Especialista explica que a maioria das feridas tem chance de cicatrização, mas fatores internos do organismo podem dificultar o processo e aumentar o risco de complicações graves
A estomaterapeuta e especialista em dermatologia aplicada a feridas, Áquilla Chahinne, esclareceu dúvidas sobre as chamadas feridas crônicas e destacou que, na maioria dos casos, a dificuldade de cicatrização está relacionada a problemas de saúde que precisam ser identificados e tratados.
Segundo a especialista, existe um equívoco comum de que a cicatrização depende apenas dos produtos aplicados sobre a lesão.
“Quando nós usamos um produto para cicatrizar, ele vai apenas estimular esse processo que o próprio corpo faz. O processo da cicatrização é interno, ele acontece de dentro para fora”, explicou.
Áquilla ressaltou que algumas doenças podem comprometer a capacidade do organismo de regenerar os tecidos. Entre os fatores mais comuns estão diabetes, problemas vasculares, doença falciforme, tabagismo e até feridas relacionadas ao câncer.
“É muito pouco provável que exista de fato a ferida que não cicatriza. Em cerca de 90% dos casos, a ferida tem chance de cicatrizar, mas é preciso tratar o problema que está dificultando esse processo”, afirmou.
A especialista alertou que nem toda lesão merece apenas cuidados básicos. Alguns sinais indicam a necessidade de procurar ajuda especializada.
“Quando a ferida apresenta aspecto escurecido, amarelado, muita vermelhidão ao redor, dor, excesso de secreção ou passa de quatro semanas sem cicatrizar, é um sinal de alerta”, destacou.
Pacientes com doenças pré-existentes, como diabetes ou problemas circulatórios, devem buscar avaliação ainda mais cedo.
“Se a pessoa já sabe que tem um problema de saúde que dificulta a cicatrização, não precisa esperar. Surgiu o ferimento, já deve procurar um especialista”, orientou.
Durante a entrevista, Áquilla relatou o caso recente de uma paciente que procurou atendimento após um corte no pé causado por vidro. Apesar de negar ser diabética, exames realizados durante a avaliação apontaram glicemia próxima de 500 mg/dL.
“Ela já tinha passado por vários serviços de saúde, mas havia um fator agravante que ninguém tinha identificado. O estomaterapeuta faz justamente essa investigação para descobrir o que está impedindo a cicatrização”, explicou.
Segundo ela, muitas vezes a ferida é apenas um sinal de que existe algum problema de saúde ainda não diagnosticado.
Áquilla explicou que o estomaterapeuta é o profissional especializado no tratamento de feridas complexas, ostomias e incontinências, sendo responsável por avaliar não apenas a lesão, mas também as condições clínicas do paciente.
“O estomaterapeuta estuda feridas, conhece as melhores coberturas, as técnicas de limpeza e as tecnologias que podem acelerar a recuperação. É um profissional dedicado exclusivamente ao tratamento de feridas”, disse.
Ela destacou que cada tipo de lesão possui características próprias e exige abordagens diferentes.
“Cada organismo reage de uma forma e cada ferimento precisa de um tratamento específico. O produto que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.”
Outro ponto abordado foi o uso de receitas caseiras e da automedicação, práticas que podem agravar o quadro.
“Um dos erros mais comuns é tentar tratar sem orientação profissional. A gente vê muitos casos de pessoas usando pomadas em excesso, chás, ervas e outras receitas caseiras que acabam aumentando a lesão ou provocando infecções”, alertou.
A especialista também chamou atenção para pacientes que passam meses ou até anos convivendo com feridas por acreditarem que conseguirão resolver o problema sozinhos.
“Não espere. Essas tentativas acabam dificultando a cicatrização e podem gerar complicações muito mais graves.”
Áquilla reforçou a importância do diagnóstico precoce para evitar complicações severas, como amputações.
“A gente precisa reduzir esse número de amputações e de pessoas convivendo com feridas crônicas. Muitas vezes existe tratamento e possibilidade de recuperação, mas o paciente não sabe que pode buscar ajuda especializada”, afirmou.
A especialista destacou que o objetivo do trabalho realizado na clínica é proporcionar qualidade de vida e recuperação aos pacientes.
“Nossa missão é levar cicatrização e qualidade de vida através de tratamentos avançados e inovadores. Muitas pessoas acreditam que não têm mais solução, mas ainda existe a chance de voltar a sorrir.”