Gesner Brehmer avalia que crescimento foi impulsionado pelo agronegócio, mercado de trabalho aquecido e estímulos do governo, mas aponta riscos para 2027
O Banco Central elevou de 1,6% para 2% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026, conforme divulgado no Relatório de Política Monetária. A revisão foi motivada pelo desempenho acima do esperado da economia no primeiro trimestre, quando o país registrou crescimento de 1,1% em relação ao último trimestre de 2025.
Para o economista e mestre em Planejamento Territorial pela UEFS, Gesner Brehmer, o resultado positivo foi impulsionado principalmente pela agropecuária, pela recuperação da indústria extrativa e por medidas de estímulo fiscal adotadas pelo governo federal.
“A surpresa positiva no crescimento já do primeiro trimestre da economia brasileira e o desempenho extremamente favorável da agropecuária foram determinantes para essa revisão. Também houve uma melhora da indústria extrativa e medidas de estímulo fiscal que estimularam esse crescimento e essa projeção de surpresa produtiva”, afirmou.
Segundo Brehmer, outro fator importante destacado pelo Banco Central é a resiliência do mercado de trabalho, com taxas de desemprego próximas das mínimas históricas, o que tem sustentado o consumo das famílias.
“Quando o desemprego está em níveis muito baixos, as famílias têm mais poder de consumo. Isso fortalece a demanda interna e ajuda a explicar o crescimento acima do esperado no primeiro trimestre”, explicou.
Apesar do avanço da economia, o economista ressalta que o crescimento ocorre em um ambiente de juros elevados e de incertezas externas, especialmente em função das tensões geopolíticas no Oriente Médio.
A taxa Selic foi reduzida recentemente para 14,25% ao ano, mas ainda permanece em um dos patamares mais altos do mundo. Para Gesner Brehmer, os juros elevados continuam restringindo o crédito e limitando o crescimento futuro.
“Quanto mais alta for a Selic, mais custosos ficam empréstimos e financiamentos. Isso já gera uma restrição na economia e reduz as projeções de crescimento para os próximos anos”, afirmou.
O economista, no entanto, argumenta que os juros não são a causa principal dos problemas econômicos.
“A taxa de juros alta não é uma doença, e sim um sintoma. Ela reflete políticas fiscais que geraram uma dívida pública muito elevada e aumentaram a pressão inflacionária”, declarou.
Brehmer avalia que, sem reformas estruturais, o Brasil tende a crescer em torno de 2% ao ano nos próximos anos.
“Caso não haja uma reforma fiscal bastante robusta, atrelada a outras reformas econômicas, a tendência é de uma economia crescendo no máximo 2% ao ano”, disse.
Ele prevê ainda um cenário mais difícil em 2027, independentemente do resultado das eleições presidenciais.
“Vai ser um ano de ajuste na casa. Seja qual for o governo eleito, haverá necessidade de um forte ajuste fiscal para reorganizar a economia e permitir crescimento sustentável nos anos seguintes”, avaliou.
Na análise do economista, 2026 será um ano atípico por causa das eleições, o que reduz o espaço político para medidas estruturais.
“Governos que buscam a reeleição costumam adotar medidas de estímulo de curto prazo para melhorar a percepção do consumidor. Isso ocorre agora também, com programas de renegociação de dívidas e outras iniciativas voltadas ao consumo”, afirmou.
Segundo ele, essas ações têm impacto fiscal e podem aumentar as pressões inflacionárias.
“O governo acelera os gastos e o Banco Central pisa no freio com juros altos. Esse descompasso entre política fiscal e política monetária torna o cenário econômico bastante desafiador”, concluiu.