Geofísico explica por que o Brasil também registra tremores, mas destaca que grandes abalos são menos frequentes no país
Os recentes terremotos registrados em países como Colômbia e Venezuela voltaram a levantar uma preocupação entre os brasileiros: afinal, o Brasil também pode sofrer terremotos de grande magnitude?
Para esclarecer o assunto, o programa De Olho na Cidade, da Rádio Sociedade News, ouviu o geofísico Eduardo Menezes, do Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Segundo ele, terremotos são provocados principalmente pelo movimento de placas tectônicas e falhas geológicas no interior da Terra.
“Eles são provocados pelos movimentos das famosas placas ou falhas geológicas que, devido às pressões que sofrem no interior da Terra, quando se mexem, com atrito entre uma e outra, geram realmente esse movimento que a gente sente aqui em cima”, explicou.
O especialista destacou que a intensidade dos terremotos está relacionada à quantidade de energia liberada. Quanto maior a magnitude, maior tende a ser o potencial de impacto, especialmente quando o tremor ocorre em áreas mais próximas da superfície.
“Quanto maior esse valor, maior vai ser a energia liberada pelo atrito. Tremores acima de seis e meio, sete já são considerados de grande proporção”, afirmou Eduardo.
Nesta segunda-feira (10), um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia. O epicentro foi localizado nas proximidades de San José del Palmar, no departamento de Chocó, a cerca de 110 quilômetros de profundidade.
O tremor provocou mortes, feridos e desabamentos, além de ser sentido em outros países da região. No Brasil, moradores de Manaus também relataram ter percebido os efeitos do abalo.
De acordo com Eduardo Menezes, entretanto, o fato de o tremor ter sido sentido em território brasileiro não significa que exista risco de destruição no país em decorrência desse evento.
“Em relação a esses eventos, não. Eles estão bastante distantes. O que se sente aqui no Brasil é um reflexo dessa onda de superfície que se propaga ao longo da crosta”, explicou.
Segundo o geofísico, a percepção do tremor em locais distantes do epicentro é possível justamente pela propagação dessas ondas pela crosta terrestre.
Apesar de o Brasil não ser conhecido por grandes terremotos como os registrados em países localizados em áreas de maior atividade tectônica, o especialista alerta que o país não está livre de tremores.
“Nós temos terremotos. O que temos no dado histórico, inclusive, são eventos da ordem de cinco. Aqui no Nordeste, nós temos já em vários estados, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco. O Recôncavo Baiano também tem um histórico de tremores nessa ordem de grandeza”, destacou.
A diferença, segundo ele, está principalmente na frequência e na magnitude dos eventos. Regiões como Japão, Peru, Bolívia, Venezuela e outras áreas da América do Sul possuem histórico de terremotos mais intensos e recorrentes, o que também contribuiu para o desenvolvimento de uma cultura de prevenção.
No Brasil, por outro lado, tremores de grande magnitude são muito menos comuns. Ainda assim, a possibilidade de ocorrência de um abalo não pode ser descartada.
“A probabilidade sempre existe. Só não tem como prever, mas a gente pode, sim, a qualquer hora, ser surpreendido por um tremor”, alertou.
Uma das principais dúvidas da população diante dos recentes terremotos é se os cientistas conseguem prever quando e onde um grande abalo vai ocorrer.
De acordo com Eduardo, a ciência ainda não consegue fazer uma previsão precisa de terremotos, indicando antecipadamente o horário, o local e a magnitude de um evento.
Países que convivem historicamente com terremotos, como o Japão, possuem estruturas de monitoramento e protocolos de segurança mais desenvolvidos justamente por reconhecerem a possibilidade de novos abalos.
“Eles têm uma cultura e uma preparação por saberem que moram em regiões sujeitas a esse tipo de fenômeno em grandes proporções”, explicou.
Para o geofísico, uma das principais formas de reduzir os impactos de um terremoto é investir em monitoramento, educação e conscientização da população.
O Laboratório Sismológico da UFRN mantém estações de monitoramento na região Nordeste e também realiza ações educativas, incluindo palestras em escolas.
“O que a gente tem feito são palestras em escolas, para a sociedade, conscientizando que a probabilidade sempre vai existir de ocorrência de um tremor”, afirmou.
Eduardo também reforçou que a população brasileira precisa abandonar a ideia de que terremotos não acontecem no país.
“As pessoas têm que ter essa consciência de que no Brasil também existem terremotos. Esse é, às vezes, o grande paradigma: dizer que no Brasil não tem terremoto. Tem, só que não tem, graças a Deus, nessa proporção”, concluiu.
O terremoto registrado na Colômbia ocorre poucas semanas depois de fortes abalos que atingiram a Venezuela. Em 24 de junho, dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o país, provocando milhares de mortes e deixando dezenas de milhares de pessoas necessitando de atendimento.
Segundo balanço divulgado pelo governo venezuelano nesta segunda-feira (10), o número de mortos chegou a 6.301, enquanto mais de 73 mil pessoas precisaram de atendimento hospitalar. Ainda de acordo com as autoridades, 190 edifícios desabaram completamente e quase mil construções sofreram danos estruturais.
Apesar da proximidade geográfica e do curto intervalo entre os terremotos registrados na região, especialistas afirmam que os eventos não têm relação direta entre si e não há evidência de que exista um fenômeno intensificando a ocorrência de terremotos na América Latina.