Lipedema é uma doença genética e estrogênio-dependente, que exige avaliação individualizada
A dúvida é comum entre mulheres que convivem com o lipedema e chegam à menopausa: afinal, é possível fazer reposição hormonal sem agravar a doença? O tema foi debatido em entrevista com a Dra. Aline Jardim, médica nutróloga, durante o quadro Saúde em Pauta
Segundo a especialista, o lipedema é uma doença crônica que afeta o tecido adiposo, diferente da gordura comum observada na obesidade.
“O tecido adiposo do lipedema não é o mesmo da obesidade. São gorduras diferentes e, por isso, o tratamento também não é o mesmo. A pessoa pode, inclusive, ter as duas condições associadas”, explicou.
De acordo com a médica, o lipedema afeta majoritariamente mulheres por ser uma doença estrogênio-dependente.
“Nós mulheres temos os mesmos hormônios que os homens, o que muda é a quantidade. O lipedema está muito relacionado ao estrogênio”, afirmou.
A doença é genética e a pessoa já nasce com a predisposição, podendo se manifestar em momentos de grande oscilação hormonal.
“Ela pode aparecer na primeira menstruação, na gestação, na perimenopausa ou até mesmo na menopausa. Não existe um único momento-chave”, destacou.
Entre os sinais de alerta estão a desproporção de gordura nos membros inferiores, pernas mais grossas, quadris volumosos e tornozelos inchados.
“Muitas mulheres nem conseguem calçar uma bota por causa do volume no tornozelo. Esses são sinais clássicos do lipedema”, explicou.
A Dra. Aline reforça que identificar a doença precocemente pode evitar sua progressão.
“O lipedema tem estágios, do zero ao quatro. No estágio zero, conseguimos tratar e a mulher praticamente não apresenta sinais da doença. Já no estágio quatro, a condição pode ser limitante, com dificuldade até para caminhar”, alertou.
Hábitos como alimentação inadequada, consumo excessivo de ultraprocessados, açúcar, bebidas alcoólicas e sedentarismo podem acelerar a progressão do quadro.
“Hoje o estilo de vida interfere muito. Alimentação ruim, estresse e sedentarismo impactam diretamente os hormônios e favorecem o agravamento da doença”, pontuou.
A especialista explicou que existe, sim, uma ligação direta entre o lipedema e as alterações hormonais da menopausa.
“Como é uma doença estrogênio-dependente, qualquer oscilação hormonal pode influenciar. Por isso, a doença pode surgir ou piorar nesse período”, disse.
Um dos principais pontos da entrevista foi a segurança da reposição hormonal em mulheres com lipedema. Apesar das dúvidas frequentes, a médica foi enfática: a reposição hormonal é indicada e, na maioria dos casos, necessária.
“Existe muito medo porque o lipedema envolve o estrogênio, mas nós não podemos esquecer que o estradiol é fundamental para a saúde da mulher”, afirmou.
Segundo a Dra. Aline, não realizar a reposição hormonal pode ser mais perigoso do que fazê-la.
“Mulheres que não fazem reposição hormonal têm até 50% mais risco de infarto. Além disso, a reposição protege o cérebro, reduzindo em mais de 60% o risco de demência e Alzheimer, e também protege os ossos em cerca de 40%”, destacou.
Ela reforça que o tratamento do lipedema não se resume ao bloqueio do estrogênio. “Nós precisamos tratar a inflamação do tecido adiposo, a microcirculação e o sistema linfático. O lipedema é multifatorial”, explicou.
Antes de iniciar a reposição hormonal, é fundamental uma avaliação individualizada.
“A reposição é muito clínica. Avaliamos sintomas como fadiga, queda da libido, dor na relação sexual, alterações do sono, além da idade e dos exames laboratoriais”, explicou.
Entre os exames solicitados estão dosagens hormonais, exames de imagem como mamografia, ultrassonografia de mama, abdômen, tireoide e transvaginal, além da avaliação do colesterol e, em alguns casos, das carótidas.
“Precisamos entender se estou protegendo essa mulher ou colocando-a em risco. Tudo é muito individualizado”, afirmou.
Para a médica, a reposição hormonal deve caminhar junto com mudanças no estilo de vida.
“Alimentação adequada, proteína em todas as refeições, atividade física diária, hidratação e sono de qualidade são essenciais”, ressaltou.
Ela destaca que não é preciso frequentar uma academia para se cuidar. “Uma caminhada diária de 30 minutos já é melhor do que não fazer nada. O melhor momento para começar é agora”, aconselhou.
A Dra. Aline finalizou reforçando que o lipedema é uma doença que exige acompanhamento médico.
“Tenho muitas pacientes em estágio zero que conseguem manter a doença controlada apenas com alimentação e exercício. Outras precisam de medicamentos, fisioterapia ou até cirurgia. O importante é buscar ajuda especializada”.