na saúde mental. Alfredo alerta para o aumento da ansiedade e do risco de depressão, especialmente pela comparação constante nas redes sociais.
“A gente se compara o tempo todo com influenciadores ou com pessoas que aparentemente estão tendo sucesso financeiro e pessoal, e isso gera sensação de inadequação. A pessoa começa a se perguntar: ‘Quem sou eu no mundo?’”, pontuou.
Nas relações humanas, o prejuízo se manifesta por conversas cada vez mais superficiais. “Há menos escuta real, menos presença física e uma ausência emocional. A pessoa está sempre online, mas não está no presencial”, disse.
Outro ponto levantado é a falsa ideia de multitarefa. “É como se você estivesse fazendo várias coisas ao mesmo tempo, mas, na prática, está fazendo pouquíssimas coisas, com pouco aprofundamento. Muito tempo gasto e pouca qualidade”, explicou. Esse comportamento, segundo ele, contribui para a procrastinação e reforça o ciclo de estímulos do sistema de recompensa, “funcionando de forma semelhante a qualquer outro tipo de droga”.
Alfredo também alerta para a perda da identidade pessoal. “A pessoa pode se perder, ficar confusa, na espera constante do ‘like’ ou de algo que valide quem ela é. Isso exige muita atenção e cuidado”, enfatizou.
O psicólogo reforça a importância de buscar ajuda profissional. “Se perceber esses sinais, procure um psicólogo, alguém que possa orientar e ajudar. Nós estaremos sempre aqui para oferecer informações e apoio para preservar a saúde mental”, concluiu.
*Com informações da repórter Isabel Bomfim