Psicóloga Olívia Magalhães e coordenadora pedagógica Roberta Bittencourt destacam impactos da sobrecarga, da cobrança por resultados e das demandas familiares sobre professores
A saúde mental dos profissionais da educação foi o tema do quadro Saúde Mental em Pauta, apresentado pela psicóloga Olívia Magalhães. Nesta edição, a convidada foi a coordenadora pedagógica Roberta Bittencourt, que discutiu os desafios enfrentados diariamente por professores e demais profissionais que atuam no ambiente escolar.
A conversa chamou atenção para uma questão que, segundo as entrevistadas, muitas vezes fica em segundo plano: quem cuida de quem está diariamente cuidando e formando crianças e adolescentes?
Para Olívia Magalhães, o cenário atual exige uma reflexão sobre as condições emocionais dos educadores, especialmente diante de situações de sofrimento psíquico, desgaste físico e conflitos cada vez mais presentes no ambiente escolar.
“Nós sabemos que os educadores têm sofrido muito com relação a isso. Essa temática é justamente para trazer essa reflexão e para que haja uma mudança de mentalidade.”

Roberta Bittencourt destacou que a pandemia provocou mudanças significativas no comportamento de famílias, alunos e professores. Para ela, é possível perceber uma divisão entre a escola de antes e a escola que surgiu após o período de isolamento social.
“É como se a gente tivesse dois momentos: a escola antes da pandemia e a escola pós-pandemia.”
Segundo a coordenadora, os profissionais passaram a lidar com novos comportamentos e necessidades emocionais, o que exige das instituições uma atenção maior à saúde mental de todos os envolvidos no processo educacional.
Ela explica que os desafios não estão restritos aos estudantes. Os professores também enfrentam dificuldades para administrar as próprias emoções diante de uma rotina cada vez mais complexa.
Um dos principais pontos levantados por Roberta foi a sobrecarga de trabalho. De acordo com ela, o expediente do professor não termina quando ele deixa a escola.
Além de preparar aulas, corrigir atividades e organizar o planejamento pedagógico, muitos profissionais precisam pesquisar e buscar estratégias para atender demandas específicas de determinados alunos.
“Hoje o professor tem que, além de todo esse planejamento e de toda essa estrutura pedagógica do dia a dia, buscar leitura para atender às necessidades da escola, da família e do aluno em sala de aula.”
A coordenadora ressaltou ainda que o planejamento de uma aula pode precisar ser constantemente adaptado de acordo com as situações vivenciadas no cotidiano escolar.
Outro desafio apontado durante a entrevista é a ampliação das responsabilidades atribuídas ao professor. Roberta afirmou que, atualmente, o educador precisa compreender aspectos relacionados à psicologia, comportamento e até mesmo questões ligadas à saúde dos estudantes.
“Hoje o professor precisa ter uma leitura mínima na psicologia e até na pediatria.”
Ela citou como exemplo situações em que medicamentos utilizados por crianças podem provocar alterações comportamentais. Segundo a coordenadora, o professor precisa compreender essas mudanças para conseguir lidar adequadamente com o aluno em sala de aula.
Para Roberta, essa ampliação de responsabilidades faz com que o trabalho pedagógico ocupe uma parcela cada vez menor da rotina do profissional.
A entrevista também abordou a relação entre família e escola. Segundo Roberta, algumas questões que deveriam ser trabalhadas no ambiente familiar acabam sendo transferidas para a instituição de ensino.
Ela citou situações relacionadas a limites, rotina e comportamento das crianças, que acabam chegando à escola como demandas a serem resolvidas pelos professores.
“A escola está correndo atrás do seu cliente para preencher as lacunas que talvez a minha vida, a minha infância, deixou.”
Na avaliação da coordenadora, a escola pode contribuir para o desenvolvimento da criança, mas não deve assumir responsabilidades que pertencem à família.
Nesse contexto, Olívia destacou a importância da orientação parental, que pode ajudar os responsáveis a compreender melhor os próprios comportamentos e as necessidades dos filhos.
A busca constante por resultados e a competitividade dentro do ambiente escolar também foram apontadas como fatores de desgaste.
Roberta avaliou que a pressão para que alunos e professores estejam sempre entre os melhores pode provocar relações fragilizadas e aumentar a sobrecarga emocional.
“Essa concorrência, essa necessidade de ser o melhor sobrecarrega o aluno, sobrecarrega o professor e desencadeia comportamentos e relações desgastadas.”
Para ela, o cenário é ainda mais delicado quando se considera que a educação infantil representa a base da formação das crianças.
Entre as estratégias para melhorar o ambiente escolar, Roberta destacou uma palavra que considera fundamental: respeito.
Segundo ela, o princípio deve estar presente na relação entre professores, alunos, famílias, gestores e demais profissionais.
“Existe uma palavrinha hoje que, para mim, precisa ser o alicerce: respeito.”
A coordenadora defendeu que conflitos sejam tratados com diálogo e consideração pelo contexto de cada situação, evitando julgamentos precipitados contra os profissionais da educação.
Ela também chamou atenção para episódios de indisciplina e desrespeito contra professores, ressaltando a importância do apoio das famílias e da comunidade escolar.
Roberta também defendeu uma atuação mais integrada dentro das escolas. Para ela, a responsabilidade pelo bem-estar dos educadores não pode ficar apenas sobre os ombros do próprio professor.
“A direção precisa apoiar o professor. Não dá para a gente estar atendendo e só dizer: o professor vai fazer, o professor errou, o professor não fez.”
Segundo ela, gestores, equipes administrativas e demais profissionais precisam compreender as necessidades do trabalho pedagógico e participar da construção de um ambiente mais saudável.
A coordenadora também reforçou que o educador não deve permitir que o trabalho ocupe todos os espaços da vida.
“O trabalho não é a nossa vida. A gente trabalha para viver ou vive para trabalhar? Essa é uma reflexão que precisamos fazer o tempo inteiro.”
Roberta deixou uma mensagem aos profissionais que enfrentam cansaço, ansiedade e desânimo diante das demandas da profissão.
Para ela, além da formação profissional, o educador precisa investir no próprio autoconhecimento e aprender a reconhecer e trabalhar as próprias emoções.
“Nós, professores e educadores, precisamos buscar o nosso autoconhecimento. Quando a gente tem a oportunidade de se conhecer, de trabalhar nas nossas emoções, de investir nesse outro lado nosso, a nossa função se torna um pouquinho mais leve.”
Ela também defendeu que os profissionais não enfrentem as dificuldades sozinhos e procurem apoio dentro da própria equipe.
“Se você está se sentindo sozinho, chegue no seu ambiente de trabalho, abrace alguém que você confia.”
A coordenadora ainda destacou a importância de gestores estarem próximos dos professores, criando momentos de escuta, acolhimento e convivência.
Olívia reforçou que a atenção à saúde mental não deve estar concentrada apenas nos alunos. Professores, coordenadores, gestores, auxiliares e estagiários também precisam ser acolhidos.
“A gente não tem como acolher só o aluno. A gente precisa acolher a saúde mental de todos os inseridos no contexto da educação.”
A psicóloga alertou ainda que sintomas persistentes de ansiedade, desânimo e sofrimento emocional não devem ser ignorados. Segundo ela, buscar ajuda profissional é importante quando essas dificuldades começam a comprometer a rotina e o bem-estar.