Economista Gesner Brehmer avalia que alta do crédito, baixa poupança e falta de educação financeira explicam avanço das dívidas
O nível de endividamento das famílias brasileiras voltou a subir e atingiu 80,9% em abril, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), marcando o quarto mês consecutivo de recorde da série histórica. Em março, o índice era de 80,4%. Um ano antes, estava em 77,6%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Os dados mostram que mais de oito em cada dez famílias no país possuem algum tipo de dívida, como cartão de crédito, empréstimos pessoais, carnês, cheque especial e financiamentos.
Apesar do avanço do endividamento, a inadimplência permaneceu praticamente estável, passando de 29,6% para 29,7% entre março e abril. Já o percentual de famílias que não terão condições de pagar suas dívidas em atraso ficou em 12,3%.
Para o economista e Mestre em Planejamento Territorial pela UEFS, Gesner Brehmer, o cenário reflete um problema estrutural da economia brasileira, intensificado nos últimos anos.
“Esse nível de endividamento reflete a porcentagem das famílias brasileiras que estão com endividamento considerado moderado a grave. Hoje, 81% das famílias estão nessa condição”, afirmou.
Segundo ele, a expansão do crédito após a pandemia foi um dos principais fatores para o crescimento das dívidas.
“Nós tivemos uma política de crédito bastante frouxa nos últimos seis anos. Isso aumentou a disponibilidade de crédito para as famílias, que passaram a usar esse recurso principalmente para consumo”, explicou.
Gesner destaca que o consumo tem papel central na economia, mas o excesso de dependência do crédito gera desequilíbrios.
“O consumo é um dos fatores mais relevantes para o PIB. Mas esse nível elevado de endividamento, aliado ao crédito fácil, cria um cenário preocupante”, avaliou.
Além do crédito facilitado, o economista aponta fatores comportamentais como agravantes da situação.
“Existe um problema cultural importante: a baixa capacidade de poupança. As famílias brasileiras não têm hábito de poupar, pelo contrário, existe uma cultura de consumo”, disse.
Ele também chama atenção para a falta de educação financeira.
“Infelizmente, a falta de educação financeira também é um problema que afeta as famílias brasileiras. A combinação desses fatores leva a esse cenário desafiador”, completou.
De acordo com Gesner, o aumento do endividamento pode levar à desaceleração da atividade econômica ao longo do ano.
“Esse cenário deve refletir uma desaceleração da atividade econômica neste ano”, alertou.
Como orientação prática, o economista reforça medidas básicas de organização financeira.
“O primeiro e mais essencial é nunca gastar mais do que você ganha. Também é importante evitar ao máximo o uso do cartão de crédito, renegociar financiamentos e prazos”, afirmou.
A alta do endividamento foi registrada em todos os grupos de renda. Entre famílias que ganham até três salários mínimos, o índice chegou a 83,6%. Já entre os que recebem acima de 10 salários mínimos, o percentual subiu para 70,8%.
A inadimplência também apresentou variações, com estabilidade entre as famílias de menor renda e leve aumento nos grupos intermediários e mais altos.
*Com informações da repórter Isabel Bomfim