09/06/2026
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Diaristas premium avançam no Brasil, mas especialistas alertam para precarização e perda de direitos

Valorização aparente esconde avanço da informalidade, queda no emprego com carteira assinada e desafios históricos enfrentados pelas trabalhadoras domésticas

Redação:
segunda-feira, 04 de maio de 2026 às 06:12
Imagem de Diaristas premium avançam no Brasil, mas especialistas alertam para precarização e perda de direitos

O crescimento das chamadas “diaristas premium” tem chamado atenção no Brasil, especialmente em bairros de alto padrão. Com uniformes próprios, equipamentos especializados e serviços personalizados, essas profissionais passaram a oferecer um modelo mais técnico de limpeza, com diárias que podem chegar a R$ 1 mil. Apesar da valorização aparente, especialistas e representantes da categoria fazem um alerta: a realidade da maioria das trabalhadoras ainda é marcada pela informalidade e precarização.

De acordo com Thiago Pimentel, chefe de agência do IBGE, os dados disponíveis sobre o setor ainda são limitados. Ele explica que as informações vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o que impede um detalhamento mais específico por município ou por função exata.

“A gente não consegue gerar dados pra Feira de Santana especificamente dessa pesquisa. A gente consegue gerar dados a nível de Brasil e a nível de Bahia”, afirmou.

Segundo ele, o IBGE não possui uma estatística específica para diaristas, mas trabalha com o recorte de trabalhadores domésticos que atuam em mais de uma residência, o que serve como aproximação desse grupo.

“A gente pesquisa trabalhadores domésticos em geral e consegue fazer um recorte daqueles que trabalham em mais de uma residência. É o que a gente tem de forma aproximada sobre as diaristas”, explicou.

Thiago também destaca uma tendência de queda no número de trabalhadores domésticos, tanto formais quanto informais, ao longo dos anos.

“Tanto trabalhadores domésticos informais quanto com carteira assinada vêm reduzindo ao longo dos anos”, pontuou.

Ele ressalta ainda que, embora não seja possível medir com precisão o rendimento das diaristas, há uma diferença clara entre formalidade e informalidade.

“Quem tem carteira assinada, em geral, tem rendimentos maiores do que quem trabalha na informalidade. Isso seguramente se repete entre as diaristas”, disse.

“Diarista premium é exceção”, diz sindicato

Para o diretor do Sindoméstico Bahia, Francisco Xavier de Santana, o conceito de “diarista premium” não reflete a realidade da maioria das trabalhadoras.

“Essa coisa da diarista premium é uma ilusão. É igual loteria: uma em milhões vai ter essa condição. A maioria esmagadora está em situação extremamente precária”, afirmou.

Segundo ele, fatores históricos e sociais, como racismo e a desvalorização do trabalho feminino, influenciam diretamente esse cenário.

“Nossa sociedade não valoriza o trabalho das mulheres, especialmente das mulheres negras. Isso impacta diretamente o trabalho doméstico”, destacou.

O sindicalista também critica a cultura de informalidade no setor, que, segundo ele, persiste mesmo com a legislação vigente.

“A sociedade não reconhece o vínculo, não assina carteira e não cumpre a legislação. Isso é cultural”, disse.

Dados do Ministério do Trabalho indicam que o número de trabalhadores domésticos com carteira assinada caiu 21,1% entre 2016 e 2025, passando de 1,64 milhão para 1,30 milhão. Para Francisco Xavier, no entanto, o número total de trabalhadores na área pode ser bem maior do que o estimado oficialmente.

“Falam em 5 ou 6 milhões, mas, na prática, a gente acredita que o Brasil tenha mais de 10 milhões de trabalhadoras domésticas”, afirmou.

Outro ponto destacado pelo diretor do sindicato é o aumento de trabalhadoras que deixam o regime mensalista para atuar como diaristas, muitas vezes, segundo ele, sem entender os riscos.

“Se você conversar com dez, as dez estão arrependidas. Uma ou outra consegue ganhar melhor, mas a grande maioria está insatisfeita”, relatou.

Ele também alerta para a falsa ideia de que ter carteira assinada significa receber apenas um salário mínimo.

“A sociedade colocou na cabeça das trabalhadoras que assinar carteira é ganhar salário mínimo, e isso não é verdade”, explicou.

Além disso, o avanço de plataformas digitais e contratações informais tem contribuído para o aumento da precarização.

“Essas plataformas e agências, muitas vezes clandestinas, estão ampliando a informalidade e tirando direitos das trabalhadoras”, criticou.

Apesar da imagem de profissionalização, o trabalho por diária pode trazer riscos à saúde e à segurança das trabalhadoras, segundo o sindicato.

“São trabalhadoras que fazem em um dia o serviço de uma semana inteira, o que aumenta o risco de acidentes e adoecimento”, alertou Francisco Xavier.

Ele conclui que o modelo atual, embora vendido como mais lucrativo, pode comprometer o futuro das profissionais.

“Aumenta o número de trabalhadoras sem acesso à previdência, adoecidas e sem direitos após anos de trabalho”, disse.

*Com informações do repórter JP Miranda

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