Psicóloga alerta para efeitos da comparação, baixa autoestima e defende controle parental e uso apenas após os 16 anos
O uso intensivo de redes sociais está diretamente ligado à queda no bem-estar entre jovens em todo o mundo. É o que revela o Relatório Mundial da Felicidade de 2026, divulgado em março, com base em um amplo levantamento internacional que ouviu adolescentes de 15 anos em 50 países.
De acordo com o estudo, jovens que utilizam redes sociais por menos de uma hora diária apresentam níveis mais elevados de satisfação com a vida, inclusive superiores aos que não utilizam essas plataformas. No entanto, a média global de uso entre adolescentes chega a 2,5 horas por dia, o que acende um alerta para especialistas.
A psicóloga clínica e neuropsicóloga Morgana Velozo explica que os impactos negativos estão diretamente ligados à fase de desenvolvimento dos adolescentes, marcada pela busca por pertencimento e aceitação social.
“Adolescentes estão numa fase onde o pertencimento é muito crucial. Então, parecer-se com os pares é um caractere de inclusão quase básico”, destaca.
Segundo a especialista, a comparação constante nas redes sociais é um dos principais fatores que afetam o humor e a autoestima dos jovens.
“Essa comparação não faz recortes de contexto social, econômico ou ambiental. Isso pode gerar sensação de inferioridade, de não pertencimento e uma autoimagem rebaixada”, afirma.
O relatório também aponta que o impacto negativo é mais significativo entre meninas. Quanto maior o tempo de uso das redes, menor o nível de satisfação com a vida. Estudos anteriores já indicavam que plataformas como o Instagram podem agravar questões relacionadas à imagem corporal, ansiedade e depressão.
Apesar disso, o estudo destaca que, na América Latina, incluindo o Brasil, as redes sociais também desempenham papel positivo na sociabilidade e na interação entre jovens. Ainda assim, o equilíbrio no uso é considerado essencial.
Outro ponto de preocupação levantado por Morgana Velozo é o acesso a conteúdos nocivos e sem filtragem adequada, que podem influenciar diretamente na formação do comportamento e da identidade dos jovens.
“A gente vê movimentos que difundem violência e misoginia ganhando espaço nas redes. Isso começa a formar caráter, a intervir no desenvolvimento e até a mudar a cultura”, alerta.
Diante desse cenário, países ao redor do mundo têm discutido medidas mais rígidas. A Austrália, por exemplo, elevou a idade mínima para uso de redes sociais de 13 para 16 anos. Espanha e França também estudam restrições semelhantes.
No Brasil, entrou em vigor recentemente o chamado Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, voltado à proteção do público infantojuvenil no ambiente online.
Para a psicóloga, a atenção dos pais é fundamental nesse processo.
“Eu reforço sempre sobre o controle parental e a recomendação de redes sociais apenas a partir dos 16 anos, para preservar o desenvolvimento mental e físico dos jovens”, pontua.
O relatório ainda mostra que o Brasil ocupa a 32ª posição no ranking global de felicidade, à frente de países como França, Itália e Portugal. Já a Finlândia lidera a lista pelo nono ano consecutivo, seguida por outras nações nórdicas.
*Com informações da repórter Isabel Bomfim