Empresário afirma que transformação do país depende da participação popular, fiscalização dos eleitos e planejamento de longo prazo.
O empresário Carlos Medeiros discutiu o tema "O Brasil tem jeito?". Durante entrevista, ele avaliou o cenário político nacional, comentou o desinteresse da população pela política, falou sobre os desafios da gestão pública e defendeu que a transformação do país passa por uma mudança cultural e pelo maior envolvimento dos cidadãos na fiscalização dos representantes eleitos.
O debate começou a partir de uma pesquisa que aponta que grande parte dos brasileiros não lembra o nome dos parlamentares em quem votou. Para Medeiros, esse cenário é consequência do desgaste da política provocado por sucessivos escândalos de corrupção.
"O Brasil tem jeito demais. Tem sim, não tenho a menor dúvida. Agora, o sistema conseguiu fazer com que o brasileiro ficasse totalmente apático à política. As pessoas estão desacreditadas por causa da quantidade de escândalos que vivem todos os dias", afirmou.
Segundo ele, a população passou a acreditar que todos os políticos são iguais, o que reduz o interesse pela participação política e enfraquece a cobrança sobre os eleitos.
"Os políticos conseguiram colocar na cabeça do cidadão que todo mundo é igual. Quando todo mundo é igual, parece que não faz diferença. Isso faz o povo perder o interesse e deixar de cobrar quem está fazendo errado", declarou.
Medeiros revelou que também já foi uma pessoa completamente afastada da política, mas mudou de postura ao perceber que apenas reclamar não resolveria os problemas do país.
"Eu era um cara que tinha tanta raiva da política que dizia que não queria saber disso. Até que chegou um momento em que pensei: a gente só reclama e não faz nada. Se as pessoas de bem ficarem fora da política, estão dando oportunidade para o sistema continuar como está", disse.
Para o empresário, a mudança não acontecerá por meio de um "salvador da pátria", mas sim através de um processo gradual de conscientização da sociedade.
"Não vai existir um salvador. O Brasil tem jeito, mas é um processo lento de mudança cultural. É preciso trazer as pessoas de bem para participar da política e acompanhar o que acontece depois da eleição", ressaltou.
Ao analisar os principais problemas enfrentados pelo país, Medeiros afirmou que a maior crise vivida atualmente é de ordem moral.
"Eu diria que a principal crise do Brasil é moral. Quando existe uma crise moral, a sociedade começa a aceitar como normal coisas que são anormais, como corrupção, compra de voto e o famoso jeitinho", avaliou.
Ele também destacou que, com o avanço das redes sociais e das ferramentas digitais, ficou mais fácil acompanhar e cobrar o desempenho dos representantes públicos.
"Hoje a proximidade com o político depois da eleição é mais importante do que antes. É nesse momento que o cidadão pode cobrar coerência, acompanhar votações e fiscalizar o mandato", afirmou.
Questionado sobre quais experiências da iniciativa privada poderiam ser aplicadas à administração pública, Medeiros defendeu maior planejamento estratégico e visão de longo prazo.
Segundo ele, enquanto empresas trabalham pensando nas próximas décadas, boa parte dos gestores públicos concentra suas decisões apenas no próximo ciclo eleitoral.
"Na iniciativa privada existe planejamento de longo prazo. Já na política, infelizmente, muitos governantes pensam apenas nos próximos dois anos. Isso faz com que deixem de investir no que realmente é importante para o futuro", disse.
Como exemplo, citou o crescimento urbano de Feira de Santana, que, segundo ele, ocorreu sem planejamento adequado.
"Você faz um aeroporto pequeno porque acha que não precisa de mais. Depois a cidade cresce e é preciso gastar muito mais para ampliar. Falta planejamento pensando nos próximos 20 ou 30 anos", exemplificou.
Ao comentar quais áreas deveriam receber prioridade do poder público, Medeiros destacou que a geração de empregos deve estar no centro das políticas públicas.
Para ele, o crescimento econômico proporciona mais autonomia às famílias e reduz a dependência de programas assistenciais.
"A geração de emprego precisa ser o grande foco. Bolsa Família representa sobrevivência. O ideal seria que a maioria das pessoas tivesse independência financeira por meio do trabalho, vivendo com dignidade e sem depender de benefícios", afirmou.
Embora reconheça a importância de áreas como saúde, educação e segurança pública, ele acredita que o emprego é o caminho para fortalecer a autonomia dos cidadãos.
"O Estado deve oferecer saúde, educação e segurança de qualidade, mas a independência vem do trabalho, do próprio dinheiro e não do dinheiro do governo", pontuou.
Carlos Medeiros deixou uma mensagem aos eleitores que perderam a confiança na política, incentivando a população a voltar a participar do processo democrático.
"Assim como o brasileiro acredita que a seleção pode conquistar uma Copa do Mundo, eu quero que também acredite que podemos ter a melhor educação, a melhor saúde e um país muito melhor. Mas isso só acontece com participação popular", declarou.
Ele reforçou que votar conscientemente e acompanhar o trabalho dos eleitos é a principal ferramenta para transformar a realidade política.
"Quem deixa de votar ou não pesquisa o candidato está ajudando a manter tudo como está. O que o cidadão pode fazer para mudar o sistema é votar e votar cada vez melhor", concluiu.