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Exposição precoce às telas pode causar atrasos no desenvolvimento infantil, alerta neuropediatra

Especialista alerta para impactos neurológicos, emocionais e sociais do uso excessivo de telas na primeira infância

Por Rafa
quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
Foto: Arquivo pessoal
Foto: Foto: Arquivo pessoal

O uso excessivo e cada vez mais precoce de telas por crianças tem gerado impactos significativos no desenvolvimento neurológico, emocional e social, segundo alerta da pediatra Dra. Thais Campos Cerqueira, pós-graduada em neuropediatria e em neurodesenvolvimento e seus transtornos. O tema ganha ainda mais relevância diante do crescimento acelerado do acesso à internet na primeira infância no Brasil.

De acordo com a médica, estudos científicos já demonstram que o contato com telas desde os primeiros meses de vida está associado a prejuízos importantes no desenvolvimento cerebral.

“Vários estudos de metanálise mostram impactos principalmente nas áreas de linguagem e comunicação, com crianças apresentando menor vocabulário e atraso na aquisição da fala”, explica.

A especialista também destaca prejuízos na atenção e na autorregulação emocional.

“Essas crianças têm maior risco de sintomas atencionais e dificuldade de regular as emoções, o que se reflete em mais birras, agitação e dificuldade de lidar com frustrações”, afirma.

Outro ponto sensível é o sono. Segundo a neuropediatra, o uso de telas, especialmente no período noturno, afeta diretamente a qualidade do descanso infantil.

“A luz azul das telas reduz a produção de melatonina, que é o hormônio do sono, diminuindo a duração e a qualidade do descanso. Isso pode comprometer a consolidação da memória e a regulação emocional”, ressalta.

Foto: Arquivo pessoal

Além disso, o excesso de tempo diante de celulares, tablets e televisões reduz momentos fundamentais para o desenvolvimento infantil.

“O uso precoce das telas ocupa o tempo que deveria ser destinado a brincadeiras ao ar livre, exploração sensorial, leitura e interação social — atividades essenciais para o desenvolvimento cerebral”, pontua a médica.

Estudos de neuroimagem citados por Dra. Thais apontam alterações estruturais no cérebro de crianças expostas por longos períodos às telas.

“Há diferenças na conectividade e no volume de áreas relacionadas à linguagem, atenção e controle executivo, especialmente em crianças com alta exposição”, afirma.

No aspecto socioemocional, os reflexos também são evidentes. “Há menos interação entre crianças e adultos, o que prejudica habilidades sociais, empatia e a leitura de sinais não verbais”, acrescenta.

No consultório, os efeitos se repetem com frequência. “Tenho visto muitas crianças com atraso de fala, dificuldades emocionais, problemas de sono e impactos tanto na vida social quanto acadêmica”, relata. Segundo ela, aos dois anos de idade, a criança já deveria formar frases, o que nem sempre tem acontecido.

O sedentarismo também surge como consequência. “Crianças de oito e nove anos já chegam com obesidade infantil, resultado da combinação entre excesso de telas e falta de atividade física”, alerta. Há ainda queixas visuais recorrentes, como fadiga ocular, olhos secos, dor de cabeça e coceira nos olhos.

A médica chama atenção para o impacto da desigualdade socioeconômica nesse cenário. Um estudo de 2024 mostra que crianças de famílias de baixa renda são mais expostas às telas.

“Muitas vezes, o tempo ocioso é substituído pelas telas porque essas famílias não têm condições financeiras de oferecer atividades extracurriculares”, explica.

Ela ressalta ainda fatores como violência urbana, falta de espaços de lazer, longas jornadas de trabalho dos pais e ausência de rede de apoio.

“As telas acabam funcionando como babás eletrônicas e uma forma de entretenimento de baixo custo”, observa.

O reflexo, segundo a especialista, aparece na alfabetização e no convívio social. “Tenho observado crianças com dificuldades de aprendizagem, de fazer amigos e de lidar com frustrações, especialmente entre aquelas em situação de maior vulnerabilidade social”, diz.

O cenário descrito pela neuropediatra é confirmado por dados do estudo “Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais”, divulgado pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). A pesquisa aponta que o acesso à internet na primeira infância mais que dobrou no Brasil em menos de uma década, passando de 11% em 2015 para 23% em 2024.

Entre os bebês de até dois anos, 44% já têm acesso à internet, enquanto entre crianças de três a cinco anos esse número chega a 71%.

A publicação reforça as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que orienta zero uso de telas para crianças menores de dois anos. Para aquelas entre dois e cinco anos, o tempo deve ser limitado a até uma hora por dia, sempre com supervisão de um adulto responsável.

Para a Dra. Thais Campos Cerqueira, a conscientização das famílias é fundamental. “Os prejuízos são enormes e atingem todas as áreas da vida da criança. Informação e orientação são essenciais para proteger o desenvolvimento saudável na primeira infância”, conclui.

*Com informações do repórter JP Miranda

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