Especialista explica impactos das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, aponta setores mais vulneráveis e afirma que medida vai além de uma disputa comercial
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros podem provocar impactos significativos na economia nacional, com reflexos na produção, nos investimentos e no mercado de trabalho. A avaliação é do economista Francisco Queiroz, que analisou o tarifaço anunciado pelo governo do presidente Donald Trump e explicou que a medida ultrapassa o campo comercial, estando ligada também a interesses geopolíticos e estratégicos dos norte-americanos.
Segundo o economista, a tarifa funciona como um imposto cobrado sobre produtos importados. Com a elevação dessa cobrança, os produtos brasileiros chegam ao mercado americano mais caros, reduzindo sua competitividade.
"Quando os americanos elevam esse imposto, o produto brasileiro chega mais caro ao consumidor americano. O resultado é que as empresas brasileiras perdem competitividade, há redução das exportações, menor produção, risco de queda nos investimentos e também de desemprego", explicou.
Francisco destacou a importância do mercado norte-americano para o Brasil. Atualmente, os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações brasileiras, recebendo cerca de US$ 40 bilhões por ano, o equivalente a aproximadamente 12% de tudo o que o país exporta.
"O impacto pode atingir milhares de empregos diretos e indiretos que dependem dessa relação comercial", ressaltou.
De acordo com o economista, os setores mais prejudicados tendem a ser aqueles que possuem maior valor agregado, como siderurgia, máquinas e equipamentos, móveis, vestuário, etanol e parte da indústria de transformação.
Por outro lado, produtos considerados estratégicos para a economia americana ficaram de fora das tarifas mais severas.
"Café, carne bovina, suco de laranja, aeronaves e determinados minerais críticos permaneceram isentos. Isso representa cerca de 75% a 80% de tudo o que o Brasil exporta para os Estados Unidos."
Na avaliação dele, essa diferença revela uma postura tradicional da política comercial norte-americana.
"Os Estados Unidos defendem o livre comércio quando ele fortalece suas empresas. Mas, quando seus interesses econômicos ou geopolíticos são ameaçados, recorrem ao protecionismo."
Francisco também esclareceu a diferença entre as duas alíquotas anunciadas pelo governo americano, que geraram dúvidas no mercado.
Segundo ele, a tarifa de 10% integra uma política comercial mais ampla aplicada a diversos parceiros comerciais dos Estados Unidos, enquanto a tarifa de 25% foi direcionada especificamente para determinados produtos brasileiros.
"A tarifa de 25% torna muito mais difícil a entrada desses produtos no mercado americano."
Para o economista, o tarifaço não deve ser interpretado apenas como uma medida econômica. Ele acredita que existem fatores estratégicos que ajudam a explicar a decisão do governo americano.
Entre eles, Francisco cita a preocupação dos Estados Unidos com o avanço do Pix, que reduziu custos financeiros e diminuiu a dependência de grandes empresas do setor de pagamentos; o interesse nas reservas brasileiras de minerais estratégicos, conhecidos como "terras raras"; a política de nacionalismo econômico adotada por Donald Trump; e o fortalecimento das discussões sobre a redução da dependência do dólar nas transações internacionais.
"Brasil, China e os países do BRICS vêm dando sinais de que pretendem ampliar as negociações utilizando moedas locais. Isso representa uma ameaça ao poder econômico dos Estados Unidos."
O especialista afirmou que o episódio reforça a necessidade de o Brasil ampliar sua capacidade de enfrentar mudanças no cenário internacional.
"Como economista, considero este episódio uma importante lição para todos nós. Precisamos compreender que decisões comerciais estão cada vez mais ligadas à geopolítica e aos interesses estratégicos das grandes potências."