Autoridades discutiram ações para frear acidentes de moto em Feira de Santana
O aumento da violência no trânsito e os impactos diretos na rede pública de saúde voltaram ao centro do debate em Feira de Santana durante uma coletiva realizada nesta segunda-feira (25), no auditório do Hospital Geral Clériston Andrade. O encontro reuniu representantes do Ministério Público, Polícia Militar, Superintendência Municipal de Trânsito (SMT), autoridades políticas e profissionais da saúde para discutir medidas de enfrentamento aos acidentes, principalmente envolvendo motociclistas.

Apesar de uma leve redução nos índices, o cenário ainda preocupa. Segundo a diretora do hospital, Cristiana França, os acidentes de moto continuam sendo responsáveis pela maior parte das internações na unidade.
“Os três primeiros meses de 2026 já mostram uma redução pequena, muito discreta, mas é um bom momento para dizer que já está diminuindo”, afirmou.
Ela destacou que, em 2025, os acidentes motociclísticos representavam 79% dos atendimentos relacionados ao trânsito no hospital. Nos primeiros meses deste ano, o percentual caiu para 78%.

De acordo com Cristiana, os casos mais frequentes atendidos no HGCA envolvem fraturas graves, principalmente nos membros inferiores.

“As fraturas de membros inferiores são muito mais frequentes. Mas também chegam muitos casos envolvendo cabeça e face, principalmente pela falta do uso do capacete”, explicou.
A diretora alertou ainda para o aumento de lesões complexas e sequelas permanentes causadas por acidentes.
“Quanto mais próxima da cabeça é a lesão, mais grave ela se torna. O paciente pode sofrer fratura de crânio, lesão cervical e perder os movimentos do pescoço para baixo”, destacou.
Além do impacto humano, os acidentes também geram altos custos ao sistema público de saúde. Segundo ela, um paciente internado na UTI pode custar cerca de R$ 5 mil por dia ao hospital.
“Quando o paciente não precisa de UTI, mas necessita de cirurgia e enfermaria, o custo cai para cerca de R$ 2.500 por dia”, informou.
O promotor Audo Rodrigues afirmou que o Ministério Público vem cobrando planos de atuação dos órgãos responsáveis e pretende ampliar as medidas de fiscalização.

“A população precisa entender que passamos de um momento apenas educativo para uma fase mais repressiva, porque os gastos da saúde pública não se justificam diante da quantidade de infrações cometidas”, declarou.
Segundo o promotor, o trecho do Anel de Contorno entre o Portal do Sertão e o bairro Cidade Nova é atualmente um dos pontos mais críticos de acidentes em Feira de Santana.
“É justamente o trecho que ainda não foi duplicado. Nos locais já duplicados houve redução de cerca de 90% nos acidentes”, disse.
Dr. Audo também destacou a preocupação com municípios vizinhos, que registraram aumento de 28% nos acidentes encaminhados ao Clériston Andrade.
“Muitos motociclistas circulam sem capacete, principalmente em cidades menores. Esses acidentes acabam desembocando em Feira de Santana”, afirmou.
O superintendente municipal de trânsito, Ricardo Cunha, informou que novas ações de fiscalização serão realizadas nos distritos da cidade, em parceria com a Polícia Militar.

“O objetivo não é arrecadar com multas. O que queremos é conscientizar para o uso do capacete e preservar vidas”, afirmou.
Segundo ele, a SMT também pretende integrar os dados dos postos de saúde e unidades de atendimento para criar um “mapa de calor” dos acidentes na cidade.
“Com essas informações, vamos conseguir identificar os locais com maior número de sinistros e agir de forma mais precisa”, explicou.
Ricardo também reconheceu problemas de infraestrutura e falhas de comunicação envolvendo obras em vias públicas.
“A SMT precisa ser informada previamente para orientar a sinalização correta. Hoje essa comunicação ainda é muito falha”, pontuou.
Outro ponto debatido durante a coletiva foi a situação dos motociclistas que trabalham com aplicativos e entregas. Cristiana afirmou que o hospital e os órgãos públicos pretendem abrir diálogo com empresas do setor.
“Essa categoria é muito demandada e também está entre as mais envolvidas nos acidentes. Precisamos discutir juntos alternativas para reduzir esses números”, disse.

O deputado federal Zé Neto chamou atenção para a pressão sofrida pelos entregadores.
“Há empresas exigindo prazos incompatíveis com a realidade do trânsito, o que leva muitos trabalhadores a correrem riscos para cumprir entregas”, afirmou.
Ele informou que pretende discutir medidas legislativas sobre o tema.
O comandante do CPR-L, coronel Michel Muller, afirmou que o comportamento dos condutores continua sendo uma das principais causas da violência no trânsito.

“O cidadão precisa colaborar para que o trânsito funcione de forma segura. Temos observado excesso de velocidade, manobras perigosas e imprudência principalmente entre motociclistas”, declarou.
Segundo ele, Feira de Santana conta atualmente com cerca de 1.800 policiais militares atuando na região, e o trânsito passará a receber atenção ainda maior das forças de segurança.
“O trânsito não é a atividade principal da Polícia Militar, mas diante da realidade enfrentada pela saúde pública, precisamos intensificar as ações”, disse.
O deputado Zé Neto também relacionou o crescimento do número de motocicletas à precariedade do transporte coletivo em Feira de Santana.

“Feira tem um dos piores transportes públicos do Brasil. Muitas pessoas recorrem à moto porque não conseguem depender do sistema coletivo”, criticou.
Ele defendeu campanhas educativas permanentes nas escolas e junto à população para tentar reduzir os índices de acidentes.
“Não existe hospital que suporte essa demanda. Precisamos enfrentar essa situação de forma organizada e coletiva”, concluiu.
*Com informações do repórter JP Miranda