Um dos principais avanços destacados pela ginecologista é a implementação do teste de DNA do HPV no rastreamento do câncer de colo do útero pelo SUS
O mês de janeiro, marcado pelo movimento Janeiro Verde, voltou a chamar a atenção para a importância da prevenção do câncer de colo do útero. O tema foi amplamente debatido no quadro Mulheres em Pauta, com a ginecologista Dra. Márcia Suely, que trouxe informações atualizadas sobre o que mudou e o que ainda precisa avançar na luta contra a doença no Brasil.
Segundo a médica, o Janeiro Verde simboliza recomeço e esperança, reforçando a necessidade de informação e cuidado.
“O janeiro tem tudo a ver com recomeço, expectativa para o ano, e o verde representa esperança, inclusive de que o Brasil consiga atingir a meta da Organização Mundial da Saúde de eliminar o câncer de colo do útero”, afirmou.

Dra. Márcia ressaltou que o câncer de colo do útero é 100% prevenível, mas ainda figura entre os que mais matam mulheres no país.
“É o câncer ginecológico que mais mata mulheres no mundo. Algo está falhando, principalmente na prevenção”, alertou.
A doença é causada pelo vírus HPV, uma infecção sexualmente transmissível extremamente comum.
“Cerca de 80% das mulheres no mundo terão contato com o HPV em algum momento da vida. Isso não tem relação com promiscuidade. Qualquer pessoa sexualmente ativa pode ter”, explicou.
Ela destacou que, na maioria dos casos, o próprio organismo elimina o vírus. No entanto, alguns tipos de alto risco, como o HPV 16 e 18, podem permanecer no corpo e causar lesões que evoluem para câncer.
“Antes do câncer aparecer, existe uma lesão que pode ser diagnosticada e tratada. É aí que entra a prevenção e o diagnóstico precoce”, frisou.
Um dos principais avanços destacados pela ginecologista é a implementação do teste de DNA do HPV no rastreamento do câncer de colo do útero pelo SUS, prevista para avançar ao longo de 2026.
“Esse teste detecta o vírus até dez anos antes do surgimento da lesão. É um avanço enorme”, explicou.
Diferente do exame preventivo tradicional, que detecta a lesão já instalada, o teste de DNA identifica a presença do vírus.
“Se o teste for negativo, a mulher pode ficar até cinco anos sem precisar repetir o exame. Não há necessidade de fazer preventivo todo ano”, acrescentou.
Apesar dos avanços, Dra. Márcia apontou a baixa adesão à vacina contra o HPV como um dos maiores gargalos no Brasil.
“Ainda existe o mito de que vacinar meninas e meninos estimula o início precoce da vida sexual. Isso não é verdade. A vacina é para prevenir o câncer no futuro”, destacou.
Ela reforçou que a vacina é gratuita para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. “Nessa faixa etária, o custo é zero. Depois disso, a vacina pode custar caro na rede privada. Por isso, pais e mães precisam aproveitar esse direito”, alertou.
A médica também ressaltou a importância de vacinar meninos. “O homem é o grande transmissor do HPV. Muitas vezes não apresenta sintomas, mas transmite o vírus para as mulheres”, explicou.
Outro ponto levantado foi a resistência de muitas mulheres em realizar o exame preventivo. “Ainda existe vergonha, medo ou a falsa ideia de que, se não sente nada, não precisa fazer. O câncer de colo do útero pode ficar anos sem dar sintomas”, alertou.
Dra. Márcia também esclareceu dúvidas frequentes, como a necessidade do preventivo em mulheres que retiraram o útero.
“Se a histerectomia retirou também o colo do útero, não há necessidade de preventivo, mas se o colo foi preservado, o exame deve continuar”, explicou.
Ela reforçou que pacientes virgens não precisam realizar o preventivo, já que a doença está associada à transmissão sexual do HPV.
“Preventivo não é exame ginecológico geral. Ele tem indicação e período corretos”, pontuou.
A ginecologista deixou um recado direto às mulheres e às famílias. “Prevenção não é só um ato de saúde, é um ato de amor-próprio. Cuidar do corpo é cuidar da vida”, afirmou.
Dra. Márcia também destacou que lesões pré-cancerosas, quando identificadas precocemente, podem ser tratadas com procedimentos simples e ambulatoriais.
“Muitas mulheres ficam curadas antes mesmo de o câncer se desenvolver. Não há motivo para chegar à fase avançada da doença”, concluiu.