Ansiedade, comparação excessiva e uso prolongado das telas estão entre os principais desafios emocionais enfrentados pela população, segundo especialista
Durante o Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental, a psiquiatra Letícia Carvalho participou de um bate-papo no Jornal do Meio Dia e trouxe reflexões importantes sobre o impacto das redes sociais no equilíbrio emocional, especialmente em um período marcado por metas, cobranças e altas expectativas para o novo ano.
Segundo a médica, o início do ano costuma ser um momento delicado para muitas pessoas.
“Janeiro é um período em que as pessoas vêm cheias de metas e expectativas. Mas se você não cuida da sua saúde mental, não consegue desenvolver as outras áreas da vida, como saúde física, relacionamentos e carreira”, destacou.
A psiquiatra explicou que o uso excessivo das redes sociais tem contribuído de forma significativa para o aumento da ansiedade. Para ela, o problema não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada.
“O tempo excessivo de tela, principalmente com conteúdos que estimulam comparação, tende a aumentar a ansiedade e o sentimento de inadequação”, afirmou Letícia. Ela ressaltou ainda que, em períodos de férias ou afastamento do trabalho, como acontece em janeiro, as pessoas tendem a hiperfocar em problemas e inseguranças.
Outro ponto levantado foi a chamada FOMO - fear of missing out (medo de ficar de fora).
“Existe uma demanda muito grande por estar sempre conectado. As redes sociais são arquitetadas para capturar a atenção das pessoas. O algoritmo entrega exatamente aquilo que você consome”, explicou.
Apesar dos riscos, Letícia destacou que é possível usar as redes sociais de forma positiva. “A partir de seis horas diárias de uso, já consideramos um consumo problemático. O ideal é até duas horas”, alertou.
Ela orienta que as pessoas avaliem não apenas o tempo, mas também a qualidade do conteúdo consumido.
“Depois de usar o celular, você se sente bem, motivado ou se sente inferior, desvalorizado? Essa reflexão é fundamental”, disse.
Entre os principais sinais de que as redes sociais estão afetando a saúde mental, a psiquiatra citou alterações no sono, irritabilidade, aumento da preocupação e dificuldades de concentração.
“Se a pessoa acorda e a primeira coisa que faz é pegar o celular, isso já é um sinal de alerta”, pontuou. Além disso, problemas físicos como dores posturais e cansaço visual também são comuns.
Letícia reforçou a importância de desmistificar o atendimento psiquiátrico, ainda cercado de estigmas.
“Ir ao psiquiatra não significa, necessariamente, tomar medicação. O tratamento envolve mudanças no estilo de vida e acompanhamento contínuo”, explicou.
Ela destacou que ansiedade, depressão, burnout e TDAH estão entre as condições emocionais mais recorrentes atualmente. “O Brasil é hoje o país mais ansioso do mundo”, afirmou.
Outro tema abordado foi a dificuldade da sociedade em lidar com as próprias emoções. Para a psiquiatra, a falta de educação emocional impacta diretamente a saúde mental.
“Não fomos ensinados a reconhecer o que sentimos. Muitas pessoas sabem dizer o que pensam, mas não o que estão sentindo”, observou. Ela defendeu que todas as emoções devem ser validadas. “Raiva, tristeza e medo também têm uma função. O que importa é o que fazemos com aquilo que sentimos”.
Letícia também falou sobre o papel do perdão no equilíbrio emocional. “Perdoar é doar o ressentimento. Quando você perdoa, se livra do peso emocional”, disse, ressaltando a importância do autoperdão, especialmente para pessoas muito exigentes consigo mesmas.
A psiquiatra destacou a importância de buscar ajuda profissional, seja presencialmente ou por telemedicina, e citou serviços de apoio como o Centro de Valorização da Vida (CVV).
“Se você tem dúvida se deve ir ao psiquiatra, a resposta é: vá. Essa avaliação inicial pode mudar completamente sua qualidade de vida”, aconselhou.