09/06/2026
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5 min de leitura

Violência psicológica fragiliza autoestima e pode causar danos graves à saúde mental das mulheres

Psicóloga explica como manipulação, críticas constantes e chantagens emocionais podem fragilizar a autoestima

Redação:
quarta-feira, 11 de março de 2026 às 19:43
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Dando continuidade à série especial sobre o enfrentamento da violência contra a mulher, a terceira reportagem desta semana aborda um tipo de agressão muitas vezes silenciosa, mas extremamente prejudicial: a violência psicológica.

A gravidade da violência psicológica no Brasil também aparece em dados recentes da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto DataSenado, que entrevistou mais de 21 mil brasileiras.

O levantamento aponta que 88% das mulheres relataram já ter vivido violência psicológica em algum momento da vida. A pesquisa também mostra que cerca de 70% das vítimas procuram ajuda primeiro na família, enquanto apenas três em cada dez buscam uma delegacia, geralmente quando a situação já se tornou insustentável.

Outro dado preocupante revela que 71% das agressões são testemunhadas por outras pessoas, muitas vezes pelos próprios filhos da vítima.

A psicóloga Morgana Velozo, formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especialista em Neuropsicologia pela UNIFACS, explica como esse tipo de violência se manifesta e quais impactos pode provocar na saúde mental das vítimas.

Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a especialista, a violência psicológica geralmente começa de forma sutil, por meio de comportamentos que muitas vezes são naturalizados dentro de relacionamentos.

“Temos comportamentos como chantagem, intimidação, invalidação sistemática e críticas constantes. Também aparecem gritos frequentes, comparações desqualificadoras e a chamada triangulação, que é quando se usa outra pessoa como comparação para diminuir a mulher”, explicou.

De acordo com Morgana, práticas de controle e manipulação emocional também são comuns nesses casos.

“Temos controle da imagem, provocações e processos de moralização. Todas essas condutas são perniciosas e devem servir como um alerta”, afirmou.

A psicóloga destaca que, na maioria dos casos, a violência psicológica surge antes de qualquer agressão física.

“A violência contra a mulher geralmente começa de modo sutil e chega antes da violência física. Por isso é muito importante identificar essas condutas logo no início para que a mulher possa se proteger”, alertou.

Ela explica que a violência psicológica pode ser definida como qualquer comportamento que cause dano emocional ou prejudique o desenvolvimento pessoal da mulher.

“A violência psicológica é toda conduta que cause dano emocional, que prejudique a autoestima ou interfira no desenvolvimento afetivo, moral e pessoal da mulher. Também envolve comportamentos que tentam controlar ou degradar suas ações”, pontuou.

Entre as estratégias de abuso emocional mais comuns está o chamado gaslighting, prática em que o agressor manipula situações para fazer a vítima duvidar da própria percepção da realidade.

“Essa prática faz com que a mulher passe a duvidar da própria memória, da própria atenção e da forma como percebe os acontecimentos. Isso afeta diretamente a autoestima”, explicou.

Segundo a especialista, a autoestima é sustentada por três pilares principais: autoconceito, autoeficácia e autoimagem.

“Quando há ataques diretos ou indiretos a esses três pilares, a autoestima fica fragilizada e essa mulher se torna muito mais vulnerável”, destacou.

A violência psicológica também pode provocar diversos impactos emocionais e psicológicos, como ansiedade, depressão e estresse constante.

“Muitas vezes a mulher passa a duvidar de si mesma e vive sentimentos contraditórios. Em um momento sente medo, em outro sente amor ou carinho. Isso gera uma confusão emocional e cria um estado constante de vigilância”, explicou.

Esse processo também pode gerar dependência emocional e perda de autonomia.

“A mulher começa a perder o senso de segurança, fica fragilizada e passa a reagir apenas ao ambiente ao seu redor, muitas vezes condicionada pelo medo, pela ansiedade ou pela dependência emocional”, afirmou.

Morgana Velozo informa que os impactos da violência psicológica não são apenas emocionais, mas também biológicos.

“Estamos falando de impactos reais no funcionamento do cérebro, com alterações hormonais e no padrão neuronal. Não é apenas um sofrimento abstrato, é um problema sério de saúde”, enfatizou.

Outro aspecto comum em relações abusivas é o isolamento da vítima, estratégia que aumenta a vulnerabilidade da mulher.

“Um dos mecanismos da violência contra a mulher é o isolamento. Quando ela perde a rede de apoio, fica muito mais vulnerável ao agressor”, explicou.

Por isso, a psicóloga reforça a importância de buscar apoio e manter vínculos com familiares, amigos e instituições.

“É fundamental acionar a rede de apoio, buscar conscientização e suporte da sociedade. Isso pode acontecer através da família, da comunidade e de instituições de proteção à mulher”, destacou.

O principal canal nacional de apoio e denúncia é o Ligue 180, que oferece orientação e acolhimento às vítimas. Em duas décadas de funcionamento, a central já realizou mais de 16 milhões de atendimentos. Somente nos dez primeiros meses de 2025, o número de ligações aumentou 33% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Para Morgana Velozo, ampliar a conscientização é fundamental para quebrar o ciclo da violência.

“É muito importante que a gente desenvolva práticas de prevenção, que conscientize as pessoas e que esteja atento ao que acontece ao nosso redor. Precisamos aprender a reconhecer esses sofrimentos e também ser rede de apoio para quem está perto de nós”, concluiu.

*Com informações da repórter Isabel Bomfim

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