O encontro pode ser considerado positivo, mesmo sendo apenas inicial.
O encontro realizado ontem (26) entre o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Malásia, tem repercutido amplamente na mídia nacional e internacional. Para discutir os impactos e as perspectivas desse encontro, o De Olho na Cidade conversou com o professor de Relações Internacionais e Economia do Ibmec São Paulo, Alexandre Pires, doutor em Ciências pela USP e mestre pela Unicamp.
Segundo o especialista, o encontro pode ser considerado positivo, mesmo sendo apenas inicial. “Foi um encontro que nós chamamos de inicial. Eles puderam se conhecer, estabelecer mecanismos bilaterais e definir quem vai negociar e quem autoriza. Esse é um ponto positivo”, afirmou.

O professor destacou que a reunião abre caminho para negociações comerciais entre os dois países.
“No Brasil, já existem tarifas que chegam a 50% sobre diversos produtos. O início de uma negociação para chegar a um acordo comercial, que reduzisse essas tarifas para cerca de 10%, é algo sempre a se comemorar. Esperamos que isso seja alcançado em algum momento”, disse.
Quando questionado sobre a mudança de tom do presidente americano em relação ao Brasil, Alexandre explicou que a política externa dos Estados Unidos tem seguido uma sequência estratégica.
“Há uma série de acordos que eram prioritários para os Estados Unidos, com parceiros importantes como Japão, Coreia do Sul e países do Sudeste Asiático. O Brasil, nesse momento, ainda não está completamente inserido nessas negociações, mas é um parceiro econômico e político importante para os Estados Unidos no hemisfério ocidental, inclusive como contrapeso à influência chinesa”, analisou.
Sobre o que será essencial para fechar um possível acordo comercial, o especialista detalhou os desafios.
“Os acordos existentes com outros países incluem aceitar tarifas americanas e eliminar quase totalmente barreiras não tarifárias, como cotas, regulações e padrões. O Brasil terá dificuldades de aceitar esses termos, especialmente porque compete com os Estados Unidos em alguns mercados importantes”, explicou.
Alexandre também comentou sobre a investigação em curso na representação comercial americana, conhecida como Seção 301, que pode influenciar as negociações.
“A investigação abrange questões como licitações públicas, decisões do STF e políticas ligadas ao ex-presidente Bolsonaro. O Brasil precisará negociar esses pontos, e isso exigirá muito esforço e cautela”, afirmou.
Ele ressaltou ainda que o país possui poder de barganha em setores estratégicos, como minerais críticos, mas que o acesso total ao mercado americano será uma negociação difícil.
“O Brasil protege há décadas esses mercados. Não será fácil para nenhum dos lados conseguir tudo o que deseja, mas acredito que, em algum momento, um acordo pode ser alcançado”, concluiu.
O professor Alexandre encerrou sua análise destacando o impacto do encontro: “O encontro de Trump e Lula foi relevante e abriu perspectivas, mas as negociações serão complexas e demandarão tempo. Os empresários brasileiros precisarão acompanhar de perto os desdobramentos”.