Especialistas destacam que aumento de diagnósticos tardios está ligado à informação e reforçam impactos emocionais, sociais e profissionais na vida adulta
O tema do autismo em adultos foi destaque no quadro “Saúde Mental em Pauta”, que contou com a participação das psicólogas Atenilde Gonçalves e Olívia Magalhães. Em alusão ao Abril Azul, mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), as especialistas discutiram os impactos socioemocionais e os desafios enfrentados por pessoas diagnosticadas na vida adulta.
Atenilde explicou que o aumento no número de diagnósticos tardios está diretamente ligado ao acesso à informação.
“Essa descoberta deve-se, de forma bem específica, à disseminação das informações. Antes, o autismo estava muito restrito a manuais técnicos, e hoje a gente entende melhor a abrangência disso”, afirmou.
Segundo a psicóloga, muitos adultos passam a buscar ajuda ao identificar em si comportamentos semelhantes aos dos filhos.
“Alguns pais se percebem nos filhos e dizem: ‘eu também passei por isso na infância’. A partir daí, começam a investigar”, completou.
Entre os sinais mais comuns do autismo em adultos, Atenilde destacou a dificuldade na comunicação social, que pode afetar diferentes áreas da vida.
“A dificuldade na comunicação interfere na vida social, no trabalho e na vida pessoal. O autista pode ser mais literal, ter dificuldade com metáforas e isso, muitas vezes, é mal interpretado como falta de educação”, explicou.
Ela reforça que a compreensão por parte da sociedade é essencial para evitar julgamentos equivocados e promover inclusão.
O diagnóstico na fase adulta pode gerar diferentes reações, mas, segundo a especialista, o sentimento predominante costuma ser de alívio.
“Normalmente, o paciente traz como sendo um alívio. É uma forma de compreender seus próprios comportamentos: ‘agora eu entendo por que ajo assim’”, disse.
Atenilde ressalta que o autismo não é uma doença, mas uma condição do neurodesenvolvimento. “Não tem cura porque não é doença. Mas precisa ser compreendido e acompanhado para garantir qualidade de vida”, pontuou.
Apesar disso, ela destaca que o diagnóstico tardio também pode trazer impactos emocionais, sociais e até financeiros, já que muitas pessoas não tiveram acesso a intervenções precoces.
As psicólogas reforçaram a necessidade de avaliação profissional adequada, incluindo acompanhamento psicológico, psiquiátrico e avaliação neuropsicológica.
“A intervenção é necessária porque o autismo pode vir acompanhado de comorbidades. É preciso trabalhar habilidades sociais e promover qualidade de vida em todas as áreas”, destacou Olívia.
Ela ainda chamou atenção para a importância de nomear sentimentos e sintomas, facilitando o entendimento e o tratamento adequado.
“O diagnóstico é libertador, porque dá nome ao que a pessoa sente e direciona o caminho para lidar com isso”, afirmou.
O autismo também pode impactar significativamente os relacionamentos. Dificuldades em compreender emoções próprias e do outro podem gerar conflitos.
“Se eu não consigo perceber minhas emoções, vou ter dificuldade de lidar com as emoções do outro. Isso afeta diretamente as relações afetivas”, explicou Atenilde.
Ela também destacou questões como inflexibilidade cognitiva, sensibilidade sensorial e exaustão social como fatores que interferem no convívio.
“Ambientes com muitos estímulos, como um shopping cheio, podem ser extremamente desgastantes. Não é falta de educação, é sobre não conseguir dar conta daquele excesso”, disse.
As especialistas reforçaram a importância da inclusão e do acolhimento social em todas as fases da vida.
“A criança autista cresce, se torna adolescente, adulto e idoso. A sociedade precisa estar de braços abertos para recebê-los”, concluiu Atenilde.